Cinema 6:41

Hitchcock ensinou que suspense é diferente de mistério

Alfred Hitchcock.

A classificação de mestre do suspense, embora inevitável, há muito me parece insuficiente para mensurar a sua estatura e avaliar a sua extensa filmografia.

É comum confundir suspense com mistério. Nos filmes de Alfred Hitchcock, o suspense não é necessariamente obtido através de um segredo que se revela no final da trama. O público pode saber desde o início quem é o assassino e sofrer pelos que não sabem. É este sofrimento que lhe tira o fôlego.

Cineasta da angústia e do medo, Hitchcock tinha uma obsessão: contar histórias de homens acusados por crimes que não cometeram. Católico de rígida formação moral, ele penetra no tema da culpa com uma profundidade que poucos cineastas alcançaram, a despeito dos que pensam que seu cinema é apenas o exercício formal levado às últimas consequências.

Uma lembrança inevitável, quando o assunto é Alfred Hitchcock, são as suas breves aparições. No início da carreira, na Inglaterra, ainda na época do cinema mudo, os estúdios tinham poucos recursos, e ele entrava em cena somente para aumentar o número de figurantes. Depois, já na América, a sua presença passou a ser um charme, uma assinatura utilizada até o último filme que realizou. De tal modo que o público esperava ansiosamente pelo momento de vê-lo na tela, nem que fosse – e sempre era – por alguns segundos. Para não desviar a atenção do espectador, Hitchcock tinha uma estratégia: costumava aparecer antes que a trama se desenvolvesse muito.

Considero Um Corpo que Cai sua obra-prima, embora alguns deem preferência a Janela Indiscreta. Pacto Sinistro, Intriga Internacional, Psicose, Os Pássaros – todos são mencionados entre os melhores de Hitchcock.

Por sua absoluta originalidade, gosto de citar Festim Diabólico, concebido para dar a sensação de que tem um longo e único plano-sequência, ousadia que ainda impressiona os cinéfilos. O cineasta tinha uma predileção pelo pouco lembrado A Sombra de uma Dúvida.

Rever Hitchcock é sempre uma alegria para os que amam o cinema. Debruçados sobre sua filmografia, vamos encontrar sequências extraordinárias (como a cena do chuveiro de Psicose), atores e atrizes inesquecíveis (James Stewart entre os mais marcantes), grandes colaboradores (o maestro Bernard Herrmann no topo da lista).

Mas seremos brindados, sobretudo, pela arte de um mestre. Não importa o que disseram seus críticos. Não interessa mais que muitos tenham defendido a tese de que, nele, os interesses comerciais se sobrepunham aos méritos artísticos. O tempo, felizmente, já confirmou que Alfred Hitchcock é mesmo um dos maiores cineastas do mundo.