Pedro Osmar recupera suas canções em ótimo CD duplo

 

O ano era 1971. Pedro Osmar era meu colega no curso ginasial.

Uma noite, chegou lá em casa com um disco dos Beatles (a segunda metade do Álbum Branco) e um violão.

Não pare na reta biconexa.

Dizia o primeiro verso da música que ele cantou.

Eu vi (meu pai também viu) que Pedro, apesar da pouca idade, sabia fazer!

Acompanho seu trabalho desde então.

Essa fase, anterior à sua primeira ida ao Rio, parece ter se perdido no tempo.

Ainda lembro de uma canção completa: Sobre o tema quase três e o mês. Cantou no Festival Nacional de Vanguarda, no Teatro Santa Roza, em 1971. Acho que nem ele lembra mais.

A barra enfrentada no Rio conferiu maturidade ao trabalho de Pedro. Ele voltou cheio de canções. E trouxe na cabeça a ideia da Coletiva de Música da Paraíba, realizada em 1976.

Nascia o cara que queria organizar o movimento.

Jaguaribe Carne (já com o irmão Paulo Ró). Shows com canções. Ruptura com elas. Música aleatória, experimentalismo total. Fala Jaguaribe. Guerrilha cultural.

No meio, Zé Ramalho. Pedro e sua viola na banda de Zé. Uma trilha para o mainstream, por ele logo recusada. Não era o seu caminho.

Entendo (embora lamente) o abandono das canções. Entendo o experimentalismo e o papel exercido pelo guerrilheiro cultural.

Mas discordo de muitas posturas públicas de Pedro. São de intolerância, de não aceitação das diferenças. Isso não combina com o artista, o melodista, o poeta, o experimentador de sons. As suas dores já estão na arte que produz. Bem como seus credos, seus heróis.

Esse post sobre Pedro Osmar tem um motivo: ele acaba de lançar um CD duplo (Quem Vem Lá?) só com canções. São 32! De várias fases da sua trajetória, incluindo as mais conhecidas, aquelas que se tornaram os clássicos do seu repertório (Baile de Máscaras, Nó Cego, Mote do Navio, etc.).

Gostei imensamente do disco! É muito bom!

É algo que Pedro nos devia. Seu songbook registrado com o cuidado merecido. Com bons músicos e arranjos que dão contemporaneidade às canções mais antigas.

Quem Vem Lá? é guiado por uma unidade, tem um conceito formulado por Pedro e os que o produziram. O retorno às canções se dá depois que o artista já ultrapassou o limiar da velhice. Tem o olhar distanciado, mas mantém o desejo pelo novo. Ou não seria Pedro Osmar!

A voz conserva inflexões que eu ouvi no rapaz que foi lá em casa há quase meio século. Elas estão na assinatura do autor e do intérprete. Sempre estiveram. São fortes, têm uma marca de originalidade.

O seu cancioneiro agora está impregnado pela passagem do tempo. Até pelos sons que ele produziu quando rompeu com as canções. Tem muito também da música que ouviu. Pedro foi bom ouvinte nas noites de Jaguaribe.

O que ficou de tudo está sintetizado nesse disco duplo.

Que bom que ele tenha dado esse presente a quem o admira!