Cinco médicos que eu vi no cinema

Hoje (18) é o Dia do Médico.

Seguem, então, cinco médicos que eu vi no cinema.

James Stewart em O Homem que Sabia Demais, de Alfred Hitchcock.

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Montgomery Clift em Freud, Além da Alma, de John Huston.

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Omar Sharif em Dr. Jivago, de David Lean.

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Elliott Gould em M.A.S.H., de Robert Altman.

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Tom Cruise em De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick.

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As (minhas) 10 maiores bandas do rock são essas. E as suas?

Alguns leitores me sugerem temas.

Um garoto pediu a lista das 10 maiores bandas do rock.

Eu respondi que não seriam do tempo dele.

Ele disse que não tinha problema.

OK. Essas escolhas são pessoais e subjetivas.

E essas listas mudam.

No meio, resgatei um texto sobre bandas. Tem grupos que não estão aqui. E não tem alguns que estão.

Para hoje, a minha lista é essa.

(A primeira e a segunda – essas sim! – são imutáveis)

THE BEATLES

THE ROLLING STONES

LED ZEPPELIN

PINK FLOYD

THE WHO

Grupos? Bandas? No passado, o público brasileiro chamava de conjuntos. Eram pequenas formações (três, quatro ou cinco elementos) comandadas por guitarras elétricas. Mais contrabaixo e bateria. No máximo, um teclado. Ou um saxofone.

Bill Haley and His Comets, Buddy Holly and The Crickets, Gene Vincent and His Blue Caps. Nos anos 1950, no advento do rock’n’ roll, os nomes indicavam que os músicos eram meros acompanhantes das estrelas.

Na década seguinte, vieram os grandes grupos, nos quais importava mais o conjunto do que os seus integrantes, embora, mais tarde, estes também tenham se projetado individualmente. Dentro ou fora das bandas a que pertenciam.

A fluidez melódica: Beatles. A presença do blues: Rolling Stones. O psicodelismo que desaguou no progressivo: Pink Floyd. O rock pesado: Led Zeppelin. A criação da ópera-rock: The Who. O conceito de power trio: Cream.

Seis grupos essenciais, seis fundamentos para quem quer se debruçar sobre a história e o papel desempenhado pelas bandas de rock. Está tudo nelas, dos rudimentos às maiores ousadias. E são todas inglesas.

Na América, os Byrds fundiram Beatles e Bob Dylan. O folk deste com as guitarras daqueles. Os Doors tinham no comando um cara que queria ser poeta: Jim Morrison. Sua personalidade, de tão forte, se sobrepôs ao sentido de grupo.

A década de 1960 resume tudo. Mas seguimos com Queen, Clash, Police, U2, Nirvana. Bandas que foram mudando o rock. A música, a atitude, o show, o negócio. Elas resistiram ao tempo, chegaram ao século XXI.

CREAM

THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE

YES

TRAFFIC

QUEEN

Se fosse dar um toque de contemporaneidade à lista, acrescentaria mais uma banda:

U2

Estive a dois metros de Paul McCartney e fiquei paralisado!

Paul McCartney está no Brasil mais uma vez. Já fez Porto Alegre, São Paulo, hoje (17) faz Belo Horizonte e, em seguida, Salvador.

Uma vez, estive perto dele e fiquei paralisado. Verdade!

Conto essa história.

Paul McCartney ainda era muito jovem quando começou a se imaginar como um compositor de verdade. Talvez por influência do maestro George Martin, que lhe abrira os códigos da música erudita. Também por causa do pai, músico amador, que lhe despertara o gosto pelos grandes autores populares americanos.

Mesmo que pretendesse, Paul jamais seria um erudito, até porque não tinha formação para isto, mas um brilhante artesão da canção popular. Fazendo o artesanato do seu tempo e não o do tempo do seu pai. Um autor contemporâneo de canções pop, de melodias feitas sob medida para a sua voz de sereia sílfide (a definição é do maestro Bernstein).

Um dia, McCartney conversou via Internet com gente do mundo inteiro. Tentei fazer uma pergunta, mas não consegui. Ele seria um novo Cole Porter? Porter como um referencial apontado pelo pai do beatle. Um tipo de compositor que fez, em seu tempo, algo que guarda certa semelhança com o que Paul criou muitos anos depois.

Canção popular bem feita, bonita, de fácil assimilação, que casa perfeitamente letra e melodia. E que gruda para sempre nos nossos ouvidos. Pensemos em I’ve Got You Under My Skin na voz de Sinatra. Ou em Penny Lane no registro dos Beatles.

Fiquei com isto na cabeça. Paul McCartney é um Cole Porter moderno. Claro que não custa reconhecer que Porter era muito mais talentoso, menos vulgar. Mas, afinal, Paul é um rocker.

Em 2010, estive a dois metros dele na frente do Morumbi, em São Paulo. Encostado numa grade de segurança, ao lado de mais umas 40 pessoas, vi o músico sair do carro que o levava para o hotel, 24 horas antes do primeiro show que faria na cidade, e nos cumprimentar com um aceno.

Tive vontade de gritar: “Sir Paul, you are a modern Cole Porter!”. Mas faltou coragem. Ou iniciativa, tal foi o impacto de estar somente a dois passos do mais musical dos Beatles.

Perdi uma oportunidade única de pronunciar a frase diante dele. Seria ridículo? Qual seria a sua reação? Ficaria feliz com a comparação? Diria um “muito obrigado” em seu precário Português?

“Sir Paul, you are a modern Cole Porter!” – a frase ficou comigo, enquanto ele entrava no carro cercado por batedores e sumia em poucos segundos.

Deixei a comparação de lado e fiz o que todos ao meu lado fizeram: peguei o celular para dizer a alguém que estivera diante de Paul McCartney. E que não conseguira ao menos tirar uma foto. Ou gravar uma imagem em movimento. Nada.

Como se o desejo de fazer o comentário sobre Porter tivesse atrapalhado aquele momento.

Fala de Dom Delson aponta para igreja desconectada da realidade

Li aqui mesmo no Jornal da Paraíba a fala do arcebispo Dom Delson sobre nudez no museu, ideologia de gênero, ameaças à família – temas colocados em debate pelas vozes mais (usarei um termo antigo) reacionárias.

Vou contar uma historinha:

Houve um tempo em que a prefeitura de João Pessoa realizava a Paixão de Cristo em Artdoor para celebrar a Semana Santa.

Artistas plásticos convidados faziam trabalhos sobre as estações da via sacra que eram expostos em outdoors ao redor do Parque Solon de Lucena.

Em 1990, escalado para fazer a quinta estação (Simão Cirineu), Miguel dos Santos pintou um Cristo que era, ao mesmo tempo, homem e mulher.

Houve protestos. Teve até gente que jogou tinta no outdoor.

Na TV Cabo Branco, mandei fazer uma matéria sobre o trabalho de Miguel. Entre os entrevistados, estava o arcebispo Dom José Maria Pires.

Sabem qual foi a reação dele?

Ficou do lado do artista e disse que Deus era homem e mulher ao mesmo tempo. E assunto encerrado.

Lembrei dessa história quando vi a fala de Dom Delson no Jornal da Paraíba.

É triste, mas parece que não temos mais arcebispos como Dom José (e tantos outros do clero progressista) – um homem moderno, antenado com a contemporaneidade, capaz de dar as mãos a um judeu e um ateu para, juntos, fazerem uma cantata.

A Igreja Católica da Paraíba vem de uma experiência desastrosa com Dom Aldo.

Agora temos Dom Delson. Não o conheço. Mas espero, sinceramente, que seja um verdadeiro pastor para o rebanho católico.

Confesso que achei lamentável a fala dele. Aponta para o pior das tradições católicas, para o que a instituição, historicamente, tem de mais atrasado e – por que não? – menos fiel ao Evangelho de Cristo.

Pois é!

Conheci católicos nada cristãos. Conheci ateus muito cristãos. Ainda creio numa Igreja verdadeiramente identificada com o Evangelho, libertadora. Talvez haja algo disso no Papa Francisco.

Dizer que isso não é arte, reagir mal à nudez no museu, achar que a ideologia de gênero vai destruir a família – a Igreja que a gente enxerga na fala de Dom Delson não está conectada com a contemporaneidade. É atrasada. Não é moderna.

(de reacionarismo, na cúria, basta o que tivemos com Dom Aldo!)

Saudades de Dom José!

A Trinca de Ases “invade” a cidade com música e amor no coração

Tem um momento em que o público da casa de shows grita:

Fora, Temer!

Eu também acho um horror esse governo, mas o brado me pareceu tão fora de contexto!

O que temos no palco é uma outra coisa.

Naquelas duas horas, estamos diante de um grande artista brasileiro, agora com 75 anos, voltando aos palcos após uma série de problemas de saúde. Ao lado dele, uma mulher de 72 anos, uma das maiores cantoras da música brasileira. Completando o trio, um jovem impetuoso e viril, que veio de uma banda de rock e se afirmou, sozinho, com suas belas canções.

Gilberto Gil, Gal Costa e Nando Reis. A Trinca de Ases do título do show.

Eles se reuniram originalmente para homenagear o Dr. Ulysses Guimarães, um dos artífices da nossa jovem democracia. Depois, decidiram montar o show e a turnê.

Foi o que vimos nesta sexta-feira (13) em João Pessoa.

Trinca de Ases tem algo dos Doces Bárbaros de 41 anos atrás.

Eles “invadem” a cidade cheios de amor no coração. Alegres, felizes, esfuziantes.

E dizem assim:

É isso. Vamos cantar e tocar. Vamos celebrar a deusa música. A musa única do samba de Gil que está no set list.

Aí alguém pergunta (e eu ouvi):

E vai dar certo Gil e Gal com Nando?

Claro que sim!

Gil é de 1942. Gal é de 1945. Nando é de 1963. Agora que Gil celebra os 40 anos de Refavela, Nando lembra que viu a Refavela original, de 1977, quando tinha apenas 14 anos.

Ou seja: ele é um fã que se junta aos ídolos.

Gil e Gal acolhem o jovem impetuoso e viril, e tudo dá certo.

Lembram daquela “pegada” rock que nunca abandonou os tropicalistas?

Nando traz Gil e Gal para junto dela de novo. O encontro dos dois violões (o de Gil com o de Nando) confirma. Tão diferentes e tão eficazes no diálogo que vemos no palco.

Trinca de Ases é quase um show de rock. Nando tem papel fundamental com o violão que troca a cada número. Gil é um velho rocker. Com o violão em forma de guitarra, cheio de movimentos de corpo que lembram um velho homem do rock, Keith Richards. Entre eles, Gal, Fa-tal, evocando Melodia: tente esquecer em que anos estamos!

Fiquei vendo de longe. Essas belezas, a gente contempla em silêncio.

Os Beatles que há em Dois Rios. A força poética de Refavela. Stevie Wonder no dueto de Gal com Nando. A incômoda atualidade de Nos Barracos da Cidade. O Barato Total que eu vi ao vivo jovem, quase um garoto, com Gal e Donato no palco do Santa Roza.

Trinca de Ases é uma reunião de grandes afetos e muitas belezas.

Na minha idade, vejo essas coisas contemplando-as.

Os mil significados de um show assim, em sua permanência, são infinitamente maiores do que o grito da plateia, circunscrito a um momento que logo vai passar.

A força é bruta e a fonte da força é neutra e de repente a gente poderá!

Está lá, na letra da canção de Gil!

Gil, Gal e Nando Reis, a Trinca de Ases, hoje em João Pessoa

Gilberto Gil, Gal Costa e Nando Reis fazem o show Trinca de Ases nesta sexta-feira (13) em João Pessoa, na Domus Hall.

A reunião dos três começou no ano passado em Brasília, numa homenagem ao centenário do nascimento de Ulysses Guimarães, e resultou nesse show que agora percorre o país.

A ideia original (a homenagem ao Dr. Ulysses, um dos artífices da redemocratização) foi do jornalista Jorge Bastos Moreno, que morreu antes da estreia de Trinca de Ases.

Vou ver e amanhã comento.

Por enquanto, segue o repertório.

O repertório

1- “Trinca de ases” (Gil)

2- “Dupla de ás” (Nando)

3- “Refavela” (Gil)

4- “Baby” (Caetano Veloso)

5- “All star” (Nando)

6- “Espatódea” (Nando) 

7- “O seu lado de cá” (Nando)

8- “Esotérico” (Gil)

9- “Cores vivas” (Gil)

10- “Água viva” (Nando)

11- “Retiros espirituais” (Gil)

12- “Copo vazio” (Gil)

13- “Meu amigo, meu heroi” (Gil)

14- “O segundo sol” (Nando)

15- “A gente precisa ver o luar” (Gil)

16- “Ela” (Gil)

17- “Tocarte” (Gil e Nando)

18- “Dois rios” (Lô Borges, Nando Reis e Samuel Rosa)

19- “Lately”/“Nada mais” (Stevie Wonder, versão de Ronaldo Bastos)

20- “Por onde andei” (Nando)

BIS 
21- “Nos barracos da cidade” (Gil e Liminha)

22- “Barato total” (Gil)

Campina Grande também é nome de baião!

Conheci Campina Grande muito cedo através da memória afetiva da minha mãe. Ela morou lá no início dos anos 1950 e deu aulas no Colégio das Damas.

O momento (e o impacto) do assassinato de Félix Araújo era uma história que ouvi repetidas vezes.

Havia a lembrança de um filme que comoveu muita gente nos idos de 1953/1954. Luzes da Ribalta, de Chaplin, com seu tema musical inesquecível.

Tão inesquecível que, 60 anos mais tarde, tocou no funeral do poeta Ronaldo.

Acordei de madrugada para pegar o ônibus das cinco no dia em que minha mãe me levou pela primeira vez a Campina Grande.

O menino que já gostava de cinema pediu para ir ao Capitólio.

O filme? Duelo em Diablo Canyon, western B de Ralph Nelson.

Capitólio, Babilônia, Avenida e São José. Quis ver onde cada um ficava.

Mais tarde, a cidade envolvida com cinema.

Os filmes inacreditáveis de Machado, os irmãos Azevedo e as críticas de Bráulio Tavares no Diário da Borborema. Ah!, as críticas de Bráulio no DB!

E aí veio Agnaldo Almeida e disse: o forró morou em Campina Grande!

Não era preciso mais nada! Campina Grande já me conquistara!

Foi Gilberto Gil (numa entrevista que Rômulo Azevedo e eu gravamos na TV Cabo Branco) que viu algo de Nova York em Campina Grande.

E foi Marcos Valle, músico refinado da segunda geração da Bossa Nova, que sentiu que a cidade merecia uma homenagem. E compôs um lindo baião moderno chamado Campina Grande.

Então, parabéns, Campina Grande! Ao som do baião de Marcos Valle!

Perigosa cruzada obscurantista está em marcha no Brasil! Diga não!

O cancelamento da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, e as reações à performance La Bête, em São Paulo, são sinais claríssimos de que está em formação no Brasil uma grande onda neoconservadora.

Com essa onda, poderão vir ações concretas voltadas ao restabelecimento de mecanismos de censura dos quais nos livramos há quase três décadas, quando da promulgação da Constituição Federal de outubro de 1988, no tempo em que o presidente da Câmara era o Dr. Ulysses Guimarães.

Creio que não usam bons argumentos os que recorrem à pergunta “e isso é arte?” para defender a censura. O que devemos contrapor a isso é a inexistência de censura, conquista imprescindível do nosso processo civilizatório, assegurada pela Constituição. Não importa se você vai consumir ou se não vai. Se seu filho vai ver junto com você ou se vai ficar em casa. A criação é livre, não tem censura, isso é um direito constitucional e não depende do seu entendimento do que é ou deixa de ser arte.

Alguns artistas já começaram a se manifestar contra a censura. É uma reação importantíssima. Estão sendo divulgados vídeos. Um dos primeiros é com Fernanda Montenegro. Ela diz que precisamos de educação com cultura e de cultura com educação e liberdade. E faz uma cobrança aos políticos (os poucos honestos, nas palavras da atriz): que não permaneçam em silêncio. Que se manifestem!

A verdade é que há um silêncio estranho e incômodo. Como se o assunto não interessasse muito. No próximo ano tem eleição, devem pensar. Cultura dá voto? Cultura tira voto? De que modo essa questão será inserida no debate de 2018? Que força terão nesse debate as vozes mais conservadoras?

Olho para as redes sociais e não vejo discursos contundentes em defesa da liberdade de criação. Ou vejo pouquíssimos. Será que os artistas reunidos na luta contra a censura por enquanto seguem um caminho solitário? Que políticos ficarão com eles? E nós? Qual o nosso compromisso com eles? Qual a nossa crença real no que Fernanda Montenegro diz?

Educação com cultura, cultura com educação e liberdade – condições indispensáveis para a construção de um grande país.

No lado oposto a isso, uma perigosa cruzada obscurantista está em marcha no Brasil!

Eu, como cidadão, digo não a ela!

E você?

Lennon não era bom músico como McCartney, mas criou os Beatles

Se estivesse vivo, John Lennon faria 77 anos nesta segunda-feira (09).

O tempo passou. Aos 77 anos, John Lennon seria um velho senhor, juntando os recortes da trajetória com os Beatles e com Yoko Ono, numa casa à beira do mar da Irlanda – como ele sonhou certa vez. Ou estaria no apartamento do Dakota, em Nova York, compondo e gravando canções. Nunca saberemos. John Lennon se foi no final daquela noite trágica de oito de dezembro de 1980. Tinha 40 anos e acabara de gravar um disco no qual alternava as suas novas composições com as de Yoko. Era a dupla fantasia do casal que, uma década antes, usara o leito nupcial para pedir cantando que o mundo desse uma chance à paz.

Alguém já disse que os Beatles foram a maior invenção de John Lennon. Mais do que as canções que compôs, mais do que a militância política que assumiu a partir do final da década de 1960, mais do que a mistura de rock e vanguarda que promoveu. O grupo foi o caminho encontrado para canalizar as dores da infância e da adolescência, traduzidas mais tarde em Mother, canção desesperada, de melodia repetitiva e letra concisa, sinos sombrios na abertura, arranjo instrumental mínimo e gritos primais. Os Beatles surgiram no final dos anos 1950, comandados por Lennon. Ao seu lado, Paul McCartney e George Harrison, como ele, garotos de Liverpool apaixonados pelo rock’n’ roll que os americanos produziram a partir do surgimento de Elvis Presley. Ringo Starr viria em 1962, quando o quarteto estava prestes a gravar o primeiro disco.

Na época, era difícil imaginar que os Beatles dos primeiros registros fonográficos se transformariam no maior grupo da história do rock e num fenômeno de influência gigantesca sobre a música popular produzida em seu tempo e também sobre o comportamento do público jovem que consumiu as suas canções. A despeito desta dificuldade, Lennon intuiu que o rock seria o que os Beatles fizessem dele. E foi. Como confirmam a permanência do seu repertório na memória afetiva de milhões de pessoas e a lembrança ainda muito nítida de tudo o que eles representaram.

John Lennon não foi o melhor músico entre os quatro Beatles. Este título é de Paul McCartney. Mas foi a personalidade mais importante do quarteto. Começou como um bad boy que cantava rocks primitivos. Mais tarde, influenciado por Bob Dylan, passou a escrever letras que falavam de suas dores. Aos 25 anos, compôs In My Life como se fosse um homem velho enxergando de longe os amores, os amigos e os lugares que marcam uma vida. Rock, política, religião, drogas, arte de vanguarda – há tudo isto no artista que amadureceu rapidamente, se compararmos o início da carreira dos Beatles com a fase final, e que encontrou em Yoko Ono a parceira certa para levá-lo a fazer o que poucos fizeram no mundo do rock.

Strawberry Fields Forever, que compôs sozinho, sem a ajuda de Paul McCartney, flagra os Beatles no ponto alto da sua criatividade. A melodia enigmática, a letra escrita a partir de uma lembrança da infância em Liverpool, o arranjo deslumbrante de George Martin – ali está Lennon em seu melhor com os Beatles. Mais tarde, John Lennon/Plastic Ono Band surge como um dos grandes discos do rock. A crueza das melodias, a concisão das letras, os arranjos mínimos, o grito primal transportado do divã de Arthur Janov para o estúdio, os temas cruciais que afligiam o artista e sua geração – após a dissolução dos Beatles, ninguém (nem o George de All Things Must Pass, nem o Paul de Band on the Run, muito menos Ringo) fez nada parecido.

E ainda havia God, em cuja letra negava tudo e todos. A religião, os mitos, os heróis, os ídolos. Elvis, Dylan, Beatles – ninguém é poupado. Na parte final da canção, John pronuncia a frase que se tornaria emblemática para uma geração: o sonho acabou. As ideias generosas que marcaram a década de 1960 não seriam postas em prática num mundo pragmático e desigual.

TOP 10 DE LENNON SOLO (SEM IMAGINE)

God

Mother

Working Class Hero

Gimme Some Truth

Woman Is the Nigger of the World

New York City

The Luck of the Irish

Mind Games

Aisumasen

Nobody Loves You