Os Rolling Stones na América Latina em ótimo documentário

Vi Olé, Olé, Olé! – A Trip Across Latin America, registro da turnê que os Rolling Stones fizeram pela América Latina em 2016, e quero falar um pouco sobre o documentário e também sobre a relação da banda com o cinema documental.

Os Rolling Stones têm várias experiências com o gênero.

A mais importante é Gimme Shelter. Não é um filme sobre o rock que o grupo produz. É um registro de valor histórico e sociológico sobre a violência no free concert de Altamont, em 1969. Os méritos são dos realizadores, os irmãos Maysles, mestres do cinema direto.

Let’s Spend the Night Together é um concert film. Mostra a íntegra de um show da turnê americana de 1981. É o inverso de Gimme Shelter: só tem música. O diretor, Hal Ashby, havia se consolidado com os filmes que realizou na década de 1970.

Shine a Light traz os Rolling Stones no palco de um teatro, flagrados pelo olhar mais intimista e menos grandioso do diretor Martin Scorsese. Há entrevistas entre os números, embora o principal seja o concerto filmado como cinema.

A turnê pela América Latina no início de 2016 rendeu dois filmes: Havana Moon e Olé, Olé, Olé! – A Trip Across Latin America, ambos dirigidos por Paul Dugdale.

Havana Moon é sobre a ida dos Stones a Cuba, o primeiro concerto deles na ilha. Tem uma introdução que contextualiza tudo, mas o resto é o show ao ar livre. Sem o anticomunismo ostensivo de Buena Vista Social Club, Havana Moon mistura sutilmente rock e política.

Olé, Olé, Olé! não é um concert film. Tem poucos números musicais completos. Acompanha cronologicamente a excursão, e, entre um país e outro, volta sempre a Cuba com os preparativos do show e as dificuldades para a sua realização.

O documentário começa pelo Chile. O grupo toca no Estádio Nacional. O mesmo onde tanta gente foi morta pelos militares que derrubaram o presidente Salvador Allende em 1973.

Mick Jagger fala das ditaduras dos anos 1970 e das restrições impostas ao rock por governos autoritários.

Na Argentina, os Rolling Stones encontram um público tão apaixonado e eufórico quanto o que vai aos jogos de futebol.

A conversa de Jagger com dois velhos fãs é um momento tocante do filme.

No Brasil, Jagger e Richards resgatam a viagem de férias que fizeram em 1968. A conversa deles desemboca num delicado registro musical de voz e violão: Honk Tonk Women do jeito que foi composta, há quase meio século, numa fazenda em São Paulo.

O vínculo de Ronnie Wood com as artes plásticas (além de guitarrista, ele pinta) é pretexto para o elogio aos artistas que fazem arte nas ruas de São Paulo, em paredes e muros. É o contrário do que vimos nas manifestações de truculência do prefeito João Dória.

O filme passa pelo Uruguai, Peru, Colômbia, México e termina em Cuba com sons e imagens que enriqueceriam Havana Moon.

Olé, Olé, Olé! não é somente um filme sobre uma turnê dos Rolling Stones.

O documentário fala do amor pela música, da alegria que esta proporciona, da arte como elemento que une os povos, da relação entre fãs e artistas. Esses temas estão espalhados pela narrativa, às vezes explicitamente, outras vezes não. Eles foram reunidos pela sensibilidade do realizador e de sua equipe. Em olhares, depoimentos, encontros, gritos, lágrimas, trocas entre os velhos roqueiros e representantes das culturas de cada lugar.

Com essa abordagem, Olé, Olé, Olé! está muito distante dos filmes que são meros registros de shows. Humaniza os astros, tira do anonimato pessoas comuns. Procura personagens e situações que se encaixam perfeitamente no ótimo cinema documental feito aqui por Paul Dugdale.