Cartola, o musical, entre a melancolia e um enredo pra cima

Fui ver o musical Cartola, O mundo é um moinho.

Em dia de feira no Centro de Convenções, o acesso ao teatro A Pedra do Reino é ruim.

Vamos ao espetáculo.

A escola precisa de um enredo pra cima.

O samba de Cartola é impregnado de melancolia.

Com outras palavras, isso é dito no palco.

E parece ser esse o problema do espetáculo.

Fiquei com a sensação de que estava diante de dois espetáculos.

Um, no presente, é como um humorístico de televisão.

O outro, no passado, reúne cenas da vida difícil de Cartola e da sua grande música.

Os dois não se encontram no texto didático em demasia e nos personagens e situações excessivamente caricatos.

Mas há a música, muito bem dirigida por Rildo Hora.

O resgate desse repertório é sempre louvável.

Wellington de Medeiros expõe na Galeria Archidy Picado

O artista visual Wellington de Medeiros expõe em João Pessoa a partir desta sexta-feira (21).

Insólita Presença é o nome da exposição que está aberta ao público na Galeria Archidy Picado, do Espaço Cultural.

O próprio artista traduz o trabalho exposto:

Fotografias, objetos, materiais efêmeros e pinturas formam as diversas linguagens que constituem meu interesse nas diversas linguagens como mediadoras de minha pesquisa sobre a permanência e a percepção tangível. Expressas em obras com faces e meios de expressão diversos, estou mais aqui do que onde quer que eu esteja neste momento.

Insólita Presença está aberta ao público até o dia 31 de agosto. Todos os dias das 0800 às 1630h. O acesso é gratuito.

Paulo Betti, por W.J. Solha

Paulo Betti está em João Pessoa. Nesta sexta-feira (21) e neste sábado (22), ele apresenta Autobiografia Autorizada no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural.

Hoje cedo, W.J. Solha usou as redes sociais para postar um texto sobre o ator.

Transcrevo:

Conheço o Paulo Betti há séculos. Foi casado com minha sobrinha Eliane Giardini. Conheceram-se quando ela, mal voltou de sua primeira experiência de atriz, que foi em Pombal, no nosso filme “O Salário da Morte” – dirigido pelo Linduarte Noronha, foi fazer escola de arte dramática em São Paulo, um curso que ele também frequentava. Vi os dois “estourando” pela primeira vez numa peça estrelada por ela, dirigida por ele, de 79 – “Na Carrera do Divino” – sobre os matutos paulistas. Dez anos depois, ele me impressionava pela rápida fama conquistada e pela homenagem a meu pai, na novela Tieta, quando fazia o comerciante Timóteo ( “Tudo nos trinques?” ) que sempre atendia os clientes atrás de um balcão, sobre o qual havia um porta-tesoura, em que o bico eram as pontas da ferramenta essencial da costureira, que era minha mãe, e a crista os dois aros em que eram introduzidos os dedos, trabalho em madeira feito pelo carpinteiro Fortunato Solha, as asas duas almofadinhas em que eram espetados agulhas e alfinetes. Foi ótimo ver o Paulo no cinema, depois, como o Barão de Mauá, foi ótimo “apresentá-lo” no festival Aruanda, quando nos trouxe o seu filme “Cafundó” – em 2005 ou 6 – , contando a história de nhô João de Camargo ( Lázaro Ramos) , tido como santo, lá em Sorocaba, reverenciado por minha família. Em 1993, 94, ligou-me perguntando-me como poderia falar com Horácio de Freitas – amigo meu, de Pombal, ator de “O Salário da Morte” ( que rodáramos lá ) – para convidá-lo a participar do filme “Lamarca”. Horácio, infelizmente, já estava mal. Há uns três, quatro anos, Paulo ligou-me perguntando-me se eu não teria um texto teatral com poucos atores, para leitura de texto na Casa da Gávea – centro cultural carioca fundado por ele em 92 – justamente quando Ricardo Torres, que montara minha peça “A Batalha de Oliveiros contra o Gigante Ferrabrás” em 91, em Brasília, buscava produção para levar ao palco, no Rio, um outro scropt meu, “A Verdadeira Estória de Jesus”. Foi uma festa ver, pela internet, o Paulo apresentando o grupo e falando comigo à distância. Ele é, sem dúvida, um dos tipos mais marcantes que conheci. Ao apresentá-lo, no Fest Aruanda, lembro-me de que comentei que eu era pobre, na infância, mas ele mais pobre ainda, pois eu morava na encosta de um morro e, ele, no fundo de outro, numa casa que é agora outro centro cultural, seu , Quilombinho, destinado ao “resgate da autoestima dos escravodescendentes”. Temos uma outra coincidência. Fui, num dia, anos atrás, ao enterro de meu pai, morto aos 87 anos, em Sorocaba, e, no dia seguinte, ao do pai dele, com os mesmos 87. Bem,
agora essa enorme figura chega novamente a João Pessoa, desta vez com “Autobiografia Autorizada”, cujo texto fui um dos primeiros a ler – um belo monólogo muitíssimo engraçado, extremamente verídico e humano, belissimamente escrito e, conhecendo o ator que ele é, por certo… preciosamente interpretado.

Cartola era um príncipe do samba! Um anjo posto em Mangueira!

O musical sobre a vida e a música de Cartola chega a João Pessoa neste sábado (22).

Cartola, O mundo é um moinho será apresentado no teatro A Pedra do Reino, do Centro de Convenções.

O espetáculo foi idealizado por Jô Santana. Tem texto de Artur Xexéo, direção de Roberto Lage, direção musical de Rildo Hora.

Quem interpreta Cartola é o ator Flávio Bauraqui.

Habitada por gente simples e tão pobre

Que só tem o céu que a todos cobre

Como podes Mangueira cantar?

Cartola era um príncipe do samba. Para os que creem, um anjo posto em Mangueira.

Nos anos 20, estava na fundação da escola. Estação Primeira de Mangueira – que nome mais lindo!

Nos 30, foi consagrado como compositor. Tudo acabado/E o baile encerrado/Atordoado fiquei” – era Chico Alves que cantava.

Cartola e Deolinda. Villa-Lobos e o maestro Stokowski.

Nos 40, sumiu!

Nos 60, ressurgiu, depois de ser encontrado por Sérgio Porto, guardando carros.

Cartola e Dona Zica. O Zicartola. Os sambas de Cartola. A culinária de Dona Zica. O samba ao vivo. O samba vivo! Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Zé Kéti, o jovem Paulinho da Viola.

“A cantar/Eu pretendo levar a vida/Pois chorando/Eu vi a mocidade perdida”. Cartola, suas melodias, seus versos. Pura intuição, puríssima beleza!

Nos 70, os discos, afinal!

Quem foi contemporâneo, sabe!

Cartola (1974) e Cartola (1976), os dois lançados pelo selo Marcus Pereira. Verde que te quero rosa (1977) e Cartola 70 Anos (1979), pela RCA.

Nos 70, depois do reconhecimento, o inverno do seu tempo.

Cartola morreu em novembro de 1980. Foi enterrado ao som do surdo da Mangueira.

O samba vive em Cartola!

Meu amigo, meu herói

Hoje (20) é o Dia do Amigo, leio nas redes sociais.

Tempo estranho esse em que vivemos.

Amigos físicos que não vemos, mas com quem falamos pelas redes sociais.

Amigos virtuais que nunca vimos e com quem só falamos pelas redes sociais.

Amigos físicos afastados pela intolerância política.

Amigos virtuais com quem parecemos ter afinidades.

Uns poucos amigos físicos que ainda se veem.

O analógico com dificuldades de se sobrepor ao digital.

Fiquem com os versos de Gilberto Gil em Meu Amigo, Meu Herói.

Amizade e solidão numa canção escrita há 37 anos.

Ó, meu amigo, meu herói
Ó, como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão
Ó, meu amado, minha luz
Descansa tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Ó, meu amigo, meu herói
Ó, como dói
Ó, como dói, ó como dói

Santana, um dos grandes guitarristas do rock, faz 70 anos

O guitarrista mexicano Carlos Santana faz 70 anos nesta quinta-feira (19).

Tinha somente 22 quando, em 1969, tocou com sua banda no Festival de Woodstock, evento que o projetou mundialmente.

A trajetória longa e a discografia extensa confirmam Santana como um dos grandes do seu instrumento.

Santana se consagrou como exímio guitarrista e como autor de uma fusão: a do rock com os ritmos latinos. Nas notas agudas, sua guitarra à vezes soa como um desses trompetes que ouvimos na música da América Central. O uso que faz dos instrumentos de percussão é outra marca forte do seu trabalho. É um traço de originalidade que não encontraríamos numa banda de rock genuinamente americana.

A fusão entre o jazz e o rock, promovida por Miles Davis na virada dos 60 para os 70, também se incorporou à música de Santana. É o que temos no disco excepcional que, em 1972, dividiu com John McLaughlin, outro mestre da guitarra. Love Devotion Surrender é um tributo a John Coltrane e uma experiência mística de dois homens.

Rock, blues (no início, a Santana Band era uma banda de blues), rock latino, jazz rock, música brasileira (entre outros, o Jobim de Stone Flower). Carlos Santana é um artista em permanente diálogo entre suas matrizes e o mundo. Nos grandes hits cantados, em popularíssimos temas instrumentais, nos momentos de menor exposição, Santana é um dos legados da geração de Woodstock, com seus sonhos impossíveis e suas ideias generosas.

Entre 1969 e 1971, Santana e sua banda gravaram três discos absolutamente antológicos. Há muitos outros, mas esses são imbatíveis.

SANTANA

ABRAXAS

SANTANA III

Ney Matogrosso é homenageado do Prêmio da Música Brasileira

O Prêmio da Musica Brasileira será realizado nesta quarta-feira (19) no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O homenageado da edição 2017 é o cantor Ney Matogrosso.

Esse ano, o empresário José Maurício Machline teve dificuldades para realizar o evento, que já se tornou uma tradição entre os artistas. Para que a festa fosse viabilizada, os participantes aceitaram cantar e tocar sem cachê.

A escolha do homenageado faz justiça a um dos grandes artistas da música brasileira.

São mais de 40 anos de carreira, desde a explosão dos Secos e Molhados, em 1973.

Ney Matogrosso é um intérprete singularíssimo, com seu timbre vocal incomum e um absoluto domínio do palco. Começou pelo novo, depois buscou a tradição da canção popular. Esteve no topo das paradas, também fez discos nos quais o êxito comercial era o que menos importava. Tudo o que produziu tem uma marca de qualidade muito forte. Tem escolhas de um artista guiado pela liberdade de criação.

Visto de perto, Ney parece um homem tímido. O inverso do que há na sua admirável trajetória.

Escolhi seis discos para uma reaudição de Ney Matogrosso. Vamos a eles?

SECOS E MOLHADOS

De 1973. Primeiro dos dois discos dos Secos e Molhados, o grupo que revelou Ney Matogrosso. Foi um sucesso absoluto de crítica e público e uma grande ousadia em plena ditadura militar. Novo em sua proposta musical, novo também pela atitude.

ÁGUA DO CÉU – PÁSSARO

De 1975. Primeiro disco solo de Ney Matogrosso. O que ele faria depois dos Secos e Molhados? A resposta veio num LP que parecia ainda mais ousado do que o grupo desfeito. Com sua voz incomum, Ney se consolidava como um dos grandes da MPB.

NEY MATOGROSSO

De 1981. Comercialmente, foi o maior sucesso da carreira de Ney Matogrosso. Homem com H, do paraibano Antônio Barros, colocou Ney em primeiro lugar em todas as paradas. Depois, o artista saiu em excursão lotando os lugares onde cantava.

Ney CDs

PESCADOR DE PÉROLAS

De 1987. Gravado ao vivo. Um Ney Matogrosso diferente. Na performance, no figurino, no repertório . Contido, colocando sua bela voz diante de um cancioneiro de clássicos populares. Ao seu lado, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Rafhael Rabello.

NEY MATOGROSSO INTERPRETA CARTOLA

De 2002. Ney Matogrosso na maturidade debruçado sobre o repertório do grande sambista da Mangueira. Um dos seus muitos álbuns conceituais. Os sambas de Cartola recebem arranjos primorosos para essa leitura muito fiel aos originais.

BEIJO BANDIDO

De 2009. Arranjos camerísticos e sofisticados para um repertório impecável. Ney Matogrosso canta verdadeiros clássicos do cancioneiro popular. Alguns antigos, outros ainda recentes. O disco reafirma a extrema qualidade do seu trabalho.

A arte de Chico Buarque não vai passar. Nossos impasses, sim!

No final do documentário Chico, Artista Brasileiro, Chico Buarque brinca com o futuro e diz que suas novas músicas começariam a ser compostas em 2017 para que o novo disco fosse lançado em 2020.

Na vida real, foi bem melhor. O disco já está sendo gravado e será lançado no próximo mês pela Biscoito Fino. É o primeiro de inéditas depois de seis anos.

É o primeiro também depois que o acirramento dos impasses brasileiros levou a cenas explícitas (e inéditas) de intolerância. Chico, no meio delas.

Penso nisso sempre que volto aos discos de Chico Buarque.

Agora mesmo, vejo o artista nesse vídeo cheio de beleza e sensualidade com Chiara Civello. Chiara é uma italiana nascida em Roma. Cantora moderna de jazz, transita pelo pop, pela MPB.

Io Che Amo Solo Te. Vamos ouvir?

Mas o tema desse post é Chico Buarque.

No documentário Artista Brasileiro, ele menciona Vai Passar como a última das suas músicas engajadas. O samba composto em parceria com Francis Hime é de 1984.

No filme, Chico fala dos sonhos daquela época, fala do que veio depois, do engajamento que pode macular a criação artística, da permanência do cancioneiro para além de um determinado contexto político. Diz coisas muito interessantes.

Exibe serenidade e lucidez em contraponto à intolerância.

Chico é uma das nossas joias raras. Lá pelo meio do filme, Tom Jobim o coloca entre Noel, Ary, Caymmi – nossos grandes. Nossos maiores.

A música de Chico não depende do seu direito cidadão de estar ao lado de quem ele quiser.

O ouvinte pode concordar com ele. Ou discordar dele. Não importa. Seu cancioneiro é infinitamente maior do que os erros e os acertos do homem.

Seu cancioneiro tem permanência. É belo e vastíssimo. Não trata só da luta contra a ditadura que já passou.

Os impasses brasileiros de hoje também passarão. Logo serão substituídos por outros.

Mas, por muito tempo, a arte de Chico Buarque não vai passar!

Salve o compositor popular!

Ouvindo Paez. Reouvindo Krall

Ouvindo Fito Paez.

Canciones Para Aliens.

O argentino Fito Paez é uma das lacunas da minha discoteca. Aventuro-me com um disco mais de covers do que de autor. São canções do mundo que o roqueiro gravou para audição por alienígenas, o título explica. Do nosso Chico a Brel, de Dylan a Mercury, de Gaye a Jarra, de Verdi a Milanés – o resultado é muito bom. As canções foram recriadas por Paez com sua assinatura e não frustram o ouvinte que pensar nos registros originais. Mesmo que estes sejam – e efetivamente são – muito melhores.

Reouvindo Diana Krall.

The Look of Love.

Fazia tempo que eu não ouvia Diana Krall. Escolhi The Look of Love. Menos por ela, mais por Claus Ogerman, o arranjador. Ogerman, que trabalhou para Tom Jobim e João Gilberto. O disco tem uma “pegada” de Bossa Nova. Ótima pianista, boa cantora, Krall canta standards. Os dois que João Gilberto já havia gravado (S’Wonderful e Besame Mucho) confirmam que a influência da Bossa Nova sobre o jazz é muito maior do que o contrário. E que João – claro! – é infinitamente maior do que Krall.

Gênio do jazz, John Coltrane morreu há 50 anos

John Coltrane morreu no dia 17 de julho de 1967.

Há 50 anos.

Com seu sax, Coltrane não era só um músico extraordinário como tantos outros do seu instrumento no mundo do jazz.

Muito mais: ele era um daqueles que fundam, transformam, revolucionam.

Sim! O jazz e suas revoluções! Nos 50, nos 60. Coltrane estava lá. Junto de Miles Davis. Sozinho, comandando sua banda.

O jazz desconstruído e reconstruído por um homem de grandes inquietações e tormentos. Com a música, com a existência, com as religiões.

Coltrane tinha 40 anos quando morreu.

O melhor da sua arte está nesse disco: A Love Supreme.