Revendo “Raul” em homenagem a Walter Carvalho

O cineasta Walter Carvalho está entre os brasileiros que vão participar da escolha do Oscar. Um orgulho para nós, paraibanos.

Em sua homenagem, revi o documentário Raul, O Início, O Fim e O Meio.

Comento.

Vladimir Carvalho era um jovem comunista sem preconceito com o rock. Estudando na Bahia, no início dos anos 1960, queria que os amigos fossem ver Raulzito tocar num velho cinema.

Em João Pessoa, Walter, seu irmão, dançava rock’n’ roll quando era rapaz. A mãe se preocupava, e o irmão mais velho dizia que aquilo era normal.

Os dois ficaram famosos fazendo cinema. Vladimir, grande documentarista. Walter, grande fotógrafo. Mais tarde, diretor. Fez ficção, filmando a vida de Cazuza. E documentário, contando a história de Raul Seixas.

O músico morreu há quase 30 anos, mas permanece vivo na memória de milhares de fãs. E eles não são comuns. Alguns caracterizados como o ídolo, cultuam Raul como se ele tivesse sido um filósofo, um grande pensador. Reúnem-se às centenas para homenageá-lo todos os anos. Não reconhecem nele apenas um rocker. Sim, um roqueiro talentoso e esperto que viveu intensamente a sua loucura e foi tragado por ela. Como tantos outros do mundo do rock’n’ roll.

Raul, O Início, O Fim e o Meio é um belo documentário. Walter Carvalho brinca deliciosamente com o cinema em algumas sequências. Numa delas, com Easy Rider. O sósia de Raul segue pela estrada como os personagens de Peter Fonda e Dennis Hopper, que aparecem rapidamente. Noutra, com King Creole. Elvis Presley dança, e um dos amigos da juventude de Raul tenta imitá-lo, dançando e cantando num inglês precaríssimo. Mais na frente, o dentista que cuidou dos dentes de Raul e escreveu uma biografia de Elvis projeta (como em Cinema Paradiso) King Creole na parede do edifício em que mora. Notáveis menções à relação entre rock e cinema.

Walter Carvalho contou tudo. Da vida privada e da carreira do artista. O seu retrato de Raul Seixas enaltece o roqueiro, mas também trata dos seus defeitos. Por exemplo: o péssimo hábito de se apropriar de músicas alheias. Sobretudo do pop/rock anglo-americano. As muitas mulheres, a relação com as filhas, os parceiros, a família, as drogas, o alcoolismo que o levou à morte, os fracassos no mercado fonográfico e no mundo dos shows, o suposto pacto com o diabo – está tudo em O Início, O Fim e O Meio. Numa narrativa ágil, cheia de depoimentos, mas igualmente repleta de músicas. As canções que marcaram tão fortemente o Brasil dos anos 1970.

Curioso que o documentário de Walter Carvalho chegou aos cinemas na mesma época de Rock Brasília, em que seu irmão se debruça sobre as bandas brasilienses dos anos 1980. São os irmãos Carvalho no rock, com visões distintas do fenômeno e dos seus protagonistas. Vladimir com seu olhar de homem de esquerda. Walter mais solto. Vladimir sobrepondo a fala à música. Walter guiado pela força do rock de Raul.

Quem ainda ouve Sérgio Ricardo? Eu ouço e gosto muito!

O nome de batismo é João Mansur Lutfi, paulista de Marília, filho de libanês. O nome artístico, Sérgio Ricardo.

Pianista, compositor, diretor de cinema. Começou na Bossa Nova e dela saiu para um repertório de canções engajadas. Fez sambas refinados, como bom bossanovista, e incursionou pela música nordestina, algo surpreendente para um artista com sua formação e sua origem.

Com raras exceções, o público de hoje não o conhece. Dos ouvintes do seu tempo, acredito que são poucos os que continuam a ouvi-lo. Estou entre eles.

Faz Escuro, Mas Eu Canto. Era este o nome do show de Sérgio Ricardo com o poeta Thiago de Melo que vimos no Teatro Santa Roza nos anos 1970. O título dizia tudo. O homem que compôs Zelão cantava o que era possível naquele tempo.

No meio do espetáculo, apanhava o público de surpresa ao interpretar o Hino à Bandeira. Como se quisesse dizer que o Brasil era maior do que o momento histórico em que vivíamos. A ditadura passaria e permaneceria a beleza do hino que fala do afeto que se encerra em nosso peito juvenil.

Dom José Maria Pires estava na plateia, e Thiago de Melo jogou uma rosa para o arcebispo.

Tenho muitas lembranças de Sérgio Ricardo. A mais remota é a do episódio de Beto Bom de Bola, no Festival da Record de 1967. Foi ali que o vi pela primeira vez. Irritado com as vaias, o músico quebrou o violão, atirou o instrumento na plateia e foi eliminado da disputa. A história está no documentário Uma Noite em 67.

Mas prefiro outras lembranças: das muitas audições em discos e das poucas vezes em que pude vê-lo no palco. Melodista inspirado, letrista sensível, intérprete marcante, Sérgio Ricardo está presente com seu talento de autor e sua bela voz na música popular que os brasileiros produziram nos anos 60 e 70 do século passado, mesmo que não tenha obtido grande sucesso.

Sérgio Ricardo não gravou muito. Na sua discografia, a qualidade se sobrepõe à quantidade. Como diretor de cinema, também realizou poucos filmes. Sempre gostei imensamente do título de um deles: Juliana do Amor Perdido. Em A Noite do Espantalho, trabalhou com os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo e filmou em Nova Jerusalém. A trilha deste filme é primorosa.

Quando se fala do seu vínculo com o cinema, é necessário mencionar a parceria com Glauber Rocha na trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O filme de Glauber não seria o mesmo sem aqueles temas que parecem compostos por um nordestino, jamais por um paulista filho de libanês.

Sérgio Ricardo fez 85 anos agora em junho.

Bom motivo para reouvi-lo.

Ou conhecê-lo.

Artistas pedem Fora, Temer! cantando samba Xô, Vampirão!

A empresária Paula Lavigne, mulher de Caetano Veloso, toda semana faz uma reunião de artistas no seu apartamento no Rio.

No último encontro, no clima do Fora, Temer!, os artistas improvisaram um samba: Xô, Vampirão!, que Paula postou nas redes sociais.

No vídeo, estão Xande de Pilares, Mosquito, Lúcio Mauro Filho, Letícia Sabatella e o senador Randolfe Rodrigues.

Vladimir Herzog, morto pela ditadura, faria 80 anos hoje

Se estivesse vivo, o jornalista Vladimir Herzog faria 80 anos nesta terça-feira (27).

Preso pelo regime militar, ele foi assassinado em outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo.

A morte de Herzog mobilizou os que lutavam contra a ditadura iniciada em abril de 1964 e ampliou a resistência aos governos de exceção.

O culto ecumênico por Herzog, que reuniu católicos, evangélicos e judeus (Vlado era de origem judaica) na Catedral da Sé, foi uma das mais contundentes manifestações da sociedade civil contra a ditadura.

Faço o registro porque a lembrança de Vladimir Herzog é imprescindível na turbulência política e nos embates ideológicos do Brasil de hoje. É História que precisa ser contada.

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (III)

Vamos à última parte da lista de 75 músicas que fiz para festejar, nesta segunda-feira (26), os 75 anos de Gilberto Gil.

É uma síntese, sob minha ótica, do cancioneiro desse grande artista brasileiro.

ABRI A PORTA – 1979 (com Dominguinhos)

MEU AMIGO, MEU HERÓI – 1980

LUAR – 1980

PALCO – 1980

SE EU QUISER FALAR COM DEUS – 1980

DRÃO – 1981

ANDAR COM FÉ – 1982

EXTRA – 1983

A LINHA E O LINHO – 1983

PUNK DA PERIFERIA – 1983

O ROCK DO SEGURANÇA – 1984

PESSOA NEFASTA – 1984

TEMPO REI – 1984

VAMOS FUGIR – 1984

NOS BARRACOS DA CIDADE – 1985

ORAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO DA ÁFRICA DO SUL – 1985

A NOVIDADE – 1986 (com Os Paralamas do Sucesso)

A PAZ – 1986 (com João Donato)

O ETERNO DEUS MU DANÇA – 1989

PARABOLICAMARÁ – 1991

HAITI – 1993 (com Caetano Veloso)

QUANTA – 1995

PELA INTERNET – 1996

MÁQUINA DE RITMO – 2002

NÃO TENHO MEDO DA MORTE – 2008

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (I)

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (II)

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (II)

Sigo com a segunda parte das 75 músicas que escolhi para festejar, nesta segunda-feira (26), os 75 anos de Gilberto Gil.

IANSÃ – 1972 (com Caetano Veloso)

MEIO-DE-CAMPO – 1973

PRECISO APRENDER A SÓ SER – 1973

CÁLICE – 1973 (com Chico Buarque)

LAMENTO SERTANEJO – 1973 (com Dominguinhos)

TRADIÇÃO – 1973

FILHOS DE GANDHI – 1973

LUGAR COMUM – 1974 (com João Donato)

COPO VAZIO – 1974

ELA – 1975

REFAZENDA – 1975

PAI E MÃE – 1975

RETIROS ESPIRITUAIS – 1975

CHUCK BERRY FIELDS FOREVER – 1976

ESOTÉRICO – 1976

SÃO JOÃO, XANGÔ MENINO – 1976 (com Caetano Veloso)

SANDRA – 1976

A GAIVOTA – 1976

SÍTIO DO PICA-PAU-AMARELO – 1976

DE ONDE VEM O BAIÃO – 1976

REFAVELA – 1977

REALCE – 1979

SUPER-HOMEM  –  A CANÇÃO – 1979

REBENTO – 1979

TODA MENINA BAIANA – 1979

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (I)

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (III)

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (I)

Gilberto Gil faz 75 anos nesta segunda-feira (26).

Para festejar, escolhi 75 músicas de sua autoria (algumas feitas em parceria).

É uma lista pessoal que posto aqui em três partes.

Fica como um retrato do artista tirado por mim.

FELICIDADE VEM DEPOIS – 1962

PROCISSÃO – 1964

EU VIM DA BAHIA – 1965

VIRAMUNDO – 1965

LOUVAÇÃO – 1965 (com Torquato Neto)

LUNIK 9 – 1966

AMOR ATÉ O FIM – 1966

DOMINGO NO PARQUE – 1967

FREVO RASGADO – 1967 (com Bruno Ferreira)

ELE FALAVA NISSO TODO DIA – 1967

MARGINÁLIA 2 – 1967 (com Torquato Neto)

SOY LOCO POR TI, AMÉRICA – 1967 (com Capinan)

PANIS ET CIRCENSIS – 1968 (com Caetano Veloso)

GELEIA GERAL – 1968 (com Torquato Neto)

BATMACUMBA – 1968 (com Caetano Veloso)

DIVINO, MARAVILHOSO – 1968 (com Caetano Veloso)

CÉREBRO ELETRÔNICO – 1969

VOLKS-VOLKSWAGEN BLUE – 1969

AQUELE ABRAÇO – 1969

MAMMA – 1971

LADEIRA DA PREGUIÇA – 1971

ORIENTE – 1971

O SONHO ACABOU – 1971

EXPRESSO 2222 – 1971

BACK IN BAHIA – 1972

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (II)

75 músicas para festejar os 75 anos de Gilberto Gil (III)

Há 50 anos, 350 milhões viram os Beatles via satélite

25 de junho de 1967.

350 milhões de pessoas de vários países viram a primeira transmissão mundial de televisão via satélite.

Os Beatles participaram com uma nova canção: All You Need Is Love.

Era uma mensagem de paz para um mundo conflagrado.

Neste domingo (25), faz 50 anos!

William Medeiros chega aos 50 como supercraque da caricatura

O ilustrador e designer gráfico paraibano (de Campina Grande) William Medeiros está fazendo 50 anos neste sábado (24).

Ele é um supercraque da caricatura!

Tive a alegria de ver William Medeiros criando.

No ano 2000, publiquei uma série de artigos sobre música no Jornal da Paraíba. William ilustrava com suas caricaturas. Graças ao seu extraordinário talento, fizemos belas páginas no velho caderno dominical de cultura.

As ilustrações dele eram sempre melhores do que os meus textos!

Mais tarde, aquelas crônicas musicais (junto com as caricaturas) foram transformadas no livro Meio Bossa Nova, Meio Rock‘n’Roll.

A minha predileta é essa de Hermeto Pascoal:

Gosto muito também dessa de João Gilberto:

A de Roberto Carlos foi uma das selecionadas para o livro:

Parabéns William!

Pelos 50 anos e por sua arte!

Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.