Belchior foi injusto ao chamar Caetano de antigo compositor

Alucinação, o LP que projetou Belchior nacionalmente em 1976, é um dos grandes discos da música brasileira.

Lá estão, na voz do autor, Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, A Palo Seco, Apenas um Rapaz Latino-americano. Canções que atravessaram o tempo.

É um daqueles discos que ouvimos do início ao fim porque todas as faixas são muito boas.

Gosto imensamente do disco. Gosto muito de Belchior. Mas sempre, desde que Alucinação foi lançado, acho que a referência aos tropicalistas não é justa.

A crítica de Belchior aos tropicalistas está na letra de Apenas um Rapaz Latino-americano. O “antigo compositor baiano” que ele ouviu no rádio é Caetano Veloso.

A canção que ele menciona é Divino, Maravilhoso (música de Gil, letra de Caetano). Música fortemente engajada do ano de 1968. Tem o verso poderosíssimo que atravessa o tempo tanto quanto as canções de Belchior:

É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE/NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE

Belchior faz a crítica ao Tropicalismo, mas foi este que abriu as portas por onde passaram os compositores brasileiros projetados ali no anos 1970. Como o próprio Belchior. Em 1976, Caetano Veloso, de antigo compositor, não tinha absolutamente nada.

Toco nesse assunto porque ainda encontro ouvintes que não sabem a quem Belchior se refere na letra da canção.

Mas tenho a convicção de que, ainda que injusta, a crítica aos tropicalistas nunca maculou seu trabalho.

Afinal, Belchior é o cara que fez Como Nossos Pais, Paralelas, Comentário a Respeito de John, Tudo Outra Vez.

A reação à morte do artista confirma a permanência das suas canções. E, sobretudo, a beleza e a força dos seus versos.