Elba Ramalho: “Minha voz não carrega preconceito, açoite ou ofensa”

Essa entrevista surgiu de uma conversa de Elba Ramalho com o jornalista Hildebrando Neto, da TV Cabo Branco.

Elba queria, de uma vez por todas, esclarecer alguns pontos dessa polêmica sobre a programação do São João de Campina Grande.

Hildebrando sugeriu que eu a entrevistasse.

Segue a conversa.

Sílvio Osias – Uma entrevista que você deu em Pernambuco deflagrou um debate sobre a descaracterização das festas juninas no Nordeste. Para começarmos essa conversa, como você resumiria aquela fala?

Elba Ramalho – O movimento Devolva Meu São João, lançado na rede e criado pelo sanfoneiro Chambinho ( que fez o papel de seu Luiz no filme De Pai prá Filho), ganhou adesão de todos os artistas regionais e se disseminou com muita força. Isto ocorreu logo após a apresentação das grades artísticas pelas prefeituras, bem antes da minha fala! Quis manifestar  meu apoio ao movimento, porque achei justo. Ratifico: só falei porque fui perguntada. Procurei ser delicada e democrática na minha fala, mesmo sabendo que poderia ser fogo em pólvora. Inicio dizendo: o céu é grande, cabem todas as estrelas e nenhuma atropela a outra. O resto, já sabemos. Não havia, de minha parte, revolta, nem discussão inflamada, porque isso não resolve, não auxilia nem ilumina.

A sua postura me pareceu muito clara. Mas nem todos entenderam assim. Que tipo de desconforto você enfrentou (e enfrenta) por causa desse debate?
O desconforto maior veio nas palavras  de um jornalista campinense, coordenador de comunicação da prefeitura de Campina. Foi difícil digerir e compreender a razão de tanto ódio, destilado de forma deselegante contra minha pessoa. Coisas que um ser humano não deve fazer a outro. Faltou-lhe perseverança, pela função que exerce. Respondi desejando-lhe paz e bem. A partir daí, o que deveria ser um diálogo saudável, ganhou ares de competição, intolerância, infelizmente. Continuo em paz, aguardando o concurso sábio do tempo.
Vivemos no Brasil um momento de muita intolerância. Você acha que os desdobramentos desse debate, com alguns excessos de ambos os lados, têm a ver com isso?
Vivemos debaixo do mesmo céu. Devemos buscar sempre a reconciliação e nunca a intolerância. Picasso disse, entre outras coisas: aprenda as regras como profissional para que possa quebrá-las como artista. Os debates que se seguiram saíram do limite da  tolerância, reconheço, de ambos os lados, mas não foram gerados por mim. Minha voz não carrega preconceito, açoite ou ofensa. Sou cristã e, apesar das confusões mentais geradas pela ignorância, continuo emanando luz na tentativa de dissipar as quimeras. Amo o que faço, respeito o que os outros fazem, isso é tudo. Espero que alcancemos o tempo onde falar sobre árvores não seja uma falta. O ministério que me foi dado por Deus não pode ser desacreditado, porque minha voz é verdadeira.
Os seus vínculos profundos com a música do Nordeste nunca lhe impediram de dialogar com outras expressões musicais. Tenho a impressão de que isso não ficou claro nessa discussão de agora. Você concorda?
Sim, construí minha carreira sobre rochas, com os pés no Nordeste e os olhos no mundo. Meu diálogo com a música transpõe os muros do preconceito, repito. Não podemos limitar a música já que tem o poder de aproximar povos e promover a paz. Minha maior satisfação não é ter vendido milhões de discos, nem ganhar dinheiro, é dividir o palco com meus colegas. E não importa a nacionalidade, cor ou crença. Cantei com artistas diversos; cubano, venezuelano, chileno, porto-riquenho, americano, português, alemão, francês e até japonês. O Brasil é o celeiro da diversidade. Rico, vasto, com uma cultura híbrida, tudo parece estar junto e misturado. Aliás, tenho um projeto de verão que se chama Elba Convida, onde recebo, há mais de 15 anos, artistas de todos os segmentos da música brasileira no meu palco. Resumindo, no verão deste ano estiveram comigo: Zélia Duncan, Maria Gadú, Chico César, Ney Matogrosso, Timbalada, Mart’Nália, Samuel Rosa, Aline Rosa, Margareth Menezes, Simone e Simaria. Inclusive a própria Marília foi convidada, mas não obtivemos resposta.  Mas samba é samba, baião é baião, rock é rock, sertanejo é sertanejo.
Para além do mercado, para além da terceirização, você não acha que os gestores públicos devem ter um compromisso maior com a manutenção de algumas das nossas tradições?
Chegamos ao cerne mais importante da questão. Esse discurso já foi conclamado por diversos artistas e não preciso citar nomes: a responsabilidade da preservação da cultura dessa ou daquela região está nas mãos de gestores, de curadores, ou seja, pessoas que são credenciadas para fazê-lo. Precisamos saber se essas pessoas têm consciência, responsabilidade e capacidade para gerarem arte e cultura devidamente.Uma modalidade musical pode ser arte ou show business para alguns. Para Miles Davis, jazz não era apenas jazz, para Almir Sater, sertanejo não é apenas sertanejo, para mim, forró não é apenas forró, mas o caminho pelo qual nos conectamos com o infinito.
Para Elba Ramalho, forró e São João não são assuntos de show business, vão além do cultural, alcançam o espiritual, o místico. Não tenho outros interesses nessa festa senão a emoção de ouvir a voz de seu Luiz, a sanfona de Dominguinhos e Sivuca, o pandeiro de Jackson, a voz de Marinês, o barulhinho bom dos trios regionais. Isso não é xenofobia, é afeto.
Para Elba, qual seria o modelo ideal para uma grande festa junina? Seria, por exemplo, algo como o carnaval multicultural do Recife, que abre espaço para muitas tendências, mas preserva o frevo como sua maior expressão?
Você já apontou um modelo que considero funcional, o adotado no carnaval de Pernambuco. É multicultural, mas prioriza a tradição, o frevo. Quem sabe esse não seja o caminho ideal. É só experimentar,  frisando bem o “multicultural “, ou seja, a diversidade de nossa música que poderá ser apresentada em diferentes polos do estado, sem apagar o brilho das nossas tradições. Tenho tanto respeito pelo carnaval de Pernambuco que priorizo os ritmos de lá no meu repertório, de ponta a ponta, porque violar seus tambores seria rasgar (destruir) as vestes da história.

Numa mensagem ao prefeito de Campina Grande, você adotou um tom de conciliação, de harmonia, que tem a ver com a sua formação, com o que você é. Pra você, esse episódio está superado? O que teremos no seu show da noite do dia 23?

Silvio, o conflito não edifica. O prefeito desejou falar comigo, ratificou sua admiração pelo meu trabalho e foi muito cortês. Reconheço que, ao terceirizar a festa, o risco que ele corre é muito grande porque qualquer equívoco lhe será atribuído. Música é também comércio e pode gerar muito, muito dinheiro. Ok, está tudo certo! O problema é a força da grana que ergue e pode destruir coisas belas. Respondi à sua gentileza com a mesma delicadeza que precede minhas ações neste mundo. Claro, estou ansiosa para cantar em Campina Grande, a cidade que me deu régua e compasso, no palco onde tudo começou. Desejo realmente que tudo seja passado a limpo. E passado. Isso só vai ocorrer se as coisas estiverem fundadas na VERDADE! Infelizmente, VERDADE não é base e ética de alguns profissionais. Só para atualizar, estou cantando nas grandes festas de São João do Brasil, pelo menos onde nossa música nordestina é considerada original, genuína. Muitas quadrilhas do Rio e São Paulo me homenageiam, contam minha história, o que muito me honra. Logo que acabem os festejos juninos, sigo para shows no Japão e na Europa. Quem estiver aberto a compreender minhas palavras vai saber que estão carregadas  de amor e de zelo. Aos amigos sertanejos, Zezé, Luciano, Chitão, Xororó, Daniel, Vanessa Camargo, Simone e Simaria e todos os  outros, digo: sejam bem vindos ao Maior São do Mundo. Sejam bem vindos também Zeca Pagodinho, Skank, Ney Matogrosso, Martinho da Vila, Zélia Duncan, Cidade Negra, Maria Gadú, Mestrinho, FalaMansa. Viva a democracia, viva a diversidade! No final, nada é entre você e os homens, mas tudo é entre você e Deus! É vida que segue! E viva São João do Carneirinho!