Caetano, aos 75, ainda é o artista mais inquieto da sua geração

Caetano Veloso faz 75 anos nesta segunda-feira (07).

Na música popular brasileira, é o artista mais inquieto da geração que conquistou dimensão nacional na era dos festivais da canção, na segunda metade da década de 1960.

Ele não tem o talento musical de Gilberto Gil, a quem já admirava antes mesmo que se conhecessem. Nem a voz de Milton Nascimento, com os falsetes que considera os mais bonitos do mundo. Também não é um popular clássico como Chico Buarque, em cujas canções identifica uma sabedoria que as suas desconhecem.

Mas nenhum desses ousou tanto, provocou tantas rupturas, exerceu tantas influências. Nenhum esteve tão esteticamente à esquerda. Mais do que qualquer um dos seus contemporâneos, ele entrou em todas as estruturas e saiu ileso. Arrojado, transgressor, desafiador, complexo, brilhante!

Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso nasceu em sete de agosto de 1942 em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. O gosto pelo canto, deve à mãe, Dona Canô, e à irmã mais velha, Nicinha. Aos quatro anos, sugeriu que a irmã se chamasse Maria Bethânia por causa da música de Capiba que fez sucesso na voz de Nelson Gonçalves. Na infância, ouviu os baiões fundadores de Luiz Gonzaga. Aos 17, uma descoberta mudou sua vida: João Gilberto cantando Chega de Saudade. Se tivesse que escolher a música que mais o influenciou, escolheria esta de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Daquele modo: com a voz e o violão de João Gilberto. O ano, 1959. O mesmo em que Jean-Luc Godard realizou Acossado. Godard, o primeiro filtro pop de Caetano, que foi crítico de cinema na juventude e quis ser cineasta.

O grupo baiano, formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, começou a atuar em Salvador. Em meados dos anos 1960, Caetano foi para o Rio, acompanhando a irmã. Bethânia substituiria Nara Leão no Opinião. A estreia em disco seria em 1967 no LP Domingo (com Gal), mas o reconhecimento nacional viria um pouco depois, também em 1967. Alegria, Alegria, quarto lugar no festival da Record, o projetou e, junto com Domingo no Parque (de Gil), iniciou o Tropicalismo, movimento que propunha a retomada da linha evolutiva da música popular brasileira. Era um momento de ruptura, com a introdução das guitarras elétricas na chamada MPB, num Brasil convulsionado pelas lutas ideológicas. Os militares governavam o país, e a sociedade civil começava a resistir. O endurecimento do regime se daria no final do ano seguinte.

Em 1968, ano do manifesto tropicalista, Caetano Veloso faria um discurso a um só tempo lúcido e enfurecido, durante o festival em que apresentou a música É Proibido Proibir, o título retirado do slogan usado pelos estudantes que puseram a França de cabeça para baixo. Em sua fala, o compositor batia na esquerda, que não assimilara a virada proposta pelo Tropicalismo, e na direita, que espancara os atores de Roda Viva.

Duas frases falavam do Brasil de muitos anos na frente: “se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos” e “então é esta a juventude que diz que quer tomar o poder?”.

O ano terminou com a prisão dele e de Gil pelos militares que promoveram o que Leonel Brizola chamava de o golpe dentro do golpe. Prisão seguida do confinamento em Salvador e do exílio de três anos em Londres.

Na Inglaterra, Caetano gravou dois discos. O segundo (Transa) é um dos pontos altos da sua discografia. Na volta ao Brasil, dividiu o palco com Chico Buarque, um encontro que a plateia dos festivais consideraria improvável. O sucesso do LP com o registro do show permitiu a ousadia do seu passo seguinte: um disco radicalmente experimental, o Araçá Azul, campeão de devolução nas lojas. Mais tarde, já na segunda metade da década de 1970, seria alvo fácil das chamadas patrulhas ideológicas. Por sua postura crítica em relação ao sectarismo da esquerda e pelas canções que vamos ouvir nos discos Bicho e Muito. De todo modo, são deste período canções como Terra e Sampa, que resistiram ao tempo e figuram entre as mais marcantes do seu repertório.

No início da década de 1980, na letra de uma canção, mencionava os operários do ABC que prometiam mudar o sindicalismo e a política brasileira. Quando a redemocratização se aproximava, defendia a volta de Miguel Arraes ao poder. E, enquanto seu contemporâneo Chico Buarque cantava Vai Passar, ele falava dos Podres Poderes. “E quem vai equacionar as pressões do PT, da UDR e fazer dessa vergonha uma nação?” – perguntava no Brasil dos tempos de Sarney. Não demoraria a defender a tese de que o país se afirmaria internacionalmente por suas diferenças.

Musicalmente, o Caetano dos anos 1980 flertou com a vanguarda que surgia em São Paulo, passou pelos teclados de Lincoln Olivetti, se aproximou do novo rock brasileiro e da música eletrônica que encontrou em Nova York.

(A foto é dos 50 anos de Caetano. Germana Bronzeado registrou o momento em que Chico Pereira e eu conversávamos com ele sobre o Tropicalismo no backstage do show Circuladô.)

Quando completou 50 anos, em 1992, já não precisava provar mais nada. Era um dos grandes artistas da sua geração. Mas permanecia marcado pela inquietação que o acompanhava desde cedo. Neste sentido, seguia o caminho oposto aos demais. No lugar de se dedicar mais a uma espécie de manutenção da carreira, continuava buscando o novo, a provocação, a ousadia.

Foi assim em Livro, que fundia a percussão da música baiana com a sonoridade dos arranjos que o maestro Gil Evans escrevera para Miles Davis, gênio consumado do jazz. O disco saiu na mesma época de Verdade Tropical, denso volume de memórias em que Caetano, como num romance de formação, se debruça sobre a infância, a juventude, o Tropicalismo, a prisão e o exílio. Em Noites do Norte, trouxe a prosa de Joaquim Nabuco para sua música. E, a partir de , por quase uma década fez rock com um power trio.

Caetano Veloso é um artista que orgulha sua geração e seus ouvintes. Um compositor de música popular no nível dos melhores do mundo, um letrista excepcional.

Tem muitos outros méritos:

Como intérprete do que compôs e do que gravou de inúmeros autores, brasileiros ou não.

Como artista que chamou atenção para o papel da canção popular na construção da nossa identidade.

Como cidadão que pensa o Brasil com espantosa lucidez, a despeito do que dizem seus críticos.

Caetano é diferente e original. Do mesmo modo que são diferentes e originais os caminhos que enxerga para o Brasil em seu destino como Nação.

Caetano Veloso diz que, onde quer que vá e como quer que lá chegue, levará consigo sua versão muito complexa da música popular brasileira – manifestação riquíssima que nunca mais foi a mesma desde que ele apareceu naquele festival de 1967, cantando uma marchinha que anunciava o novo em seus versos e nas guitarras que a acompanhavam.