Aos 20 anos, livro de Caetano Veloso volta com texto inédito

Esta é a capa original de Verdade Tropical, livro de memórias que Caetano Veloso lançou em 1997.

E esta é a capa da edição que, em 2017, comemora os 20 anos de Verdade Tropical.

Vem com um texto inédito que o autor escreveu para o relançamento do livro.

Quando leu Verdade Tropical, lá pelo final dos anos 1990, o professor e crítico de cinema paraibano João Batista de Brito chamou nossa atenção para o fato de que existe um livro dentro do livro. E ele se chama Narciso em Férias.

(Jomard Muniz de Britto me dissera que Verdade Tropical era como um romance de formação, ao que Caetano respondera: eu acho que está certo, tem parentescos com o romance de formação. Eu não sabia que ele classificava assim, mas tem parentescos porque traz lembranças da minha adolescência e, sobretudo, descreve as pessoas que foram mais influentes e como elas o foram na minha formação, no meu crescimento. Então, nesse ponto, se parece com os romances de formação. As amizades, as ideias, as pessoas que contribuíram, os estilos que marcaram. Isso, em qualquer romance de formação, aparece. Só que isso aqui era mais uma apreciação sobre o Tropicalismo e aí tem muitas páginas de reflexão, onde fica menos parecido com um romance.)

O longo capítulo intitulado Narciso em Férias trata da prisão de Caetano pelos militares, em dezembro de 1968. Prisão que resultou no exílio em Londres.

Agora em 2017, visto de longe, é o capítulo que o autor sugere a ser destacado pelo leitor jovem, se este não quiser encarar o desafio de ler a obra toda.

Narciso em Férias tem vida própria dentro de Verdade Tropical. Tem começo, meio e fim e não depende da leitura dos outros capítulos do livro. Impressiona pela qualidade literária do texto e pela força do seu conteúdo. Parece circunscrito ao episódio da prisão, mas retrata muito do que Caetano é – sua personalidade complexa, seus medos, suas inquietações. E, não fosse tudo isso, é um contundente relato sobre os horrores dos porões de uma ditadura e o comportamento dos seus agentes.

Narciso em Férias era leitura essencial em 1997, no lançamento de Verdade Tropical, porque Caetano Veloso, afinal, contava como foi a sua prisão. É ainda mais essencial em 2017, quando cresce no Brasil o número de pessoas que defendem a volta dos militares ao poder.

A nova edição de Verdade Tropical começa com um extenso texto inédito: Carmen Miranda não sabia sambar. É uma conversa sobre esses 20 anos que nos separam da primeira edição, construída a partir do próprio livro e das suas repercussões. Também é um outro retrato do autor. Trata de questões cruciais da sua vida e das suas angústias diante das dores do mundo.

Caetano é grande leitor de livros e homem de erudição. O (novo) texto introdutório pode até surpreender os que só o têm como um artista da canção popular, jamais os que acompanham de perto a sua trajetória.

A singularidade que enxerga no Brasil e em seu destino como nação permanece de pé, a despeito de tudo o que estamos testemunhando nos últimos tempos.

Narciso em Férias é um livro à parte.

Carmen Miranda não sabia sambar é muito atraente para os que já conhecem Verdade Tropical por ser um texto inédito.

Mas o livro de Caetano é para ser lido inteiro.

É muitíssimo bem escrito e oferece conteúdo indispensável aos que acompanham o Brasil a partir da sua produção cultural e artística.

Caetano Veloso é um grande artista. Um talentosíssimo autor de canções populares e um criador que pensa com rara lucidez o seu tempo e o seu lugar.

É um homem livre, independente, corajoso. Fiel à sua formação humanística, atormentado com as nossas insolúveis desigualdades. Permanentemente (e cada vez mais) à esquerda sem, no entanto, ser refém da macrovisão das esquerdas. Tem enfrentado a intolerância de setores da esquerda e a truculência da extrema direita.

O relançamento de Verdade Tropical coincide com os 50 anos do Tropicalismo, um dos temas centrais do livro.

Coincide também com o momento em que Caetano está em turnê, dividindo o palco com seus três filhos: Moreno (do casamento com Dedé Gadelha), Zeca e Tom (do casamento com Paula Lavigne).

Por fim, se dá ao mesmo tempo em que ele e Paula assumem admiráveis posturas públicas, abrindo o lugar onde moram para reuniões e debates permanentes sobre a realidade brasileira.

A construção de caminhos para o Brasil deveria passar pela multiplicação de ativistas como eles.

Em 2017, Verdade Tropical é leitura ainda mais essencial do que duas décadas atrás.

O que fazer, então, para que caia nas mãos dos garotos e garotas das gerações Y e Z?