“Pior do que um comunista, é um anticomunista!”

100 anos da Revolução Russa.

Sou de 1959. Cresci num mundo dividido entre capitalistas e socialistas.

(Dom Hélder, como Glauber Rocha, diria entre ricos e pobres.)

Nos anos 1960, um dos grandes símbolos dessa divisão era a corrida espacial.

Estados Unidos X União Soviética.

Quem estava na frente?

Havia até torcida!

Os russos largaram melhor, já em 1957, colocando na órbita da terra o primeiro satélite artificial (o Sputnik), o primeiro ser vivo (a cadelinha Laika) e, em 1961, o primeiro homem (o cosmonauta Gagarin).

Mas os americanos conquistaram a Lua. Armstrong e Aldrin pisaram no solo lunar em 1969.

Curioso. Naquele tempo, era difícil imaginar o mundo sem essa divisão. Um amigo sociólogo que previa o fim da União Soviética era chamado de maluco. E não era!

De outro amigo, quando a União Soviética desmoronou, ouvi o seguinte: o importante é a felicidade (possível) do homem, e ela não está nem na permanência nem no fim da URSS.

Ando lembrando dessas coisas agora nos 100 anos da Revolução Bolchevique.

Em Moscou, com Putin ausente das comemorações dessa terça-feira (07), foi reeditada a parada militar de 1941, quando, sob Stalin, a União Soviética era ameaçada pelas forças nazistas.

O centenário coincide com um momento em que o mundo está assustadoramente dividido e conflagrado. Até a classificação esquerda e direita, que já pareceu tão anacrônica, voltamos a usar.

O que restou do projeto socialista tem uma feição que talvez não estivesse nas previsões do meu amigo sociólogo: a China, que, com seu capitalismo de Estado (chamo assim?), surpreende e empolga até anticomunistas daqui.

Nunca temi comunistas (meu pai era um deles). Sempre desconfiei de anticomunistas.

Na minha cabeça, o que havia era o sonho da síntese (improvável) das conquistas positivas de ambos os lados.

Algo assim: “Todo mundo é socialista de coração”, frase que ouvi de Gilberto Gil há mais de 30 anos.

E já que que a música é um dos meus amores, a tradução dessa síntese estava em Louis Armstrong, gênio do jazz, no instante em que ele, em plena Guerra Fria, transformava em blues uma velha canção russa.

Mas isso aí é papo de gente maluca!

A imagem que uso para encerrar essa conversa é a de um legado soviético, O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein.