Ella Fitzgerald nasceu há 100 anos

Nesta terça-feira (25), faz 100 anos que nasceu Ella Fitzgerald.

Quando penso em cantoras de jazz, sempre me ocorrem dois nomes: Billie Holiday e Ella Fitzgerald. São as maiores. Às vezes, fico com Billie. Às vezes, fico com Ella. É um dilema sem solução.

Mas o assunto de hoje é Ella.

Superb! Como dizem os americanos.

Técnica absurda! Emoção à flor da pele! A voz como um instrumento! Raro domínio do scat e, naturalmente, da improvisação jazzística!

Grandes discos de estúdio! Grandes discos ao vivo! Memoráveis parcerias com outros gigantes do jazz (Ellington, Armstrong, Peterson)!

E, como se não bastasse, ainda tem a série de songbooks gerada pela sensibilidade do produtor Norman Granz. Os maiores compositores americanos (Gershwin, Porter, Ellington, etc.) na voz de Ella, com orquestrações impecáveis!

Ella Fitzgerald fazendo o songbook de Cole Porter! É como um limite de qualidade para a música popular! Difícil ultrapassá-lo!

Seguem cinco indicações para ouvir Ella.

Começo por Ella Fitzgerald Sings The Cole Porter Songbook.

Ella & Louis. Afeto, emoção, rara beleza no encontro com Armstrong.

Porgy & Bess. A ópera de George Gershwin transportada para o universo do jazz. Novamente, Ella e Louis.

Mack the Knife – Ella in Berlin. Ella ao vivo em Berlim. Uma voz, um quarteto, uma performance avassaladora!

Ella Abraça Jobim. Muita gente não gosta. Há quem diga que o próprio homenageado não gostava. Mas é Ella cantando Tom!

Nomes dão vida à bandinha de jazz

Para Márcio Roberto

Meu irmão tinha uma bandinha de jazz em cima da estante. Cinco figuras esculpidas provavelmente na China, algo impensável nos tempos do velho Mao. Um quarteto a acompanhar uma cantora. Piano, contrabaixo, bateria e sax. O jeito de caricatura dos músicos era nítido. O caráter kitsch, indisfarçável. Mas havia algo charmoso. Sempre os quis para colocar junto dos meus discos.

Quando vi a bandinha pela primeira vez, imaginei que a cantora era Ella Fitzgerald. Olhei para aquela figura com uns quinze centímetros de altura, vestido cor de goiaba, anel luminoso no dedo, e pensei em Ella numa arrebatadora performance ao vivo. Como no disco gravado em Berlim. A voz que tinha um traço infantil, a extraordinária capacidade de improvisar sobre a melodia das canções, um domínio raro do canto. Gosto dela incondicionalmente. Seja nos clássicos songbooks, nos discos de estúdio com as mais diversas formações ou nos registros ao vivo. Tudo na sua trajetória a coloca no topo, junto das melhores cantoras do mundo.

Para mim, o pianista da bandinha não poderia ser outro. Era Oscar Peterson. Os dedos mágicos correndo sobre as teclas do piano em velozes e inacreditáveis improvisações. Piano, contrabaixo e bateria. Um trio, nada mais. Do jeito que ouvi na adolescência, nas sessões dominicais na Praça da Pedra, quando fui apresentado ao jazz. Ou na casa de Fernando Aranha, que se inspirava em Peterson para tocar na noite pessoense, na primeira metade da década de 1970. Estrela de primeiríssima grandeza, o canadense Oscar Peterson também atuava como acompanhante. E é assim que vamos encontrá-lo em inúmeros discos, antológicos e indispensáveis, que Norman Granz produziu na Verve.

Se, na minha imaginação, era Oscar Peterson que acompanhava Ella Fitzgerald na bandinha, pensei que o contrabaixista e o baterista poderiam ser os músicos com os quais formou o trio que ouvimos em discos como “Night Train” ou “We Get Requests”. Ou, ainda, “West Side Story”, com a recriação das melodias fantásticas escritas por Leonard Bernstein. Ray Brown no contrabaixo e Ed Thigpen na bateria. Soberbos, precisos, parceiros perfeitos para o pianista. Também é incondicional meu amor por Peterson. Na Verve, mais tarde na Pablo, em carreira solo ou como acompanhante (mas não mero) de grandes estrelas do jazz. Até a despedida, numa noite inesquecível em Viena.

Faltou o saxofonista. Me vieram à cabeça dois nomes: Coleman Hawkins e Ben Webster. Achei que caberiam bem na bandinha. E que estariam à vontade ao lado de Peterson, Brown e Thigpen na tarefa de acompanhar Ella. Engraçado. Não quis escolher músicos revolucionários. Nem Charlie Parker, muito menos John Coltrane. Hawkins ou Webster – não cheguei a definir. Os dois produziriam sons que não nos privariam de ouvir os ruídos do próprio sopro.

Jairo morreu em setembro de 2007. Em junho, no dia do meu aniversário, fui visitá-lo no hospital. Ele me disse que tinha um presente: a bandinha de jazz. Fiquei embaraçado, tentei convencê-lo de que não era o caso, mas cedi à sua insistência. Aceitei o presente certo de que meu irmão já tinha a consciência da morte.

Show vai comemorar os 40 anos de “Refavela”

Um show vai comemorar os 40 anos do LP Refavela. Lançado em 1977, é um dos melhores discos de Gilberto Gil.

O projeto está sendo preparado por Bem, filho de Gil. O show reunirá músicos da geração de Bem e terá a participação do homenageado.

As apresentações deverão ocorrer no segundo semestre no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

 

Jerry Adriani era do bem. Como a sua música

Na infância, vi Jerry Adriani na televisão, ouvi no rádio. E fui ao cinema pelo menos duas vezes para vê-lo naqueles filmes que aproveitavam o sucesso dos astros da música popular. Essa Gatinha É Minha e A Grande Parada. Lembram? Um deles, se não estou enganado, era dirigido pelo ator Jece Valadão.

Na minha memória afetiva, o paulistano Jerry Adriani, que morreu neste domingo (23) aos 70 anos, evoca aquela época, a segunda metade da década de 1960. A ingenuidade e a vitalidade da Jovem Guarda e do que estava ao seu redor em contraponto ao Brasil mergulhado numa longa noite.

(Pausa para a foto: Jerry com Bethânia, Nara e Danuza)

Jerry, mesmo na juventude, soava como um cantor antigo. Era um astro do rock, mas tinha a voz empostada de tenor, como os cantores românticos da Itália. Como o próprio Elvis Presley, um dos seus ídolos. Batizado Jair, seu nome artístico traduzia a mistura: Jerry dos americanos, Adriani dos italianos.

Seu momento de maior êxito está ali, nos primeiros anos da carreira. Mas seu nome está ligado a uma figura fundamental do rock brasileiro que só se consolidaria nos anos 1970: Raul Seixas, que o acompanhou quando ainda era Raulzito. Jerry gravou Raul e foi produzido por este na velha CBS. Se quisermos ir mais longe, seu jeito de cantar ecoou no rock brasileiro da década de 1980, na grande semelhança que havia entre a sua voz e a de Renato Russo.

O sucesso avassalador passou, mas Jerry Adriani se manteve ativo e com um público fiel até o fim da vida. Amadureceu e envelheceu cantando bem. E, acertadamente, flertou com algumas coisas que não tinham nada a ver com o repertório que cantou nos anos 1960.

Estive com ele duas ou três vezes em conversas muito agradáveis. Um cara cordial, simples, que parecia despido de traços tão comuns no mundo da fama. Como costumam dizer, era do bem. Como a música que produziu para alegrar seus fãs. Dentro ou fora do estrelato.

Morre Jerry Adriani, um dos ídolos da Jovem Guarda

Morreu Jerry Adriani. Um dos ídolos da Jovem Guarda, o cantor tinha 70 anos.

Diagnosticado com câncer, ele estava hospitalizado no Rio de Janeiro.

Nessa foto, recente, Jerry Adriani mandava uma mensagem para os fãs, depois de ser hospitalizado com uma trombose. Em seguida, teve diagnosticado o câncer que o matou na tarde deste domingo (23).

Centenário de Severino Araújo não tem espaço no jornalismo cultural

Severino Araújo é um nome importante para a música da Paraíba?

Severino Araújo é um nome importante para a música brasileira?

A Orquestra Tabajara é importante para a história das orquestras populares brasileiras?

O centenário de Severino Araújo, neste domingo (23), deveria ser lembrado?

Antes, uma historinha. Não se surpreendam. Vou falar de Michael Jackson!

Noite de 25 de junho de 2009. Um amigo, editor de cultura, está na minha casa. Juntos, vemos no Jornal Nacional a notícia da morte de Michael Jackson. Ele troca um telefonema com a editora chefe do jornal em que trabalha. E permanece na minha casa. Pensei que ia sair correndo para cuidar do necrológio do artista.

Naquela noite, fui dormir me perguntando: o jornalismo cultural está morto?

Mas o assunto aqui é Severino Araújo!

Hoje cedo, fui ler A União certo de que encontraria excelente material sobre o centenário do maestro. A União tem tradição no jornalismo cultural.

Fiquei surpreso: nada!

Depois, o Correio da Paraíba. Nada também!

Em seguida, saindo do jornalismo cultural, lembrei da Rádio Tabajara. Foi lá que a Orquestra Tabajara nasceu. Foi de lá que saiu para conquistar dimensão nacional.

Liguei para uma pessoa amiga que trabalha na emissora, perguntando se haveria alguma homenagem ao maestro na programação deste domingo. A resposta que recebi:

Realmente, não vamos dar nada.

Paraíba com memória? Paraíba sem memória?

Preciso comentar?

Viva Severino Araújo! Viva a Orquestra Tabajara!

Como será comemorado, hoje, o centenário de Severino Araújo?

Neste domingo (23), faz 100 anos que nasceu Severino Araújo, o maestro da Orquestra Tabajara.

O que a Paraíba fez para comemorar o seu centenário? Sinceramente, não sei!

Hoje cedo, ao ler A UNIÃO, de tantas tradições culturais, não encontrei o centenário do maestro. Pensei que estaria na capa do segundo caderno.

Severino Araújo nasceu em Limoeiro, Pernambuco, em 23 de abril de 1917. O pai era mestre de banda. Foi seu primeiro professor.

Na Paraíba, tocou na banda da Polícia Militar antes de, em 1937, ingressar na Orquestra Tabajara como primeiro clarinetista. A orquestra pertencia à recém fundada Rádio Tabajara.

Severino assumiu o comando da orquestra em 1938, aos 21 anos, com a morte do maestro Olegário de Luna Freire.

O resto é História. Assim mesmo, com H maiúsculo.

A Tabajara foi para o Rio de Janeiro no início dos anos 1940 e se transformou na mais importante big band brasileira.

Severino esteve à frente da orquestra por 68 anos. Nela, acolheu seus irmãos: Zé Bodega (sax), Manoel (trombone), Jayme (sax) e Plínio (bateria).

Como autor, está nas antologias do choro com Espinha de Bacalhau. E nas do frevo com Relembrando o Norte.

A Tabajara foi criticada por tocar jazz. Bobagem. Era brasileiríssima. Mas também do mundo. Severino era um mestre. Compondo, arranjando, regendo. Band leader carismático, com um vigor e um charme invejáveis – quem viu ao vivo sabe!

A Orquestra Tabajara teve seus anos de ostracismo. Voltou no início dos anos 1980, nas domingueiras do Circo Voador, no Rio. Em João Pessoa, naquela década, fez vários carnavais do Clube Cabo Branco. Também fez bailes não carnavalescos e shows. O sexagenário Severino parecia um garoto comandando a sua big band!

Conheci Severino Araújo naquele retorno a João Pessoa. Estive perto dele sempre que pude, nos carnavais e fora deles. Nunca me faltou a consciência do quão significativo era aquele vínculo. Fui recompensado por seu afeto e suas histórias.

Uma noite, no intervalo de um baile, ele me disse que, na juventude, sonhava em dar ao Brasil uma grande orquestra popular. E que esperava ter realizado o sonho com a Tabajara.

Claro que realizou!

O grande Jack Nicholson faz 80 anos longe das telas

Para os novos cinéfilos, Jack Nicholson já é um ator do passado. Afinal, alguns dos seus grandes filmes são da década de 1970.

Neste sábado (22), Nicholson faz 80 anos longe das telas. Especula-se que está com uma demência senil.

Jack Nicholson é de uma geração de grandes atores que vimos atuando em grandes filmes. Como ele, Robert De Niro, Al Pacino, Dustin Hoffman, Robert Redford, Warren Beatty.

Os que têm a minha idade (estou beirando os 60) os viram jovens e sabem do impacto que provocavam.

Imaginem o que era entrar num cinema para assistir a um novo filme chamado Um Estranho no Ninho. Ou O Iluminado. Ou Chinatown. Ou Ânsia de Amar. Ou Cada um Vive como Quer. Ou Sem Destino. Ou A Honra do Poderoso Prizzi.

É Nicholson, com seu talento extraordinário, que salva um filme menor como Melhor É Impossível, no papel de um escritor com transtorno obsessivo compulsivo.

Que filme podemos escolher para comemorar os 80 anos de Jack Nicholson?

Seguem algumas sugestões.

SEM DESTINO

ÂNSIA DE AMAR

CHINATOWN

UM ESTRANHO NO NINHO

O ILUMINADO

OS INFILTRADOS