Terra em Transe é nosso maior filme político. Quem quer vê-lo?

Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!

A fala do personagem de Jardel Filho ecoa há 50 anos!

Para mim, o nosso maior e mais instigante filme político é o agora cinquentenário Terra em Transe.

O Brasil continua muito parecido com o Eldorado de Glauber Rocha.

Unidos em Glauber, o gênio do construtor e o mito do demolidor gestaram um filme que fala das nossas questões cruciais. Falava em 1967. Continua falando agora, meio século depois.

Esquerda, direita, populismo, messianismo, o papel dos intelectuais, o povo, a desigualdade, o autoritarismo, o nosso destino enquanto Nação. O que quisermos mais.

Terra em Transe, se tudo isso fosse pouco, ainda é absolutamente devastador como delírio estético. Não é à toa que tem a admiração de Martin Scorsese.

O problema é que, para muitos, o filme de Glauber Rocha é tosco. Hermético. Incompreensível.

Quase ninguém quer enfrentá-lo.

Mas o problema pode ser o empobrecimento intelectual das nossas plateias. A ausência de uma crítica como a que se tinha na época em que o filme foi lançado. A falta de um ambiente propício a esse tipo de cinema.

Vejam o trailer.

Em 2001, tentei reunir amigos para uma sessão caseira de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Achei que seria o máximo ver o filme de Stanley Kubrick em pleno ano de 2001. Um deles me disse assim: não passaremos da sequência dos macacos. Ninguém topou.

Que tal, então, vermos Terra em Transe agora, com o Brasil mergulhado num dos seus grandes impasses políticos?

Acho difícil que alguém queira nesses tempos de tanta superficialidade!

Jornal traz capa dos Beatles para crise política brasileira

O Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o disco mais importante dos Beatles, vai completar 50 anos.

Nesta quarta-feira (24), o jornal Estado de Minas recriou, em sua primeira página, a capa do álbum.

Trouxe para a atual crise política brasileira.

Uma delícia para os fãs do quarteto!

As redes sociais não são a vida real, diz Michael Haneke

As redes sociais não são a vida real, disse o cineasta austríaco Michael Haneke.

Com o filme Happy End, o austríaco disputa, no Festival de Cannes, a terceira Palma de Ouro de sua carreira.

Interessante a fala de Haneke, publicada em El País:

O mundo mudou muitíssimo nos últimos 20 anos. Submergiu em águas turbulentas. Não se pode descrever o mundo atual sem as rede sociais. As redes sociais não são a vida real. Sua superficialidade marca as relações atuais.

Michael Haneke ganhou a Palma de Ouro duas vezes: com A Fita Branca e com Amor.

Com Happy End, ele participa da edição de número 70 do Festival de Cannes.

Moore! Roger Moore!

Morreu o ator Roger Moore. Aos 89 anos, travou uma breve luta contra o câncer, informam as agências.

Moore se notabilizou no papel de James Bond, o agente 007.

Teve a difícil tarefa de substituir Sean Connery, o primeiro e o melhor de todos. O eterno Bond!

Cumpriu bem. Foi o segundo melhor da franquia.

Fez sete filmes. Quando deixou o papel, já tinha quase 60 anos.

Era Sir Roger Moore. Marcou uma época.

Fecho com Paul McCartney: Live and Let Die.

Aécio, a memória de Tancredo e o outro nome de Minas

Tancredo (com Jango ao seu lado) sobre o caixão de Vargas. Mais tarde, seria Tancredo sobre o caixão de Jango coberto pela bandeira da anistia.

São cenas da História do Brasil que a banalização de tudo está apagando. Deletando da memória. Ou nem ao menos inserindo na memória.

Tancredo e Ulysses. Artífices (como tantos outros) da redemocratização. Personagens que, na longa noite brasileira, enxergaram o amanhecer. Como diziam as protest songs da época.

Liberdade é o outro nome de Minas!

Bradou Tancredo, da sacada do Palácio da Liberdade!

Os netos estavam por perto. Um rapaz chamado Aécio. Uma moça chamada Andrea.

Andrea chegava ao Rio Centro, naquela noite de 1981, quando a explosão dentro de um Puma evitou um ato de terror contra os que sonhavam com a liberdade.

Aécio, na agonia de Tancredo, ouviu do avô: “eu não merecia isto”.

Não faz tanto tempo que vimos essas cenas. Hoje, vemos garotos e garotas defendendo a volta dos militares (não sabem o que dizem!) num Brasil que nos deixa perplexos!

Aécio (voltando a Aécio) não rasgou sua biografia. Perdeu a oportunidade de ter uma biografia!

E fez muito pior: não foi justo com a memória do avô. Com a memória de um tempo.

Dr. Tancredo – um conservador que lutou por nossas liberdades – não merecia isto!

Stones, Zappa, Zé. “Sgt. Pepper” inspirou outras capas

O agora quase cinquentenário Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, tem algo além da música extraordinária contida em suas 13 faixas: a capa do disco.

Sim! A capa do Pepper!

Tantas vezes homenageada, imitada, como registro muito brevemente aqui na coluna.

Primeiro, a capa original. Cheia de detalhes. E interpretações.

Seguimos com We’re Only in It for the Money, de Frank Zappa.

E Nação Nordestina, de Zé Ramalho.

E Their Satanic Majesties Request, dos Rolling Stones.

 

“Sgt. Pepper”, o “Cidadão Kane” do rock, chega aos 50 anos!

Estamos a poucos dias dos 50 anos do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Dizer que é o disco mais importante dos Beatles é pouco.

Chamá-lo de o disco mais importante do rock lhe faz justiça.

Por isso, a comparação com o filme de Orson Welles aí no título. Cidadão Kane é o filme mais importante do cinema. É quase uma unanimidade.

Quando o Sgt. Pepper foi lançado, eu tinha oito anos e acabara de ver os Beatles no cinema em A Hard Day’s Night e Help!.

Nos dois filmes de Richard Lester, a imagem deles era aquela ainda ingênua que conquistara o mundo em 1964 como irresistível fenômeno pop.

No Pepper, tínhamos coisas que eu não conseguia entender aos oito anos. Daí, tenho a lembrança de que o disco me soava estranho e enigmático quando o conheci.

Sgt. Pepper remete ao status que a segunda geração do rock deu ao gênero. Esse status começa com Bob Dylan, em 1962, um pouco antes do surgimento dos Beatles.

Nos primeiros tempos, os Beatles parecem ingênuos demais para dar continuidade à linha evolutiva do rock.

Mas amadureceram rapidamente, guiados (ou traduzidos, se quisermos enfatizar o talento dos rapazes) pelo maestro George Martin.

O Sgt. Pepper – após os passos dados no Rubber Soul e, sobretudo, no Revolver – é a confirmação desse amadurecimento do quarteto. E do amadurecimento do próprio rock.

O rock será o que fizermos dele – disse John Lennon.

O disco agora cinquentenário assegura que sim!

(Voltarei ao Pepper em outros textos aqui na coluna)

A morte de Paulo Paiva, Jaguaribe e a música de João Pessoa

O domingo (21) me trouxe a triste notícia da morte do músico Paulo Paiva.

Paulo, irmão de outro músico, Babi.

Paulo e Babi, gente de um tempo que não existe mais. Tempo passado de Jaguaribe e da música de João Pessoa.

A casa ficava na avenida Monsenhor Almeida (antiga Minas Gerais), perto da esquina com a Vasco da Gama. Pai, mãe, dois filhos, duas filhas. Os homens – Paulo e Babi – eram músicos.

A gente chegava lá à tarde. Ouvia Thick as a Brick. Ou Never a Dull Moment. Eles pegavam os violões. Tocavam e cantavam While My Guitar Gently Weeps. Na performance, informal mas impecável, exibiam toda a sensibilidade e talento.

O rapaz que estava hospedado na casa simples da família Paiva era Carlinhos. Às vezes se juntava à sessão. Passava uma chuva em João Pessoa. Baterista. Tocava jazz. Muitos anos depois, o vimos na banda de Djavan. Ou Maria Bethânia. Ou Caetano Veloso. Virou Carlos Bala!

Paulo (como Babi) está associado a essas lembranças. A um tempo em que Jaguaribe era um bairro de muitos artistas. A uma João Pessoa com uma cena musical pulsante. Dos conjuntos de baile ao underground.

Vi os dois tocando muitas vezes. Fazendo solo, acompanhando colegas, em bailes, na noite.

Paulo, que agora se foi. E Babi. Não consigo separar um do outro.

Não eram só irmãos biológicos.

Eram irmãos na música.

Cão no velório de Kid Vinil é o oposto do Brasil estarrecedor

Vivemos dias inacreditavelmente estarrecedores!

Tempos de banalização do que não deveria ser banal!

Eis que, neste sábado (20), uma imagem (foto de Reinaldo Canato) nos surpreende e comove em meio ao terremoto da semana.

O cão Golden Retriever de Kid Vinil é levado ao velório do artista, em São Paulo.

O que há na imagem não carece de comentário.

Só de olhares sensíveis.

Roberto Carlos é muito bom na voz de Teresa Cristina!

Estou entre os que defendem a tese de que o melhor intérprete de Roberto Carlos é ele mesmo. Tendo a identificar um certo preconceito quando vejo alguém dizendo que só gosta das canções dele com outras vozes. Parece argumento de quem ouve apenas o que se convencionou chamar de MPB, território no qual, desde os anos 60 do século passado, o Rei não caberia. Bobagem. Com sua voz nasal e pouco extensa, Roberto Carlos é um grande cantor, um dos nossos mais expressivos. E o seu repertório ainda não encontrou intérprete mais adequado do que ele. O que não nos impede de reconhecer que também é bom ouvi-lo com cantores e cantoras que o gravaram.

Na segunda metade da década de 1970, no auge da atuação das patrulhas ideológicas, Nara Leão dedicou um disco inteiro às canções da dupla Roberto & Erasmo Carlos. E o fez como se estivesse gravando um LP de Bossa Nova. Foi muito criticada, mas, guiada certamente por sua elegância, não deu a mínima para o que disseram seus críticos. Na primeira metade da década de 1990, foi a vez de Maria Bethânia, que não surpreendeu ninguém quando lançou o CD “As Canções que Você Fez Pra Mim”. Afinal, foi ela que, antes do Tropicalismo, disse ao mano Caetano Veloso que prestasse atenção na vitalidade da Jovem Guarda, o programa de televisão de Roberto Carlos.

Os intérpretes do Rei me ocorrem agora que estou reouvindo o CD “Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos”. Meu primeiro contato com a cantora foi quando ela gravou, ao lado do grupo Semente, um songbook de Paulinho da Viola. Trabalho sensível que a projetou entre as cantoras brasileiras da sua geração. Projetou, mas a manteve presa ao universo do samba, o que não era necessariamente positivo para a sua carreira. Mais tarde, os discos de Teresa Cristina revelavam que ela sentia outras coisas que não eram o samba. Este, leva o desejo às últimas consequências ao trazer a sambista cantando Roberto Carlos acompanhada por uma banda de rock.

O CD remete a uma coincidência muito feliz. Em seus últimos últimos discos de carreira, Erasmo Carlos teve ao seu lado jovens músicos da cena indie do Rio de Janeiro. Como ocorre com Teresa Cristina, que se junta ao grupo Os Outros para esta releitura de Roberto Carlos. As razões dela para debruçar-se sobre este repertório devem ser as mesmas dos demais (e não são poucos) que já gravaram o Rei: todos, no fundo, o adoram. Como milhões de brasileiros que há décadas ouvem seus discos e veem seus shows. O resultado é bom até para quem prefere RC com RC.

O repertório de 14 faixas não é óbvio. Mescla lado A e lado B em quase 60 minutos de pura satisfação. Tem Roberto & Erasmo várias vezes, tem Roberto sozinho (“Quando”) e também músicas de outros autores que se incorporaram ao cancioneiro do artista (“Como 2 e 2”, “O Moço Velho”, “Não Serve Pra Mim”). Os arranjos são fortes e vibrantes e têm uma permanente “pegada” roqueira. O disco atualiza Roberto Carlos sem perder de vista a fidelidade aos originais. Nem o que existe de melancólico nas suas canções.