Caetano Veloso (por ele mesmo) e seus discos

Nos 75 anos de Caetano Veloso, comemorados nesta segunda-feira (07), escolhi 15 dos muitos discos que ele gravou a partir de 1967. E é o próprio Caetano quem os comenta.

 

Caetano Veloso (1967) – “Meu primeiro disco tropicalista. O Tropicalismo queria fazer misturas. Queríamos, sim, ouvir e curtir Roberto Carlos. Tínhamos acabado de descobrir os Beatles. Esse disco contou com a participação do grupo Os Beat Boys, formado por músicos argentinos que tocaram comigo no festival da canção, em Alegria, Alegria. A canção Tropicália teve arranjos de Júlio Medaglia.”

 

Tropicália ou Panis et Circensis (1968) – “Com arranjos divinos de Rogério Duprat, veio logo depois, tanto do meu disco individual quanto do disco individual do Gil, que são os discos inaugurais do Tropicalismo. Quando fizemos Tropicália, que é um disco meio manifesto e coletivo, estávamos cientes de toda essa efervescência política pós AI-5. É um filme meu esse disco.”

 

Caetano Veloso (1969) – “Esse disco foi feito quando eu já estava preso. Não estava mais na cadeia, mas confinado em Salvador, praticamente preso na cidade, porque dela não podia sair. Boa parte das canções, inclusive Irene, foi composta na prisão. Fiz o disco sozinho, com o Gil tocando violão. Mandamos a fita para São Paulo, e o Rogério Duprat completou o trabalho. Quando esse LP saiu, eu já estava em Londres.”

 

Caetano Veloso (1971) – “Primeiro disco que fiz em Londres. Tem coisas muito interessantes, como a gravação de Asa Branca. Tem London, London, tem a faixa Maria Bethânia, que também acho muito bonita, com arranjos lindos, onde faço improvisações acompanhado por um quarteto de cordas excelente, sugerido pelo produtor e que havia participado das gravações do disco Eleanor Rigby, dos Beatles.”

 

Transa (1972) – “A banda que tocou comigo definia muito a força do disco. Foi gravado em pouco tempo, produzido pelo Morris Hills. Ensaiamos, entramos em estúdio e fomos gravando, com muita espontaneidade. Ensaiamos tanto para as gravações que, quando o disco ficou pronto, o show estava pronto também. As matrizes foram enviadas para a gravadora aqui, que o lançou. Esse disco marca a minha volta ao Brasil.”

 

Caetano e Chico Juntos e ao Vivo (1972) – “Não posso esquecer: foi feito no dia em que Torquato Neto se suicidou, dia do aniversário dele. Eu e Chico estávamos ensaiando quando chegou a notícia do suicídio. O disco traz cortes feitos pela censura como no verso ‘na barriga da miséria/nasci brasileiro’, que o ‘brasileiro’ foi cortado. Depois Chico colocou ‘batuqueiro’ no lugar. O show fez muito sucesso. E o disco também.”

 

Araçá Azul (1973) – “Foi uma retomada dos pensamentos que vinham à minha cabeça antes de ser preso, que de uma certa maneira me aproximavam da poesia concreta, do experimentalismo, das letras de poucas palavras. Eu disse: vou fazer um disco ostensivamente experimental. E assim o fiz. Fiquei uma semana no estúdio Eldorado, em São Paulo. Não compus nenhuma canção antes de entrar em estúdio.”

 

Joia/Qualquer Coisa (1975) – “Gravei como quem grava um disco duplo, mas sentindo que, fazendo uma separação de repertório, daria dois discos. Sendo o Joia um disco de sons mais limpos, espécie de versão mais serenizada dos desejos experimentais, também com canções mais curtas; Qualquer Coisa ficou sendo um disco com canções mais variadas, músicas dos Beatles, canções pop. Qualquer Coisa resultou mais comercial do que Joia.”

 

Bicho (1977) – “Esse disco, cuja capa foi feita por mim, tem ecos do Joia. Lança a canção Odara, que deu muito o que falar, que talvez já trouxesse uma batida funk e que afirmava todo esse negócio da música de dança e de divertimento. Foi muito criticada, muito combatida como uma espécie de manifesto da alienação. Nessa época, havia uma espécie de raiva de mim pelo fato de eu não ser ‘de esquerda’.”

 

Muito (1978) – “Meu disco mais pichado e o que menos vendeu. No entanto, é o disco que tem as canções Terra e Sampa, que foram tão tocadas e cantadas em todo canto. Li várias críticas dizendo que era péssimo, abaixo da crítica, que o Caetano já era. Muito foi gravado com A Outra Banda da Terra.”

 

Outras Palavras (1981) – “Gosto muito do disco Outras Palavras, que tem tantas músicas bacanas, a canção Outras Palavras entre elas. Era uma gíria que a Mônica Millet, do Gantois, amiga nossa, dizia muito. Maria Bethânia também dizia muito. É como se você dissesse outros quinhentos, mas de outra maneira. Como se você dissesse: agora são outras palavras, o negócio é outro.”

 

Velô (1984) – “Esse disco traz a canção Podres Poderes, cuja letra tem muito a ver com temas ligados ao desejo de que as minhas ações tenham uma função poético-política. Nenhuma ditadura presta. E minhas canções políticas, Podres Poderes entre elas, foram feitas por um homem que jamais perdeu essa perspectiva. Que não está interessado em esconder o sol com uma peneira.”

 

Estrangeiro (1989) – “Esse disco foi feito em Nova York. O Arto Lindsay queria muito produzir um disco meu. Arto conhecia bem a minha música porque tinha vivido muito tempo no Brasil e adora o trabalho dos tropicalistas. Ele queria que aqueles procedimentos tropicalistas fossem conhecidos e reconhecidos internacionalmente. Esse disco contou também com a presença luxuosa de Peter Sherer, que é um grande músico eletrônico.”

 

Circuladô (1991) – “Fiz esse disco também com o Arto Lindsay, e o fiz bem do jeito que eu queria. Adoro. Tem Fora da Ordem, que é curiosa. A canção título, Circuladô de Fulô, é linda. Também adoro Itapuã, que meu filho Moreno canta comigo e é uma canção que fiz para a mãe dele, a Dedé. Tem O Cu do Mundo, letra que foi muito comentada.”

 

(depoimentos a Charles Gavin e Luís Pimentel)