Caetano proibido de cantar! Isso não combina com a democracia!

Em maio de 1981, Joan Baez veio cantar no Brasil.

Era a primeira vez que o público brasileiro ia ver ao vivo a musa americana da canção de protesto dos anos 1960.

Mas os shows foram proibidos.

O presidente, o último do ciclo militar iniciado em 1964, era o general João Figueiredo. O ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel.

Baez não cantou, mas aproveitou para fazer contatos políticos, como vemos nessa foto dela com o então líder sindical Lula. Eduardo Suplicy está em pé com a mão no queixo.

Seus fãs brasileiros esperaram longos 33 anos para vê-la no palco. Ela, afinal, se apresentou por aqui em 2014.

A proibição do show de Joan Baez ficou guardada na minha memória como nefasta lembrança de um tempo em que um concerto de música popular que percorria o mundo podia ser proibido no Brasil.

Nesta segunda-feira (30), lembrei do episódio envolvendo Baez quando vi Caetano Veloso impedido de cantar numa ocupação em São Bernardo do Campo.

Lembrei porque nunca mais ouvira falar de artistas proibidos de cantar. Joan Baez fora a última.

No período democrático, Caetano Veloso não tinha a experiência de ser proibido de cantar. Ele falou isso na entrevista que deu em São Bernardo.

Decisão judicial se cumpre, e foi uma juíza que decidiu pela não realização do show na ocupação Povo sem medo, em São Bernardo do Campo.

Mas a proibição não é compatível com a democracia.

Um artista se sente atraído por uma luta (a de famílias em busca de moradia) e resolve cantar para as pessoas envolvidas nessa luta. É absolutamente legítimo. E é muito estranho que a ele não seja permitida essa manifestação.

Achei melancólico. Fica como mais um episódio desses tempos em que – recorrendo ao próprio Caetano – as preocupações se sobrepõem às esperanças.

Na conversa com os jornalistas, Caetano Veloso citou Vinícius de Moraes:

Mais que nunca é preciso cantar!

Está na Marcha da Quarta-Feira de Cinza, da parceria com Carlos Lyra.

Alguns repórteres pareciam não saber do que se tratava. Também achei triste.