Três discos seminais resumem a arte refinada de João Gilberto

Recluso e longe dos palcos há quase uma década, João Gilberto faz 86 anos neste sábado (10).

A síntese da sua arte está em três discos lançados entre o final dos anos 1950 e o início da década de 1960.

O primeiro LP de João Gilberto, Chega de Saudade, de 1959, é o disco mais importante da Bossa Nova. A música popular brasileira era uma e passou a ser outra depois dele. Suas 12 faixas nos apresentam à revolução estética promovida, principalmente, por João Gilberto e Antônio Carlos Jobim. O disco é do primeiro, mas não existiria sem o segundo, suas canções e seus arranjos.

A batida do violão, ouvida antes acompanhando Elizeth Cardoso em Canção do Amor Demais, e o canto contido de João redimensionaram o samba e projetaram a música do Brasil num cenário que seria transformado por ela. O que ouvimos naquele disco está presente em muito do que os artistas brasileiros produziram nas décadas seguintes. Influência que se estendeu pelo mundo, na Europa, Japão e, sobretudo, no jazz americano.

O repertório de Chega de Saudade reúne músicas de Tom Jobim e seus parceiros (Vinícius de Moraes na faixa que dá título ao disco. Newton Mendonça em “Desafinado”), mas também de autores que ficaram conhecidos através da Bossa Nova, como o Carlos Lyra de “Maria Ninguém” e o Roberto Menescal de “Lobo Bobo”. Compositor bissexto, João Gilberto assina “Oba-lalá” e “Bim Bom” e relê duas fontes: o Ary Barroso de “É Luxo Só” e o Dorival Caymmi de “Rosa Morena”.

Ao LP Chega de Saudade, seguiram-se mais dois discos: O Amor, o Sorriso e a Flor e João Gilberto. Os três me parecem suficientes como tradução do que foi a Bossa Nova. Seminais, formam um conjunto de excepcional beleza e grande unidade. São tão indissociáveis quanto a fusão da voz de João Gilberto com a batida do seu violão.

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte e até o músico: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram.

É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista e sua invenção.