Xuxa seduz garoto dentro do contexto de um filme

Recebi um vídeo com imagens de Amor, Estranho Amor.

Xuxa seduzindo um garoto no bordel de luxo onde se passa o filme de Walter Hugo Khouri.

O vídeo está editado. Sobre as imagens, foi colocada uma voz (de Xuxa?) gravada para uma campanha que alerta sobre a violência sexual praticada contra crianças e adolescentes.

De vez em quando, volto a esse filme do início dos anos 1980.

Sempre lamentei a luta de Xuxa para tirá-lo de circulação.

Melhor seria ter assumido que fez o filme. A então Rainha dos Baixinhos teria sido mais verdadeira. Não foi. Preferiu esconder.

Amor, Estranho Amor, ao mostrar uma adulta seduzindo um garoto, não está fazendo necessariamente a defesa da pedofilia.

O filme deve ser encarado como expressão artística. Foi realizado por um cineasta brasileiro importante que fez seus melhores filmes sobretudo nos anos 1960 e 1970.

Walter Hugo Khouri atuava em São Paulo, realizando filmes sofisticados que geralmente mostravam as angústias de um personagem chamado Marcelo. O personagem apareceu em muitos filmes, vivido por diversos atores. Era o alter ego de Khouri.

A “censura” acabou superdimensionando Amor, Estranho Amor. Virou um atraente fruto proibido.

Os baixinhos de ontem já devem tê-lo visto muitas vezes.

Elba e o São João de Campina. A versão de Marcos Alfredo

Elba Ramalho fez críticas à descaracterização do São João de Campina Grande.

Hoje (05) cedo, fiz uma postagem dizendo que ela está certa.

Mencionei o texto que o jornalista Marcos Alfredo postou no Facebook. Acho que ele foi grosseiro com Elba.

Marcos, que é coordenador de comunicação da prefeitura de Campina Grande, me enviou a posição dele.

Transcrevo:

Respeito demais sua posição, amigo! Mas continuo a achar que ela está mal informada, assim como você. Não se pode medir a dimensão cultural do Maior São João do Mundo a uma eventual grade artística de palco principal. Seria minimizar demais a festa de 30 dias, com as centenas de apresentações dos trios de forró contratados; com a beleza de um Sitio São João, de uma Locomotiva Forrozeira, de duas dezenas de eventos folclóricos, com a cidade cenográfica, com o Palco Parafuso, com a Casa de Cumpade, com a Casa de Gonzaga, com as quadrilhas juninas, com as comidas típicas oferecidas em estabelecimentos nas periferias da cidade, nos hotéis e restaurantes vários da cidade. Enfim, com uma série de opções que engrandecem a festa. Lamentavelmente, aposta-se na miopia de se enxergar apenas o que é conveniente como crítica. Respeito demais Elba como artista. Mas me permito, assim como ela, de ter uma opinião pessoal própria.

Elba está certa! Descaracterizaram o São João de Campina!

Em Pernambuco, Elba Ramalho falou da descaracterização do São João.

Elba está certa!

Descaracterizaram o São João de Campina Grande! Foi isso o que fizeram!

Li por aí, no final de semana, um texto elogiando a estrutura da festa, o palco, etc.

Não estamos falando disso!

Estamos falando de algo que tem a ver com regiões profundas do ser do Nordeste!

Vou tentar traduzir com poesia, já que a festa nasceu sob a inspiração de um poeta:

Como será pois se ardiam fogueiras

Com olhos de areia quem viu

Praias, paixões fevereiras

Não dizem o que junhos de fumaça e frio

É Caetano Veloso.

Depois da poesia, a realidade: o jornalista Marcos Alfredo postou no Facebook um texto defendendo a festa e criticando Elba Ramalho.

Vou resumir: está no papel dele, mas foi no mínimo deselegante com a artista.

Elba merece respeito!

Um livro para quem chama Fernando Gabeira de coxinha

Estou relendo O Que É Isso, Companheiro?. Edição da Estação Brasil.

No atual transe brasileiro, há coisas que me levam ao tempo em que o livro de Fernando Gabeira foi publicado.

Li pela primeira vez em 1979. Gabeira, que acabara de voltar do exílio, chocou a esquerda e a direita com seu discurso e sua tanga minúscula.

Desde a primeira leitura, quase quatro décadas se vão.

A impressão inicial, agora, é de que, se pensarmos na qualidade do texto e na sua estrutura narrativa, o livro resistiu muito bem à passagem do tempo. O Que É Isso, Companheiro? pode até ter sido escrito no calor da anistia e da volta dos exilados, mas não apenas para ser lido naquele momento. Ele se mantém como um dos livros essenciais para quem quer se debruçar sobre a história da ditadura militar brasileira.

Há qualidade literária no que Gabeira escreveu nesse primeiro volume da trilogia completada depois com O Crepúsculo do Macho e Entradas e Bandeiras. O jornalista de texto primoroso experimenta fazer literatura num livro que conta uma história verdadeira, narrada na primeira pessoa, mas o faz com uma certa “pegada” de obra de ficção. O que talvez explique a permanência do seu relato.

A esquerda que hoje chama Gabeira de coxinha não é diferente da que reprovou a sua tanga naquele verão de 1980. É uma esquerda reacionária, a despeito de ser jovem. Separadas por quase 40 anos, uma e outra, no fundo, não assimilaram as transformações que o autor enxergou ainda no exílio e trouxe na bagagem, na sua volta ao Brasil.

Uma e outra parecem incapazes da crítica e da autocrítica que há no que Fernando Gabeira escreveu. As suas reflexões, por trás da muitíssimo bem narrada história com começo, meio e fim, permanecem úteis e atuais.

Para mencionar somente um exemplo de dois dias atrás, que autocrítica pode haver numa esquerda cujo mais importante partido escolhe como presidente uma senadora ré, e é sob seu comando que marchará para a disputa de 2018?

Reler O Que É Isso, Companheiro? me faz pensar sobretudo nos jovens que chamam Gabeira de coxinha. Quantos já leram o livro?

Estão perdendo uma bela aula de história do Brasil!

Hugo Cabret e os que foram salvos pelo cinema

Revi A Invenção de Hugo Cabret.

Seguem algumas anotações a propósito do filme.

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, me traz a lembrança de François Truffaut. Principalmente na cena em que o personagem central leva a menina para ver os filmes mudos. A alegria deles é como a da família desajustada de Antoine Doinel depois de uma ida ao cinema em Os Incompreendidos. O cinema salvou Truffaut de uma vida marginal do mesmo modo que tirará o garoto Hugo da miséria em que vive, escondido na estação de trem de Paris. Doinel e Cabret, em tempos diferentes, remetem ao universo de Dickens tanto quanto O Garoto, de Chaplin, que Scorsese mostra rapidamente no filme. Todos foram salvos pelo cinema. François Truffaut, Charles Chaplin, cuja infância em Londres não é diferente da dos personagens de Dickens. E Martin Scorsese, menino pobre em Nova York, vivendo a um passo do mundo do crime.

Hugo Cabret e Antoine Doinel se protegem do frio nas ruas de Paris. Um foge do bedel na estação. O outro, da repressão na escola. A Torre Eiffel é vista de longe. Parcialmente, sobre os telhados, em Os Incompreendidos. Inteira e iluminada, através do mostrador do grande relógio da estação, em A Invenção de Hugo Cabret. Truffaut começou pelo universo infantil e voltou a ele em O Garoto Selvagem e Na Idade da Inocência. Scorsese esperou pela velhice. E o fez estimulado pela filha de 11 anos, que lhe cobrou um filme que ela pudesse ver. Pais e filhos. Era o pai de Marty que o levava ao cinema na infância em Nova York. Era o pai de Hugo Cabret que o apresentava aos filmes em Paris. Quando ele conta isto à menina, quem está falando é Scorsese. Para sua filha pequena. Ou para nós, os espectadores.

É bom ver A Invenção de Hugo Cabret pensando nessas coisas, tentando percebê-las por trás da história que o filme narra. Claro que elas não são o essencial, mas constituem aspectos extremamente prazerosos neste tributo de Martin Scorsese ao seu ofício. Tomemos, por exemplo, o Alfred Hitchcock de Janela Indiscreta. O personagem imobilizado na cadeira, a observar a vida dos vizinhos. Pequenas histórias se desenvolvem sob seu olhar. Do mesmo jeito que em Hugo Cabret. O garoto vê através dos relógios. E lá estão as pequenas histórias. A do bedel com seu cachorro. A da florista que ele corteja. A da mulher solitária com seu cãozinho. A do homem que quer conquistá-la. Elas vão se desenvolvendo paralelamente à trama central. Scorsese também repete Hitchcock ao entrar na cena. Ele é o fotógrafo no estúdio de Méliès. Apenas por dois ou três segundos.

Martin Scorsese é um dos maiores cineastas do mundo. E um homem que pensa o cinema. A Invenção de Hugo Cabret é um grande Scorsese, belo e deslumbrante como a fantasia primitiva de Georges Méliès que ele evoca. Sem ela, o cinema não seria o que é. Uma imagem resume o salto, dos rudimentos à alta tecnologia: a que vemos o cenário de teatro ao fundo e o aquário jogado diante dos nossos olhos, graças à fotografia em 3 D. Àquela altura, os segredos do filme estão quase todos revelados. Mas seu encanto irá até o desfecho. Hugo Cabret se passa numa estação de trem. Por isto, faz recordar o cinematógrafo de Lumière. Mas o fantástico e o onírico conduzirão necessariamente à criação de Méliès. Como matriz do que temos quando vemos um filme como A Invenção de Hugo Cabret.

Capa do manifesto tropicalista faz homenagem ao Pepper

Nesta quinta-feira (01/06), faz 50 anos que os Beatles lançaram Sgt. Pepper, o disco mais importante da carreira deles.

Volto ao Pepper com uma lembrança: entre as muitas capas que tiveram o álbum dos Beatles como referência está a de Tropicália – Panis et Circencis.

O manifesto tropicalista foi lançado um ano depois do disco dos Beatles.

Os tropicalistas comandados por Caetano Veloso e Gilberto Gil também tinham o seu George Martin: era o maestro Rogério Duprat.

 

O que restou da crítica de cinema gosta mesmo é de blockbuster!

Andei lendo uns textos sobre a Mulher Maravilha.

Um deles me deu saudades da crítica de cinema.

Do tempo em que havia crítica de cinema.

A sessão de imprensa da Mulher Maravilha tinha até jornalistas, diz o cara que escreveu o texto. O que tinha mesmo era gente do mundo digital fazendo selfie no cartaz do filme.

O crítico de cinema é uma espécie em extinção, diz o texto.

Vejam o exemplo da Paraíba. Atualmente, só há um crítico de cinema em atividade. É João Batista de Brito, um professor aposentado com mais de 70 anos que publica no seu blog (Imagens Amadas) e depois compartilha no Facebook. Não estou exagerando: João escreve de acordo com o cânone da melhor crítica de cinema do mundo. Conhece o objeto da crítica, tem admirável domínio do texto, sabe fundir o olhar afetivo do cinéfilo que é com o saber acadêmico que tem. Sua crítica pode ser lida em qualquer lugar pelo leitor mais exigente.

No passado, tínhamos isso todos os dias nos jornais. Lembram? João Batista é “filho” desse tempo.

Abríamos o Jornal do Brasil e tínhamos a dupla Ely Azeredo e José Carlos Avellar!

Abríamos A União, aqui tão perto de nós, e tínhamos Antônio Barreto Neto!

Abríamos o Diário da Borborema e tínhamos o jovem (e já brilhante) Bráulio Tavares!

Quem leu Paulo Emílio e Truffaut e Moniz Vianna e Kael e Ebert, agora vai ler o quê?

Gente que prioriza o blockbuster, o super herói, a franquia!

É triste, mas foi o que restou!