Com Brasília sob terremoto, lembrei de Vladimir Carvalho

Coisa de cinéfilo! O terremoto político em Brasília me trouxe a lembrança de Vladimir Carvalho. O sonho de JK, da construção ao rock dos anos 1980, reconstituído sob a ótica do grande documentarista paraibano.

Fui rever Rock Brasília. Resgato anotações que havia feito sobre o filme:

O título do documentário de Vladimir Carvalho é moderno. Rock Brasília. O subtítulo, Era de Ouro, parece antigo. Talvez porque o filme tem as duas coisas. Fala de roqueiros rebeldes, de suas letras contestatórias, de punks, de jovens que desafiaram a polícia. Só que o faz de uma maneira que o diferencia do jeito contemporâneo de filmar o rock. Por isto disseram, como crítica negativa, que a montagem é lenta. Não é um defeito, mas uma virtude.

Reza a lenda que, na juventude, quando foi estudar filosofia na Bahia, Vladimir insistia para que os amigos fossem ver Raul Seixas (ainda Raulzito) tocar. O comunismo não o impedia de ter antenas direcionadas ao rock. E contribuía para que misturasse Roberto Carlos e Lênin quando comentava a origem da expressão Jovem Guarda. Era a época dos primeiros documentários sobre rock. As matrizes do que temos em Rock Brasília – Era de Ouro.

Há pouca música em Rock Brasília. Como nos hoje clássicos Don’t Look Back e Gimme Shelter. Este é citado por Vladimir na longa e admirável sequência em que reconstituiu o tumultuado show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha. A música ilustra o filme. Mas o que realmente importa são as histórias que o cineasta vai reconstruindo através dos depoimentos captados e conduzidos por ele. Guiados por seu afeto e sua sensibilidade.

Vladimir passou mais de duas décadas pensando em realizar Rock Brasília. O tempo foi seu aliado. Possibilitou que ele enxergasse as coisas de longe, depois que elas aconteceram. E também deu distanciamento aos protagonistas. Os roqueiros rebeldes se transformaram em homens maduros. E a velhice permite que o pai de dois deles reconheça que aprendeu com os filhos. E tenha a fala embargada pelas lágrimas.