U2 lança música nova. Álbum já está pronto

O U2 usou o Facebook nesta quarta-feira (30) para lançar uma música nova.

É The Blackout.

Ouça.

The Blackout faz parte do novo álbum da banda irlandesa (Songs of Experience), que já está pronto.

Na próxima semana, o U2 lança mais uma canção do álbum.

Lady Di, “princesa do povo”, morreu há 20 anos

Em Paris, era início da madrugada do domingo 31 de agosto de 1997.

No Brasil, noite do sábado 30 de agosto.

Eu estava num restaurante quando vi o plantão da Globo, interrompendo uma transmissão esportiva:

Lady Di e o namorado, o milionário Dodi Al-Fayed, fugindo dos paparazzi, sofreram um grave acidente. O carro em que estavam bateu num pilar do Túnel Alma.

Dormi com a notícia do acidente, acordei com a notícia da morte.

Na vida e na morte, a princesa Diana foi uma figura pop do seu tempo. Vimos muito claramente nos dias que se seguiram ao acidente fatal em Paris. Sobretudo no sábado, seis de setembro, quando Londres parou para acompanhar o cortejo fúnebre.

Do casamento com o príncipe Charles, que milhões de pessoas acompanharam pela televisão, à morte aos 36 anos, a “princesa do povo” foi personagem não só da vida frívola da Família Real, mas de ações humanitárias no combate às minas terrestres e à disseminação do vírus HIV.

Ficção com jeito de documentário, o filme A Rainha é significativo registro daqueles dias, entre o acidente em Paris e o funeral em Londres. Mostra a Família Real nos bastidores e a atuação do primeiro ministro Tony Blair, que acabara de assumir o cargo, articulando uma postura pública para a rainha Elizabeth num momento trágico e delicado.

O filme de Stephen Frears reflete sobre a adequação das monarquias às relações políticas contemporâneas e insere a figura da princesa como personagem que viveu no centro desse cenário.

A vida breve de Lady Di foi um conto de fadas transformado em tragédia. Olho com atenção para ela como quem está vendo a história passar.

Termino com um registro musical do funeral da princesa. Elton John transformando Candle in the Wind, balada dedicada originalmente a Marilyn Monroe, num tributo à sua amiga Diana.

Tributo a Dick Farney é despedida à altura de Cauby Peixoto

A capa lembra a de um disco antigo. Mas não é.

Cauby Canta Dick Farney, lançado há pouco pela Biscoito Fino, foi gravado em março de 2016, dois meses antes da morte de Cauby Peixoto.

É o último trabalho desse extraordinário cantor.

De 2009 e 2016, Cauby gravou 10 discos!

Em 2009, quando fez Cauby Interpreta Roberto, tinha 78 anos.

Em 2016, quando, em algumas horas, botou voz em 10 números do repertório de Dick Farney, havia completado 85 anos.

Entre um e outro, gravou Sinatra, Beatles, Nat King Cole. Dividiu um disco com Ângela Maria, dedicou outro à Bossa Nova, lançou dois registros ao vivo, fez um voz e violão.

Como foi excepcionalmente produtivo o inverno do tempo de Cauby!

Na juventude, Cauby Peixoto foi fã de Dick Farney. Este era o inverso daquele.

Dick já tinha no seu canto a contenção do ambiente que antecedeu a Bossa Nova.

Cauby usava sem limites o seu vozeirão.

Mas nada o impediu de transitar por todos os ritmos, por todos os gêneros, por diversas línguas. Pelos excessos e pela contenção. Era um cantor excepcional, com timbre belíssimo, no nível de qualquer grande cantor do mundo.

Curiosamente, os dois últimos discos que gravou são dedicados a um modo mais cool de cantar: Bossa Nova e Cauby Canta Dick Farney.

Em dez faixas que duram menos de 30 minutos, Cauby revisita Dick acompanhado por um pequeno grupo (piano, violão, baixo, bateria e sax). O repertório não é todo óbvio, embora contenha sucessos como Marina e Copacabana. A voz tem o comedimento dos últimos anos da vida do artista. Mas permanece íntegra, apesar da idade. Somente no final de Marina, que fecha o disco, Cauby se solta um pouco num scat tipicamente jazzístico.

Esse disco é importante porque, de alguma forma, repõe Dick Farney no mercado. E permite que os fãs ouçam um Cauby Peixoto ainda inédito.

Já vi muita gente dizer que não ouve Cauby porque acha que ele é afetado, brega. etc.

Um equívoco completo.

Cauby é simplesmente o máximo!

Carlos Alberto Jales lança “Palavra Submersa” nesta quarta

Palavra Submersa é o novo livro do poeta paraibano Carlos Alberto Jales.

O lançamento será nesta quarta-feira (30) às sete da noite, na Fundação Casa de José Américo.

Jales, também professor aposentado da UFPB, falou à coluna sobre o seu trabalho, influências, poesia paraibana.

“Poesia é para ser degustada e não explicada”

Por que poesia?

Porque poesia é a face oculta da palavra, um modo de dizer que esconde mais do que mostra, que sugere mais do que afirma.

Poesia e prosa:

Difere pelo ritmo e pela musicalidade e pela característica de não ter um fim, como uma novela, um conto, um romance. A poesia é um bosque em que o conjunto das árvores vale mais do que a árvore isolada

Quantos livros de poesia você já publicou?

Já publiquei Inventação das Horas, Áspero Silêncio, Vindimas da Solidão e agora Palavra Submersa.

Quais são as grandes influências da sua poesia?

Nenhum poeta deixa de sofrer influencias de outros poetas. As leituras que marcam minha poesia são: Tasso da Silveira, Jorge de Lima, Alphonsus de Guimarães Filho, Fernando Pessoa, Sophia Breitner Dresden, Cecília Meirelles, Henriqueta Lisboa, Francisco de Carvalho e Manuel Bandeira.

Você se orgulha de compartilhar o papel de poeta com a poesia paraibana?

Sem dúvida, eu me orgulho de produzir num Estado em que há poetas como: Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, Vanildo Brito, Sérgio de Castro Pinto e Hildeberto Barbosa Filho.

Para você, o que é poesia?

Poesia é para ser degustada, e não explicada, mas se puder defini-la eu faria como o poeta romeno George Popescu, que afirma ser a poesia “um não lugar”, isto é, uma palavra que se realiza pela pura gratuidade.

Dom José, Dom Pelé, Dom Zumbi. Não há outro como ele!

Com Dom José Maria Pires, foi amor à primeira vista!

Minha mãe me levou para a avenida João da Mata, onde o novo bispo passou em carro aberto. Sorridente, acenando para as pessoas nas calçadas.

Fiquei encantado, com o meu olhar infantil, por aquela figura.

Era março de 1966. Dom José começava o seu longo período de 30 anos à frente do rebanho católico da Paraíba.

“Para meu amiguinho Sílvio, com o abraço de José Maria”.

Essa foto, com dedicatória e data de 24 de maio de 1966, ele me deu depois de uma audiência pública na visita pastoral que fez à Igreja do Rosário, em Jaguaribe.

Minha mãe era católica, havia sido freira na juventude. Meu pai era comunista e ateu. Os dois, por motivos distintos, foram atraídos pela figura de Dom José. Posso dizer que fui junto com eles.

Trocávamos cartões, cartas. Até que um dia ele disse que queria ir à minha casa. O ano era 1968.

Chegou lá dirigindo um fusca, num sábado à tarde. Foi recebido por um coral infantil que meu pai e minha mãe formaram e ensaiaram com os meninos da vizinhança, meus amigos.

“Amigo, seja bem-vindo, a casa é sua, não faça cerimônia” – dizia a letra da música cuja origem até hoje desconheço.

Dom José, sentado numa velha cadeira de balanço restaurada para recebê-lo e toda pintada de vermelho, conversou mais com as crianças do que com os adultos. Comportou-se como se fosse uma delas, só que dizendo coisas de gente grande.

O que guardo dele na minha memória afetiva não cabe num texto. Mas posso mencionar algumas coisas:

O sermão das sete palavras da sexta-feira santa de um ano qualquer, na Catedral Metropolitana. O arcebispo parecia dar novo significado ao texto evangélico.

O apoio aos estudantes que foram às ruas em 1968. Dom José foi ao encontro deles no centro da cidade.

A criação de um centro de defesa dos direitos humanos, que funcionava ali na Almirante Barroso, sob o comando do advogado Wanderley Caixe.

A luta pela terra em Alagamar. Entre as ligas camponesas e o MST.

A noite de Natal em que transferiu a missa da Catedral para a Praça João Pessoa e lá celebrou ao lado dos agricultores acampados.

A recusa de receber o título de Cidadão Paraibano quando entendeu que seu discurso passaria por uma censura prévia da Assembleia Legislativa.

A presença na Missa dos Quilombos, no Recife, ao lado de Dom Hélder, Dom Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento.

A fala na estreia da Cantata Para Alagamar – trabalho que, como lembrou, reunia três homens de nome José. Um pastor católico (ele próprio), um judeu (José Alberto Kaplan) e um ateu que não acreditava nem na existência histórica de Cristo (Waldemar José Solha).

Essa fala resume muita coisa daqueles tempos difíceis. Mas contém, sobretudo, uma grande lição de tolerância. A tolerância que anda escassa no Brasil desse momento em que Dom José nos deixa aos 98 anos.

Dom José Maria Pires foi firme e corajoso como pastor de uma igreja comprometida com os pobres, mas nunca perdeu a capacidade de dialogar. Com o sorriso que oferecia aos estudantes ou aos agricultores, se apresentava aos militares do Grupamento de Engenharia ou ao governador de plantão no Palácio da Redenção.

A voz era de uma beleza que parecia música. Quase sempre mansa, sem perder a firmeza.

Tenho a alegria de ter sido contemporâneo da sua passagem pela Paraíba.

Conheci poucos homens tão especiais quanto Dom José, Dom Pelé, Dom Zumbi!

Morreu Wilson das Neves. O bordão “ô sorte” está em silêncio!

O baterista, cantor e compositor Wilson das Neves morreu na noite deste sábado (26).

Tinha 81 anos e estava hospitalizado, no Rio de Janeiro, para tratamento de um câncer.

Era um grande músico, querido por todos com quem trabalhou.

Quando foi para o exílio, em 1969, Gilberto Gil deixou com o maestro Rogério Duprat as músicas do seu novo LP. Gravou apenas voz e violão. O maestro convocou vários músicos para concluir o trabalho. Quem era o baterista? Wilson das Neves, claro!, um dos mais requisitados por todos.

Das Neves era tão fera que Elza Soares gravou com ele esse disco aí e botou na capa: Elza Soares, baterista Wilson das Neves.

No imprescindível Coisas, de Moacir Santos, o nome está nos créditos: bateria, Wilson das Neves.

Em sua longa trajetória, Wilson das Neves tocou com todo mundo na música popular brasileira. A marca do seu extraordinário talento ficou registrada em centenas de discos.

Quem pôde vê-lo ao vivo (nos últimos 30 e tantos anos, integrou a banda de Chico Buarque), conheceu de perto o charme do cantor e a elegância da sua performance no palco.

O bordão “ô sorte” era dele. Hoje, está em silêncio.

Novo CD de Chico só tem um defeito: dura apenas 28 minutos!

Estou beirando o limiar da velhice.

Meu negócio é disco físico. O objeto na mão para colocar no player, capa, encarte. Aquela história do amor táctil.

Mas, hoje, abri uma exceção. Fui a uma plataforma digital ouvir o novo CD de Chico Buarque (com o neto Chico Brown, em foto de Leo Aversa).

A audição de Caravanas me deixou alegre e triste.

Alegre porque é um belíssimo disco de um grande artista.

Triste porque me deu a sensação de que contém música de um Brasil que não existe mais.

Assim como Caetano disse da Bossa Nova, digo de Chico Buarque: ele é foda!

Mas tem apanhado um bocado nos últimos tempos. Só porque exerce legitimamente o seu direito de se posicionar politicamente do modo que lhe convém.

A música é outra coisa. Está colada aos nossos ouvidos desde os anos 1960. Mudou, ficou mais sofisticada, de assimilação mais difícil, mas permanece bela e indispensável.

Caravanas tem nove faixas. Sete inéditas. Dueto e A Moça do Sonho não são novas. Todas as letras são de Chico. Quatro melodias são de parceiros (Cristóvão Bastos, Edu Lobo, Jorge Helder e Chico Brown).

A sonoridade e a concepção dos arranjos lembram os últimos discos de Chico. Certamente porque o diretor musical – o guitarrista Luiz Cláudio Ramos – é o mesmo.

O repertório não parece ter clássicos instantâneos. Nem dá para prever o que, com o tempo, será inserido na nossa memória afetiva.

De todo modo, creio que é um disco para poucos ouvintes. Como se o Chico dessas canções não coubesse direito no Brasil de hoje.

Apesar disso, o autor exibe sensíveis links com a realidade.

Um deles: em Blues Pra Bia, o cara se dispõe a virar menina para namorar a garota que não gosta de garotos.

Outro: em Dueto, faixa gravada com Clara Buarque, avô e neta acrescentam à letra palavras como google, face, whatsapp. Na atualização, Chico acaba incluindo o finado orkut.

Mais um: o compositor aposta no talento do neto Chico Brown, autor da melodia da valsa Massarandupió. Evoé, jovens à vista!

O disco começa com Tua Cantiga, que levou tanta gente a chamar Chico de machista nas redes sociais, tem o futebol em Jogo de Bola, um bolero composto para Omara Portuondo (Casualmente) e termina com As Caravanas.

Em As Caravanas, o artista se debruça sobre o medo que a classe média tem dos que vêm do subúrbio ou das favelas para as praias da Zona Sul. É a letra que, aqui, conecta o cancioneiro de Chico com o Brasil das insolúveis desigualdades sociais. A melodia cita o Duke Ellington de Caravan, enquanto o arranjo tem o toque contemporâneo do funkeiro Rafael Mike.

Diz a letra:

Tem que bater, tem que matar/engrossa a gritaria/filha do medo, a raiva é mãe da covardia.

Esse disco de Chico Buarque só tem um defeito: dura apenas 28 minutos!

Chico Buarque podia ter parado jovem e já era um gigante

Chico Buarque lança seu novo disco nesta sexta-feira (25). O primeiro de inéditas desde 2011.

Caravanas é disco físico num momento em que os discos físicos estão acabando.

Enquanto o CD não chega às nossas mãos, vou fazer um exercício que já fiz outras vezes. Só para mostrar que Chico, se tivesse parado bem jovem, já era um gigante da música popular do Brasil.

Vamos à quantidade de grandes músicas que ele gravou entre os 22 e os 24 anos, em apenas três discos. Naquela época, era muito comum o disco ter o nome do artista. Chico Buarque de Hollanda volume 1 (1966), Chico Buarque de Hollanda volume 2 (1967) e Chico Buarque de Hollanda volume 3 (1968). Os três, lançados pela RGE em plena era dos festivais.

Vale a pena enumerar: A Banda, Tem Mais Samba, A Rita, Madalena Foi pro Mar, Pedro Pedreiro, Olê, Olá, Meu Refrão, Sonho de um Carnaval, Noite dos Mascarados, Com Açucar, com Afeto, Quem te Viu, Quem te Vê, Morena dos Olhos D’Água, Ela Desatinou, Retrato em Branco e Preto, Januária, Carolina, Roda Viva, Até Pensei, Sem Fantasia, Até Segunda-Feira, Funeral de um Lavrador. Somemos a estas Sabiá, que é de 1968, mas não está no disco daquele ano. São 22 músicas. Todas gravadas entre os 22 e os 24 anos. Ali, seu legado já era um songbook extraordinário, à altura dos maiores clássicos do nosso cancioneiro popular.

Se estendermos a lista até 1970, quando troca a RGE pela Philips e grava o último disco usando o Hollanda no nome artístico (Chico Buarque de Hollanda volume 4), acrescentaremos, então, Essa Moça Tá Diferente, Agora Falando Sério, Gente Humilde, Rosa dos Ventos, Samba e Amor, Pois É. E, claro, há o compacto de 1969, ainda pela RGE, com Umas e Outras. Entre 1966 e 1970, dos 22 aos 26 anos, em quatro discos, 29 músicas absolutamente antológicas.

Em 1971, passa a assinar apenas Chico Buarque. O bigode na capa do disco tira um pouco o ar de bom moço. Os sons o aproximam da linha evolutiva proposta pelos tropicalistas. Sobretudo na faixa Construção, arranjada pelo mesmo Rogério Duprat dos discos de Caetano, Gil, Gal e Mutantes. Construção é uma obra-prima. Um samba lento que vai crescendo até o desfecho. Os versos finalizados sempre com proparoxítonas que, na segunda e na última parte, são trocadas de lugar, gerando imagens absurdas, delirantes, inacreditáveis. O disco Construção pode ser o melhor de Chico. Deus lhe Pague, Cotidiano, Desalento, Cordão, Olha Maria, Samba de Orly, Valsinha, Minha História. Parece uma coletânea.

Paulo Coelho fez letras de rock e apresentou Raul Seixas às drogas

O escritor Paulo Coelho faz 70 anos nesta quinta-feira (24).

Um dos grandes vendedores de livros do mundo, membro da Academia Brasileira de Letras, antes dos livros que lhe deram fama internacional, o Mago se projetou no Brasil fazendo letras de música.

Seu nome está lá, ao lado do de Raul Seixas, como parceiro em muitas canções da fase mais criativa e bem-sucedida da trajetória do roqueiro baiano.

Paulo Coelho fez a cabeça de Raul Seixas. Em dois sentidos: exerceu influência intelectual e apresentou Raul às drogas. E não se culpa por isso (o amigo era maior de idade!), como vemos no documentário Raul, O Início, O Fim e O Meio, do paraibano Walter Carvalho.

O Mago sempre teve vocação para o mainstream. Mesmo no rock (que ainda era uma coisa meio marginal no Brasil dos anos 1970), a sua transgressão o levava ao sucesso comercial.

Não falo do escritor (não tenho intimidade, nem interesse pelo universo a que ele se dedica), mas, sobre o letrista, não há como negar que Paulo Coelho é autor de alguns dos grandes momentos do rock brasileiro. Encontrou em Raul Seixas o parceiro certo e com ele assinou hits poderosos do pop brasileiro.

Raul é um nome importante do rock nacional, mas nem tudo é verdade no que ele produziu.

Sua loucura o levou à morte. A de Paulo Coelho, à fama!

O politicamente correto agora está batendo em Anitta

Ney Matogrosso homofóbico! (?)

Chico Buarque machista! (?)

O politicamente correto não escolhe em quem pode bater.

Agora é Anitta.

No tempo das patrulhas ideológicas, 40 anos atrás, eu era jovem, paciente e cheio de sonhos. Mas já ficava incomodado quando via amigos da esquerda batendo em artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que haviam passado pela experiência amarga da prisão, do confinamento e do exílio. No fundo, esses amigos eram moralistas e conservadores. Depois, vi alguns deles envolvidos em práticas que não eram compatíveis com o discurso que faziam, nem com os nossos sonhos.

Quatro décadas adiante, estou beirando o limiar da velhice, descrente e pouco paciente com a intolerância e a falta de bom senso nesse Brasil de tanta polarização. E claro que fico ainda mais incomodado quando vejo, na mídia e nas redes sociais, o politicamente correto reeditar, com as cores de hoje, as patrulhas ideológicas do final dos anos 1970.

Vivemos a era das inquisições virtuais, disse ontem com muita propriedade, ao comentar o novo disco de Chico Buarque, o crítico de música Mauro Ferreira.

Sobre Anitta:

A cantora, que veio do funk carioca e agora almeja carreira internacional, gravou o clipe de uma música nova. A gravação foi feita no Vidigal. A artista estava vestida com um micro biquini de fita adesiva e usava tranças no cabelo.

Para muitos que seguem a cartilha do politicamente correto, o cabelo de Anitta, do jeito que estava durante a gravação do vídeo, é uma apropriação cultural a que ela não tem direito. “Quer ser negona!”, li num texto tão absurdo quanto pouco inteligente.

Ora, cabelo, cada um usa do jeito que quer.

Tranças, como as de Anitta, ninguém está proibido de usar.

Mais: vivemos num país de grande miscigenação.

Por último: Anitta não é branca!