Os dias eram assim! O triste é que, hoje, não há festa a fazer!

Os Dias Eram Assim.

É a nova série da Globo. Estreia nesta segunda-feira (17).

O título é um verso da canção Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins e Vítor Martins.

Foi magistralmente gravada por Elis Regina.

Se pensarmos nos compositores que se posicionaram contra a ditadura (Chico Buarque, Gonzaguinha, João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vítor Martins, Milton Nascimento e seus parceiros) e escolhermos as canções engajadas que compuseram sobretudo ao longo da década de 1970, Aos Nossos Filhos é uma das mais fortes.

É uma canção de ninar. Nas três primeiras estrofes, a letra fala do presente (o momento em que foi escrita) como se ele já fosse passado. Perdoem por isso, perdoem por aquilo, os dias eram assim. Quem ouviu na época sabe o efeito que tinha!

As três últimas estrofes falam do futuro como se o autor (ou a intérprete) não fosse mais estar vivo. Quando ocorrer isso, quando ocorrer aquilo, façam a festa por mim.

A morte prematura de Elis Regina, intérprete definitiva da canção, acabou conferindo mais beleza e melancolia à letra de Vítor Martins.

Nos últimos tempos, sempre que ouço Aos Nossos Filhos, o “façam a festa por mim” cola nos meus ouvidos.

O verso vem sempre acompanhado por uma pergunta:

Que festa podemos fazer?

Dylan, um homem velho e sem voz em áreas profundas da América

Estou ouvindo Triplicate, o novo trabalho de Bob Dylan.

São três discos dedicados aos standards da música americana.

Cada um tem um título: ‘Til the Sun Goes DownDevil Dolls e Comin’ Home Late.

Antes, reproduzo algo que há algum tempo escrevi sobre o artista e suas mudanças:

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas.

Triplicate é belamente estranho! Ou estranhamente belo!

Alguém disse que é uma esquisitice de Dylan! É muito mais!

Traduzo assim: um homem velho, com a voz devastada, num mergulho no cancioneiro tradicional do seu país. Em busca das matrizes, das fontes, das origens, da juventude, do tempo perdido. Da tradição como contraponto ao novo que ele representou e que o fez, agora, merecer o Nobel de literatura.

No começo, há mais de meio século, Dylan sabia que sua música rompia com essa tradição que ele deixou para, ao seu modo, resgatar na velhice. Já o fez nos dois discos anteriores (Shadows in the Night e Fallen Angels) e ampliou o projeto nesse Triplicate, primeiro álbum triplo de sua carreira, acrescentando instrumentos de sopro à sua banda.

São discos de grandes canções que ouvimos com grandes vozes (Sinatra, etc.). Dylan perdeu sua condição vocal há muitos anos, mas confere uma nova beleza a esse repertório. A sua releitura é densa, melancólica, verdadeira. E remete a deep areas da América.

Triplicate (melhor do que Shadows in the Night e Fallen Angels) contém ruptura e reconciliação. Ruptura com o autor em sua permanente inquietação. Reconciliação com o velho, com o american songbook.

Por si só, a imensa importância de Bob Dylan já tornaria esse projeto imensamente importante. Ao negar a figura do grande crooner, ele nos oferece um irresistível crooner pelo avesso!

Como dizem por aí, é Dylan sendo Dylan!

Nome de John Lennon é uma homenagem a Winston Churchill

Na quinta-feira (13), assisti a uma palestra do professor Felipe Negreiros sobre Winston Churchill. Aula de história sobre o homem que conduziu o Reino Unido durante a II Guerra. Churchill (e seu tempo) traduzido por um estudioso.

Tomo a palestra de Felipe Negreiros como “gancho” para falar duas ou três coisas sobre Churchill, Orson Welles, Peter Lorre e John Lennon! Mas o que há de comum entre eles?

Orson Welles. Pode não ter sido um gênio, mas realizou um dos maiores filmes do mundo. Para tanta gente, o maior! O diretor de Cidadão Kane lembra Churchill! Ou não?

Peter Lorre. O grande ator que vimos em M, Relíquia Macabra e Casablanca, também tem alguma semelhança fisionômica com Churchill.

Quando vejo Churchill, sempre lembro de Welles e Lorre. Mas, sobretudo, de John Lennon. Não por causa do dedo em V, que o político inglês usava, mas por causa do nome. O beatle foi batizado como John Winston Lennon. A guerra mal começara quando ele nasceu, em outubro de 1940, mas Churchill já conquistara a admiração dos britânicos de tal modo que muitas crianças nascidas naquela época tiveram o seu Winston no nome.

Muitos anos mais tarde, no casamento com Yoko Ono, Lennon mudou o nome. Passou a se chamar John Ono Lennon. E ela, Yoko Ono Lennon.

Odebrecht bancou disco de Tom Jobim, mas não era segredo!

Vocês sabiam que a Odebrecht pagou para Tom Jobim gravar um dos seus melhores discos?

O álbum duplo foi distribuído como brinde no Natal de 1987 e só chegou ao público em 1995, após a morte do artista, com o título de Tom Jobim Inédito.

Vejam a capa. Em seguida, falo do disco.

No final dos anos 1980 e início dos 1990, os fãs incondicionais de Antônio Carlos Jobim sofriam porque não podiam ter em sua discoteca esse álbum duplo. A distribuição, gratuita, ficara restrita aos amigos e clientes da Odebrecht. O disco virou uma raridade até 1995, ano seguinte à morte de Tom, quando, afinal, foi comercializado. Primeiro, em CD duplo da BMG Ariola. Depois, numa edição simples (mas integral), até hoje disponível no catálogo da gravadora Biscoito Fino.

O jornalista Sérgio Cabral (pai do ex-governador) conta na sua biografia de Tom Jobim que a iniciativa partiu da museóloga Vera Alencar, que fizera algo semelhante com Dorival Caymmi em 1985. O brinde era da CBPO (Companhia Brasileira de Projetos e Obras), subsidiária da Odebrecht.

“O disco, produzido por Jairo Severiano, ficou tão bom que não estará muito longe da verdade quem disser que é o melhor disco de Tom Jobim”, afirma Sérgio Cabral.

As gravações de Tom ao piano e da sua voz foram feitas num estúdio improvisado na casa do compositor.

Em 24 músicas, todas antigas, temos um irretocável retrato do maior compositor popular do Brasil. Com exceção de uma seresta de Villa-Lobos, todas são de sua autoria.

Tom Jobim Inédito, que celebrou os 60 anos do artista, é de um tempo em que ninguém imaginava a Odebrecht e a classe política como protagonistas desse espetáculo de promiscuidade do Brasil de 2017.

Beijos icônicos do cinema para celebrar o Dia do Beijo

Nesta quinta-feira (13) é o Dia do Beijo.

Para marcar a data, escolhi beijos famosos do cinema.

É uma escolha pessoal. Poderia ser outra. Faça a sua.

A UM PASSO DA ETERNIDADE

E O VENTO LEVOU

A DAMA E O VAGABUNDO

GHOST

AZUL É A COR MAIS QUENTE

A DOCE VIDA

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

ET

CIDADE DOS SONHOS

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

 

O que (quase) todo artista quer mesmo é fazer sucesso!

Sei de muita gente que abomina o artista quando este faz sucesso, quando se torna realmente popular. Abomina ao ponto de nunca mais ouvi-lo.

Não acho natural. O natural é que a gente torça pelo êxito do outro. O natural é que todos almejem o êxito.

O que (quase) todo artista quer mesmo é fazer sucesso, é ser reconhecido. Não há nada de ilegítimo nisso.

Mas há caminhos e caminhos para o sucesso.

O artista não é uma coisa. Ele tem seu universo criativo, o mundo onde cresceu e atua. É bom que consiga manter alguma fidelidade à origem.

Os grandes artistas fizeram assim. O Brasil é pródigo.

De Gonzaga a Caymmi. De Tom a Chico. De Caetano a Milton.

As trajetórias são admiráveis. Têm uma integridade. Têm um esforço pela manutenção de princípios estéticos. Têm as necessárias ousadias. E uma independência criativa no diálogo com o mercado e suas estratégias.

Ainda conservo a crença no sucesso mais espontâneo do que fabricado. Permite que o artista seja ele mesmo, que não seja um mero objeto nas mãos do marketing, do produtor, dos caras da gravadora.

Vejam que carreira admirável a de Marisa Monte. Tem (no começo) um produtor e seu dedo? Tem, sim! Nelson Motta! Mas tem um caminho que a fez grande e original. E permitiu uma admirável independência. Marisa soube se consolidar. Faz sucesso, é reconhecida, grava pouco. Parece sempre que grava o que quer. Degusta o êxito, some, reaparece.

O Brasil é um país de grandes vozes femininas. Dalva, Ângela, Maysa, Elizeth, Elis, Gal, Bethânia, Clara! Marisa já é de outro tempo. Como Cássia Eller, de trajetória curta e tão marcante.

Ao sucesso!

Sim! Ao sucesso!

Mas o sucesso que não destrua o artista! Nem venha a transformá-lo no que ele não é! Muito menos em refém de predadores!

Sérgio Sampaio fez música para Roberto Carlos sem poupar o ídolo

Se estivesse vivo, o compositor capixaba Sérgio Sampaio faria 70 anos nesta quinta-feira (13). Morreu em 1994, aos 47 anos, sem conseguir manter uma carreira estável que fosse proporcional ao seu talento.

Há o grande disco de estreia, em 1973, puxado pelo êxito comercial da canção Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua. E há um (bom) segundo disco cujo título, Tem que Acontecer, apontava para as dificuldades que o artista tinha para se manter no mercado fonográfico.

Sérgio Sampaio é da geração que conquistou dimensão nacional na década de 1970, depois do Tropicalismo. Muito ligado a Raul Seixas, dividiu com o baiano (mais Edy Star e Miriam Batucada), antes da fama, o projeto coletivo Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10.

Fã de Roberto Carlos (e, como o Rei, filho de Cachoeiro do Itapemirim), Sérgio Sampaio compôs e gravou um blues dedicado ao ídolo. Mas Meu Pobre Blues acaba por não poupar o homenageado.

Vamos ouvir?

“A Terra é azul”. Frase de Gagarin está repleta de poesia!

A Terra é azul. Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin pronunciou a frase ao se transformar no primeiro homem que orbitou nosso planeta. Eu tinha dois anos, claro que não tenho nenhuma lembrança do feito, mas cresci ouvindo meu pai falar da sua importância científica, do seu significado histórico e da força poética da frase. A Terra é azul – a simplicidade do comentário de Gagarin não destoa da dimensão do seu voo pioneiro. Antes, parece a mais perfeita tradução do impacto que aquela visão provocou. O planeta visto de longe, como ninguém o havia observado antes.

Yuri Gagarin foi um dos heróis da minha infância. Talvez o maior deles, numa época em que sonhávamos com a conquista do espaço. Os soviéticos largaram na frente. Lançaram o primeiro satélite artificial (o Sputnik) em outubro de 1957. Colocaram animais em órbita da Terra (a cadelinha Laika foi e não voltou) e, por fim, um homem. Os Estados Unidos demoraram um pouco mais, mas deram passos semelhantes até transformar John Glenn no primeiro astronauta americano a voar em órbita da Terra.

Meu pai era comunista e, naturalmente, torcia pelos feitos soviéticos. Mas o amor à ciência nunca o afastou dos americanos. Tanto que rastreou satélites para um instituto que fornecia informações à NASA. Somente dois brasileiros participaram do programa de rastreamento: um padre em Minas Gerais e meu pai, que parava a rua onde morávamos, em Jaguaribe, para fazer suas anotações de altíssima precisão e dividir com nossos vizinhos a visão privilegiada: pontos luminosos que cruzavam o céu, como estrelas em movimento.

Guardo como uma relíquia o cronômetro suíço analógico que os americanos mandaram para que meu pai fizesse suas observações. O que a NASA queria era saber se os seus satélites artificiais cruzavam o céu de vários países no momento exato em que isto deveria ocorrer. Com a tecnologia da época, não havia outro modo de saber, a não ser espalhando observadores por todo o mundo. Como meu pai, voluntário instalado num posto de observação de madeira que ele construiu no fundo do quintal com o dinheiro do décimo terceiro salário.

O aniversário do voo de Gagarin me leva a esta viagem sentimental pela década de 1960. E me remete não só à sua frase, mas à que o americano Neil Armstrong pronunciou quando pisou o solo lunar pela primeira vez, em julho de 1969: um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade. Oito anos separam uma da outra. De certa forma, se a de Gagarin abre, a de Armstrong fecha a década de 1960. As duas podem fazer a síntese daquele tempo em que a Guerra Fria movia a corrida espacial.

Chuck Berry é enterrado com sua guitarra Gibson

Chuck Berry foi enterrado em St. Louis. Um dos inventores do rock, ele morreu aos 90 anos no dia 18 de março, mas só foi enterrado 22 dias depois.

Berry levou para o túmulo a sua guitarra Gibson.

Lucy Alves! Polêmica? Que polêmica?

Escrevi meia dúzia de palavras sobre Caçadora, o single de Lucy Alves. Falei do grande talento dela. Disse que torço pelo seu sucesso. Mas deixei claro que não gostei do novo trabalho. Apenas isso. Não fui deselegante, nem agressivo. Agi dentro das regras do meu ofício.

Gerou polêmica nas redes sociais! E comentários agressivos de gente que fala mal mas continua buscando espaço na mídia!

Que bobagem!

Como estamos idiotizados pelas redes sociais!

Faço alguns registros:

Um dos muitos textos que li dizia que o crítico não viu o beijo lésbico. Claro que eu vi! Sabem porque não me referi a ele? Porque, para mim, todos os beijos são iguais. Homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher. Tanto faz!

Alguém disse que a letra empodera as mulheres. Que é feminista. Será? Vamos reduzir o feminismo de tantas e imprescindíveis lutas a isso que Lucy está cantando?

Uma graça ver o underground de boutique da cena cultural pessoense defendendo a indústria do disco e seus produtos!

Nazicult? O que é nazicult? Quem é nazicult?

Paraibanidade? Nenhum sentimento de paraibanidade me obriga a gostar de tudo o que é produzido na Paraíba!

Direito de fazer? Lucy Alves tem todo! Não vou botar o disco dela no meu acervo simplesmente porque não vou ouvir, mas espero, sinceramente, que faça sucesso!

E que ela possa fazer coisas imensamente melhores. À altura do seu extraordinário talento.