Fernando Gabeira não merece ser chamado de coxinha!

Petralha é uma palavra ofensiva, de cunho pejorativo.

Coxinha é uma palavra ofensiva, de cunho pejorativo.

Não chamo ninguém de petralha.

Não chamo ninguém de coxinha.

Não quero incorrer no erro de fazer esse tipo de julgamento.

Estou tocando nesse assunto por causa de uma descoberta recente: o jornalista Fernando Gabeira é chamado de coxinha!

Fiquei tão surpreso que andei perguntando a várias pessoas e constatei que muitos o classificam assim. Muitos mesmo!

Na foto, Gabeira (marcado pelo círculo vermelho) aparece ao lado dos outros presos políticos trocados pelo embaixador alemão.

Antes, o jovem jornalista caíra na clandestinidade e participara do sequestro do embaixador americano, também trocado por um grupo de presos políticos.

Gabeira levou um tiro, foi preso, torturado.

Gabeira viveu exilado por quase uma década. Voltou com a anistia. Reviu posturas, fez necessárias autocríticas, reciclou-se, trouxe para o Brasil que caminhava para a redemocratização temas que enriqueceram a sua experiência humana nos lugares por onde passou.

A síntese está nos três livros que lançou ali na virada dos 70 para os 80: O Que É Isso, Companheiro?, O Crepúsculo do Macho e Entradas e Bandeiras. Quantos dos seus críticos leram a trilogia?

O Gabeira de tanga que chocou tanta gente (à esquerda e à direita) não rompeu necessariamente com a esquerda. Mas inseriu-se numa nova esquerda. Sim! Que falava de ecologia, de homoafetividade, de maconha, de empoderamento das mulheres. Temas que – sabemos – não interessavam e ainda não interessam aos velhos stalinistas.

Sua militância, no Brasil redemocratizado, se deu na esquerda. No PT, no PV. Dentro e fora do parlamento.

Hoje, Gabeira é um homem velho. Tem 76 anos. Continua atuando como jornalista. Escreve artigos, faz televisão.

Está decepcionado com a esquerda. E é legítimo que esteja.

As pessoas não precisam concordar com ele. Mas podem respeitá-lo.

Gabeira não merece ser chamado de coxinha!

Coxinha – lembro – é ofensivo, é pejorativo!

Não combina com a trajetória dele.

Os que assim o classificam fizeram algo pelos destinos do Brasil?

Certo ou errado, Gabeira fez. E atuou no limite. Pondo em risco a própria vida.

Chuck Berry fields forever!

O disco de inéditas que Chuck Berry gravou nos meses que antecederam sua morte será lançado em junho.

Desde 1979 que ele não lançava material novo.

Nem precisava!

Chuck Berry é um fundador. O que ele produziu e deixou como extraordinário legado está concentrado nos anos iniciais de sua longa carreira. O resto foi manutenção.

Em Berry, temos uns 20 hits absolutamente imbatíveis e antológicos. Neles, há as letras com os  “comentários sociais” para os quais John Lennon chamava atenção. Na guitarra, foi um inventor e, com ela, compôs uma introdução que se repete em vários números e se confunde com o próprio rock. Ele criou um modo de tocar o instrumento, influenciando grandes músicos que surgiriam nos anos seguintes, sobretudo na década de 1960. E ainda há que se destacar a liberdade e a vitalidade de sua performance no palco.

O resumo de tudo isso é que Chuck Berry foi parte fundamental da invenção do rock.

Beatles?

Rolling Stones?

Não seriam o que foram sem ele!

A cultura pop o reverenciou em dois momentos marcantes do cinema. Nos anos 1980, sua Johnny B. Goode reapareceu numa sequência inesquecível de De Volta Para o Futuro.

Mais tarde, Quentin Tarantino resgatou You Never Can Tell em Pulp Fiction, na cena em que Uma Thurman e John Travolta participam de um concurso de dança.

Antes, na década de 1970, ao difundir sua adesão ao rock, Gilberto Gil foi buscar na Strawberry Fields Forever dos Beatles o título do seu tributo a Berry e ao rock’n’ roll.

E bradou:

Chuck Berry fields forever! 

Elton John já era muito bom antes mesmo de fazer sucesso

Elton John, que acabou de fazer 70 anos, está em turnê pelo Brasil. Volta sempre porque tem público fiel por aqui desde a primeira metade da década de 1970.

Ouvi o artista antes da fama, quando era praticamente desconhecido.

Três discos me apresentaram à música de Elton John e seu parceiro Bernie Taupin: Elton John (de capa preta, que começa com Your Song), Tumbleweed Connection e Madman Across the Water. Saíram no Brasil no comecinho dos anos 1970 por um pequeno selo (Importa Som, quem lembra?).

Já continham muito do que encontraríamos mais tarde no artista de grande sucesso popular: a bela voz, o piano inconfundível, as inspiradas melodias, a mistura de rock + soul + country + gospel e toda uma gama de música pop. Somava-se a tudo isso o arranjador Paul Buckmaster, jovem violoncelista que acrescentou sobretudo cordas às canções do novo compositor.

Faltava o sucesso.

No Brasil, o primeiro hit foi Rocket Man. Depois, Crocodile Rock e Daniel. Em seguida, Goodbye Yellow Brick Road. E uma lista que não tem fim.

O sucesso fez mal a Elton John? Difícil dizer. Talvez tenha banalizado as suas canções. Ou o tenha levado a sobrepor quantidade a qualidade. Mas é óbvio que não lhe roubou o talento.

A carreira longa e a discografia extensa conduzem o artista a altos e baixos. Muitas vezes, melhor do que um disco novo é um show retrospectivo, como os que Elton John costuma fazer em todo o mundo.

Mas o bom é que ele sobreviveu e está aí, aos 70, seduzindo o público com suas belas baladas.

Quando decido reouvi-lo, recorro sempre aos discos da juventude. Aqueles que antecederam o sucesso e os que vieram no início da fama. É a fase que ficou conhecida como The Classic Years.

A presença marcante de canções daquela época nos shows do artista certamente indica que o melhor Elton John é o jovem Elton John!

Luiz Melodia faz quimioterapia em hospital no Rio

O cantor e compositor Luiz Melodia está hospitalizado no Rio de Janeiro para fazer quimioterapia. Ele foi diagnosticado há alguns meses com um mieloma múltiplo, que é um tipo de câncer no sangue.

As reações ao tratamento levaram os médicos a manter o artista numa unidade de terapia intensiva.

Melodia tem mais de 40 anos de carreira. Ele se revelou em 1973, cantando Pérola Negra. Gravado por grandes intérpretes como Maria Bethânia e Gal Costa, também se notabilizou como cantor que sai do trabalho autoral para gravar dos sambas tradicionais a Cazuza.

Luiz Melodia está com 66 anos.

The Voice Kids termina com todos juntos cantando “Inútil”

Thomas Machado, o gauchinho de nove anos, foi o vencedor do The Voice Kids, neste domingo (02). Ele é do time de Ivete Sangalo.

Thomas disputou com Juan Carlos (time de Leo) e Valentina Francisco (time de Carlinhos Brown).

Como disse ontem aqui na coluna, não tenho o hábito de ver o programa. Vi casualmente e gostei da garota Valentina Francisco, que se classificou para a final cantando Maybe, uma balada do repertório de Janis Joplin.

Os dois meninos e a menina estavam naturalmente tensos na final, com performances inferiores ao talento que têm.

Prefiro a performance vocal de Valentina, mas não custa reconhecer que o garotinho Thomas tinha tudo para levar o prêmio. Pelo conjunto do que mostrou na disputa.

No final, em clima de festa, todos cantaram Inútil, o rock do Ultraje a Rigor.

A letra (“a gente não sabemos escolher presidente”, etc.) contrasta com o caráter educativo do programa.

Ficou parecendo uma leve transgressão.

Garota chega à final do The Voice Kids cantando Janis Joplin!

Não tenho o hábito de ver The Voice Kids.

Vi casualmente no domingo passado e gostei muito da garota que cantou Maybe, do repertório de Janis Joplin.

Vamos ver o vídeo de Janis? É curtinho!

O nome da garota é Valentina Francisco. Ela tem 12 anos e está na final de hoje (02), ao lado de dois garotos.

Podemos ver o vídeo dela? É ainda mais curto!

Como não costumo ver o programa, tive várias surpresas. A escolha das canções, os arranjos, a performance dos candidatos, a conversa dos três artistas que avaliam e orientam os participantes. Gostei do que vi. Ao contrário do que dizem, sempre, os críticos da Globo.

Mas gostei mesmo de Valentina cantando Janis.

Pois é! Janis Joplin atravessa o tempo com a força da sua música!

Faz 50 anos que ela surgiu para uma carreira meteórica! E, meio século mais tarde, a menina de 12 anos que quer vencer o The Voice Kids nos aparece cantando quem? Janis Joplin!

Valentina Francisco é do time de Carlinhos Brown. Brown é uma figura, artista e cidadão! Quero ver o que vão aprontar na final!

No dia da mentira, que tal um pouco de verdade?

Segunda-feira passada (27), li no Facebook: Supremo derruba a terceirização!

Vários amigos compartilharam. A informação estava em blogs nos quais imagino que eles confiam. Ou não compartilhariam.

Chequei na grande imprensa. Ou nos veículos do PIG, como diriam os meus amigos.

Folha, Estado, Veja, G1! Nada! Absolutamente nada!

Ora, uma notícia como essa não seria ignorada por todos esses veículos!

Vi logo que se tratava de uma “não notícia” e fui dormir.

Quis contar essa historinha porque hoje é primeiro de abril, o dia da mentira.

E termino com o grito de John Lennon: dê-me alguma verdade!

Continua valendo!

Chamei Dom Marcelo para ir ao cinema. E ele foi

Morreu Dom Marcelo Carvalheira.

Fui me despedir dele na Catedral e lembrei de tanta coisa.

Da bondade, da ternura, da simplicidade, da firmeza, da indignação.

Do evangelizador e do homem engajado nas lutas sociais e políticas do seu tempo.

Lembrei também de amenidades.

Uma delas: o dia em que lhe falei, no corredor da TV Cabo Branco, que tinha um imitador, o humorista Cristovam Tadeu. E que precisava ver a imitação.

A outra: em março de 2004, a tarde em que o levamos ao cinema para ver A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Dom Marcelo como um dos convidados para uma exibição que seria registrada pela TV.

Que beleza de sessão!

O controvertido filme sendo exibido para um bispo católico (Dom Marcelo), um pastor evangélico (Estevam Fernandes), um ateu (WJ Solha) e um judeu (Fernando Pereira). Bom, Fernando não é judeu, mas é quase como se fosse!

As conversas antes da sessão, o tempo na sala escura, as opiniões após a projeção. Ecumenismo, erudição, diversidade, tolerância nas diferenças.

Para mim, foi inesquecível.

Olhei mais para o encontro daqueles quatro homens do que para o filme!