Com Banzeiro, Daniela Mercury bota Dona Onete no carnaval

Vamos falar um pouco sobre o carnaval 2018?

Um dos grandes hits da festa deve ser Banzeiro, com Daniela Mercury.

A baiana acaba de lançar nas plataformas digitais um EP chamado Trieletro, e a faixa principal, aquela que está destinada ao sucesso, é Banzeiro, que a gente já conhece na voz de Dona Onete.

Dona Onete é root, Daniela é mainstream, e isso está claro quando você ouve as duas gravações.

A versão de Daniela leva Dona Onete para cima do trio elétrico – podemos sintetizar assim. Mas é, ao mesmo tempo, fiel à gravação da artista paraense de 78 anos.

Minha opinião?

Gosto muito das duas, cada uma com suas peculiaridades.

E acho importante que uma cantora como Daniela Mercury leve Dona Onete para o seu repertório.

Vamos ouvir?

Seguem as duas versões de Banzeiro.

Constituição de 1988 acabou com a censura no Brasil

Nos primeiros tempos da TV Cabo Branco (1987/1988), convivíamos com uma visita diária de um funcionário da Polícia Federal.

A programação das emissoras de televisão ainda estava sob censura, e ele cuidava disso.

Promulgada a nova Constituição, em outubro de 1988, recebemos a última visita dele.

Nosso editor chefe, Erialdo Pereira, me chamou à sua sala e, diante do cara da PF, disse:

Hoje é um dia histórico! A censura acabou!

Vou lembrar de um filme. Nele, Jesus Cristo desce da cruz, abre mão da condição de filho de Deus, casa, tem filhos e envelhece como um homem comum. O diretor é um homem de formação católica. O filme é A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese.

Lembro de outro filme. A meiga e doce Rosemary está grávida. Coisas estranhas começam a acontecer, envolvendo o marido e os vizinhos, um casal de velhinhos. Eles são de uma seita demoníaca? O bebê será um filho de Satã? O filme é O Bebê de Rosemary, de Roman Polansky.

Em sua nova turnê, os Rolling Stones abrem os shows com Sympathy for the Devil, um dos clássicos do repertório da banda. A música sempre está no repertório deles. Foi composta no Brasil em 1968, durante umas férias de Mick Jagger e Keith Richards, e é considerada um samba.

Esses exemplos estão aqui por causa de um projeto do deputado Marco Feliciano. Diz assim:

2º. Não será permitido que a programação de TV, cinema, DVD, jogos eletrônicos e de interpretação – RPG, exibições ou apresentações ao vivo abertas ao público, tais como as circenses, teatrais e shows musicais, profanem símbolos sagrados.”

Poderemos rever A Última Tentação de Cristo?

Poderemos rever O Bebê de Rosemary?

Poderemos ir ao show dos Rolling Stones?

O projeto do deputado Feliciano é muito amplo. Muito subjetivo. Muitíssimo perigoso. Restaura a censura (ou parte dela). Rasga a nossa Constituição.

Deve ser inserido nessa escalada de obscurantismo que estamos testemunhando no Brasil.

De um lado (e principalmente desse lado), a truculência da direita.

Do outro, o politicamente correto que muitas vezes conduz a esquerda em direção à censura.

Um debate que, certamente, será inserido na campanha eleitoral de 2018. E com chances enormes de conquistar expressivas fatias da população.

Vou fechar recorrendo ao “livrinho” do qual não devemos nos afastar:

“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”

“é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” 

O Brasil não tem censura!

O Brasil tem liberdade de imprensa!

São conquistas fundamentais do nosso processo civilizatório!

Quando o assunto é nudez, o Facebook também é obscurantista?

Meu post anterior, ilustrado com essa foto do espetáculo Macunaíma, foi removido pelo Facebook.

Dias atrás, meu post sobre a morte do fundador da Playboy também foi removido. Tinha uma foto de Marilyn Monroe nua.

Vou, então, perguntar:

Quando o assunto é nudez, o Facebook também é obscurantista?

Fecho com mais uma imagem de nudez:

O São Francisco de Assis interpretado por Graham Faulkner em Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zeffirelli.

Todo mundo nu em Macunaíma! E com o governador na plateia!

É assustadora essa gigantesca onda neoconservadora que contamina o debate sobre as obras de arte no Brasil.

Lamento dizer (porque abomino as ditaduras) que, até em alguns momentos dos governos de exceção implantados depois de 1964, conseguimos nos sobrepor ao atraso e ao obscurantismo.

Hoje, quero contar uma pequena história que começa com essa foto.

Essas pessoas nuas no palco são do elenco de Macunaíma, espetáculo de Antunes Filho.

Macunaíma, o livro de Mário de Andrade, é do final dos anos 1920.

Macunaíma, o filme do cinemanovista Joaquim Pedro de Andrade, é da segunda metade da década de 1960.

Macunaíma, a peça de Antunes Filho, é do final dos anos 1970.

O espetáculo foi um sucesso absoluto de público e crítica.

O governador da Paraíba era Tarcísio Burity, um homem de grande erudição.

Pois bem, sob o patrocínio do Estado, ele quis trazer Macunaíma para o nosso Teatro Santa Roza.  Achou que era importante para a política cultural do seu governo. E o fez.

Atores e atrizes atuavam nus. Não tinha problema algum. O trabalho de Antunes era absolutamente extraordinário.

Eu vi! Com o teatro lotado!

Foi inesquecível!

E sabem quem estava na plateia?

O governador Tarcísio Burity!

Gracias a la vida! Violeta Parra nasceu há 100 anos

Nesta quarta-feira (04), faz 100 anos que nasceu Violeta Parra.

A compositora chilena estava a alguns meses de completar 50 anos quando se matou, em fevereiro de 1967.

Violeta não viveu para ver Allende no poder, nem o golpe que depôs o presidente.

Mas sua música está associada àqueles tempos.

As músicas de Parra foram ouvidas num contexto histórico marcado por governos de exceção e soaram como canções de resistência para muitos que moravam na América do Sul.

Fecho com versos de Gracias a La Vida, clássico do seu repertório, ouvido com Violeta Parra, Mercedes Sosa, Joan Baez e Elis Regina:

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con el las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano, y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando

Janis Joplin (ainda) é a maior voz feminina do rock!

A primeira imagem que o mundo guardou dela talvez tenha sido a da sua performance no documentário Monterey Pop, de 1967.

A jovem texana branca cantando Ball and Chain, um blues demolidor.

Na plateia, Mama Cass, do quarteto The Mamas and The Papas, assiste (literalmente) com a boca aberta!

Era Janis Joplin, cantora de um grupo tosco (o Big Brother and The Holding Co.) que logo seria suplantado pela força da sua voz.

Nesta quarta-feira (04), faz 47 anos que Joplin morreu solitariamente no quarto de um hotel por causa de uma dose de heroína.

Tinha 27 anos e lutava contra o vício.

Tudo o que o mundo conservou dela aconteceu entre 1967 e 1970.

Janis Joplin é de uma linhagem de grandes cantoras à qual pertencem mulheres atormentadas que levaram suas dores para o que cantaram.

O que elas sentiam (ou o que faltava a elas) estava explícito na performance vocal. Sobrepunha-se ao idioma da canção.

Bastava ouvir, com alguma sensibilidade, para entender.

Isso é o que há de extraordinário nela. Como em Billie Holiday, Maysa, Edith Piaf, Nina Simone, Elis Regina, Amy Winehouse. Não importa o estilo que abraçaram, nem o lugar de onde vieram.

Janis gravou apenas três discos. Quando morreu, o quarto (Pearl) estava praticamente concluído. É o seu legado, ampliado por alguns álbuns póstumos e as imagens dos shows que já vimos em dois documentários dedicados à sua história.

Dizer que era uma branca que cantava como os negros é sempre uma definição imprecisa. Ninguém canta como os negros.

Mas era uma branca que ouviu muito bem a música dos negros americanos, adotando-a como fonte, como matriz, e que tinha um talento extraordinário.

Sua voz não pôde ser lapidada porque sua carreira foi meteórica.

No rock, no blues, no soul, no country, nos estúdios e nos palcos – Janis Joplin era um diamante em estado bruto.

E que diamante!

Todo mundo nu nas capas dos discos. E já faz tanto tempo!

Vivemos tempos obscuros. Estranhamente. Muito estranhamente. Exposições execradas por causa da nudez. A nudez dos homens e das mulheres. A nudez de sempre. De séculos e séculos. Agora questionada por uma (assustadora) onda de neoconservadorismo.

Ontem, numa conversa com um dos meus professores de jornalismo, desses com quem a gente aprende trabalhando nas redações, falamos da nudez em capas de discos. Claro que lembramos de Two Virgins, de John Lennon e Yoko Ono, e de Joia, de Caetano Veloso.

A conversa acabou provocando esse post – apenas uma sequência de nus em capas de discos.

Eletric Ladyland, Jimi Hendrix

Two Virgins, John Lennon e Yoko Ono

Sometime in New York City, John Lennon e Yoko Ono

Índia, Gal Costa

Joia, Caetano Veloso

Joia, Caetano Veloso

EC Was Here, Eric Clapton

Lovesexy, Prince

Nevermind, Nirvana

Amorica, The Black Crowes

Vinil Virtual, Daniela Mercury

25 desenhos da Disney são lançados em box no Brasil

Acaba de ser lançado no Brasil um box com 25 filmes de animação de longa-metragem da Disney.

É item atraente para o mercado nas vendas que antecedem o dia das crianças, mas tem valor permanente.

O produto coincide com os 80 anos de Branca de Neve e Os Sete Anões, obra-prima do seu criador e marco indiscutível do cinema.

Na universidade, no curso de comunicação, Disney era triturado nas conversas sobre Para Ler o Pato Donald.

No seu dicionário de cineastas, Tulard diz que Disney embrutece nossas crianças.

O russo Eisenstein ficou encantado com Branca de Neve.

E o crítico Ebert assinala o seu caráter revolucionário e a influência que exerceu sobre todos (todos mesmo!) os filmes de animação realizados a partir de 1937.

Para mim, metade do box (os filmes realizados até 1967) remete à infância. A outra metade deve remeter à infância de muitas crianças, não mais à minha. Aí, me interessa pouco.

O Disney que está guardado na minha memória afetiva vai de Branca de Neve a Mogli, lançado no ano seguinte à morte do seu criador.

Branca de Neve é de um pioneirismo absoluto. É o primeiro desenho de longa-metragem a cores. Quando foi realizado, nada daquilo existia. E permanece deslumbrante, mesmo que oito longas décadas já nos separem da sua estreia.

Fantasia, a despeito do que dizem seus críticos, é uma experiência ousada. O filme oferece uma conversa sobre música erudita, orquestra sinfônica, instrumentos, som, e tenta traduzir em animação um programa que vai do barroco Bach ao contemporâneo Stravinsky. Não é pouco!

Esses filmes da Disney têm Grimm, Carroll e Kipling transcritos para a linguagem da animação. Têm as princesas acordadas por beijos de príncipes e os animais transformados em gente nas florestas e cidades. Têm o onirismo das viagens de personagens como Peter Pan e Alice. Têm muito jazz e canções que se converteram em standards da música americana e acabaram nas mãos de jazzistas.

Nas dublagens em português, envolveram grandes artistas brasileiros e foram transformados em inesquecíveis disquinhos coloridos.

Geralmente, são filmes tristes com final feliz. Talvez embruteçam as crianças, como defende Tulard, porque as põem em contato com dores inevitáveis, como a orfandade do pequeno Bambi.

De Cinderela, guardo a sensação de vê-lo numa sala fria na matinal de um domingo de muita chuva.

Branca de Neve, vi na matinê de um dia ensolarado. A sala lotada de crianças nascidas – como eu – no fim dos anos 1950. O filme estava sendo relançado em comemoração ao seu trigésimo aniversário.

Tenho a lembrança de como vi cada um desses filmes (Pinóquio, Dumbo, A Dama e o Vagabundo, etc.) com meu olhar infantil.

Eram grandes experiências visuais e sonoras.

Se fui embrutecido, deve ter sido por outras coisas da vida!