Dylan, um homem velho e sem voz em áreas profundas da América

Estou ouvindo Triplicate, o novo trabalho de Bob Dylan.

São três discos dedicados aos standards da música americana.

Cada um tem um título: ‘Til the Sun Goes DownDevil Dolls e Comin’ Home Late.

Antes, reproduzo algo que há algum tempo escrevi sobre o artista e suas mudanças:

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas.

Triplicate é belamente estranho! Ou estranhamente belo!

Alguém disse que é uma esquisitice de Dylan! É muito mais!

Traduzo assim: um homem velho, com a voz devastada, num mergulho no cancioneiro tradicional do seu país. Em busca das matrizes, das fontes, das origens, da juventude, do tempo perdido. Da tradição como contraponto ao novo que ele representou e que o fez, agora, merecer o Nobel de literatura.

No começo, há mais de meio século, Dylan sabia que sua música rompia com essa tradição que ele deixou para, ao seu modo, resgatar na velhice. Já o fez nos dois discos anteriores (Shadows in the Night e Fallen Angels) e ampliou o projeto nesse Triplicate, primeiro álbum triplo de sua carreira, acrescentando instrumentos de sopro à sua banda.

São discos de grandes canções que ouvimos com grandes vozes (Sinatra, etc.). Dylan perdeu sua condição vocal há muitos anos, mas confere uma nova beleza a esse repertório. A sua releitura é densa, melancólica, verdadeira. E remete a deep areas da América.

Triplicate (melhor do que Shadows in the Night e Fallen Angels) contém ruptura e reconciliação. Ruptura com o autor em sua permanente inquietação. Reconciliação com o velho, com o american songbook.

Por si só, a imensa importância de Bob Dylan já tornaria esse projeto imensamente importante. Ao negar a figura do grande crooner, ele nos oferece um irresistível crooner pelo avesso!

Como dizem por aí, é Dylan sendo Dylan!