Morte de Belchior é o fim de uma história triste e misteriosa

Quero desejar, antes do fim,

Pra mim e os meus amigos,

Muito amor e tudo mais.

Que fiquem sempre jovens

E tenham as mãos limpas

E aprendam o delírio com coisas reais

Foram os versos de Belchior que me ocorreram quando soube da sua morte.

Soube da existência dele no início da década de 1970 quando ouvi Mucuripe, composta em parceria com Fagner. Havia a versão de Fagner, no disquinho de bolso do Pasquim, e a de Elis Regina.

Tinha um verso encantador:

Calça nova de riscado/Paletó de linho branco/Que até o mês passado/Lá no campo ainda era flor

Depois veio A Palo Seco, no disco de Fagner:

Se você me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava

Um pouco mais tarde, o grande impacto: Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, abrindo Falso Brilhante, o disco de Elis:

Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos como nossos pais

Ou:

O que há algum tempo era jovem, novo/Hoje é antigo/E precisamos todos rejuvenescer

Quando o LP Alucinação deu dimensão nacional a Belchior, já tínhamos sentido o impacto do seu talento.

Estávamos diante de mais uma voz que falava por sua geração na noite brasileira.

Não tinha grandes dotes como cantor e era melódica e harmonicamente muito limitado. O negócio dele eram as letras. Escreveu algumas absolutamente antológicas. O seu lugar na história da MPB está essencialmente associado à força da sua poesia.

Parece paradoxal, mas a marca de originalidade das suas letras está na habilidade com que lidou com referências e citações. Belchior sempre demonstrou ter plena consciência disso.

O melhor do seu cancioneiro se resume a quatro discos, gravados entre 1976 e 1979. Um na Philips, três na Warner. Neles, estão as suas canções mais importantes. As que de fato ficaram arquivadas na memória afetiva do seu público.

Durante quase 25 anos, a partir do início dos anos 1980, Belchior muito pouco se renovou, mas fez bem a manutenção da carreira, cantando grandes sucessos para uma plateia fiel.

Na segunda metade da década passada, saiu de cena. Abandonou a carreira, afastou-se da família e dos amigos, sumiu dos palcos e dos estúdios. Uma história misteriosa, estranha e triste.

A sua morte, aos 70 anos, é o epílogo dessa história.

10 verdades do jazz para festejar o Dia Internacional do Jazz

Gilberto Gil me disse, numa conversa sobre Thelonious Monk e Miles Davis, que o jazz é o homem no abismo da improvisação.

Moacir Santos – ouvi dele – preferia o jazz ao rock porque, segundo o maestro, aquele tem células musicais mais desenvolvidas do que este.

Eric Hobsbawm, grande historiador marxista, assim definiu o jazz:

“Não é um gênero autocontido ou imutável, não é uma linha divisória, mas uma vasta zona fronteiriça que o separa da música popular comum”.

Ouço jazz pensando que é a mais rica e importante expressão da música popular do mundo.

Neste domingo (30), comemora-se o Dia Internacional do Jazz, data instituída pela Unesco em 2011.

Aqui na coluna, marco o 30 de abril com 10 verdades do jazz. Nenhuma mentira.

E essas 10 verdades não são fatos, nem conceitos.

São pessoas. Homens e mulheres absolutamente imprescindíveis. Que nos fizeram mais ricos e mais humanos com a arte extraordinária que produziram.

LOUIS ARMSTRONG

DUKE ELLINGTON

COUNT BASIE

BILLIE HOLIDAY

ELLA FITZGERALD

DIZZY GILLESPIE

CHARLIE PARKER

SARAH VAUGHAN

MILES DAVIS

JOHN COLTRANE

Quando o cover é melhor do que o original?

Vi em algum lugar. Como um desafio. Quando o cover consegue ser melhor do que o original?

Muitas vezes! Depende de tantos fatores. Entre eles, a força do intérprete.

Quem ouve jazz não tem problemas com releituras. O jazz faz isso o tempo todo e abre caminho para que a gente goste em qualquer gênero.

Cover melhor do que o original?

O primeiro que me ocorre é With a Little Help From My Friends, dos Beatles, com Joe Cocker, na versão de Woodstock. É um negócio devastador!

Fico somente com mais um exemplo. Esse, vi ao vivo. Caetano Veloso cantando Jokerman, de Bob Dylan. A canção de Dylan ganha uma poderosa batida de samba, o violoncelo de Morelenbaum e, claro, a beleza da voz de Caetano.

Ver Paul ao vivo é experiência mágica! Não tem preço!

Paul McCartney está de volta ao Brasil. Faz quatro shows em outubro. No texto de hoje, falo um pouco da experiência de vê-lo ao vivo.

Vi Paul McCartney ao vivo pela primeira vez em abril de 1990, em duas noites no Maracanã. Também era a primeira vez dele no Brasil. Estava às vésperas de completar 48 anos e corria o mundo numa excursão em que resgatava muitas canções dos Beatles, como ainda não havia feito depois da dissolução do quarteto. O tempo passava, e o músico começava a sentir saudade da juventude. O longo vídeo que abria o show tinha a assinatura de Richard Lester, o cineasta que levara os Beatles ao cinema em A Hard Day’s Night e Help!. E seria dele o documentário (Get Back) com o registro da turnê. O set list ia do rock (novíssimo) Figure of Eight ao medley final do Abbey Road.

Voltei a ver Macca ao vivo em dezembro de 1993, no Pacaembu, em São Paulo. O lugar era menor e dava ao público a sensação de estar num show um pouco mais intimista. O longo set acústico reforçava a ideia. Era resultado do unplugged que o artista gravara para a MTV. Ele e a banda se juntavam num pequeno espaço, no meio do palco, e faziam vários números com violões e um pouco de percussão. Músicas novas, canções dos Beatles, clássicos da primeira geração do rock, soul music – Paul oferecia ao público um espetáculo que parecia ainda mais eficiente do que o da excursão anterior. E difundia, no vídeo de abertura, sua luta em defesa dos animais e do meio ambiente.

A doença e a morte de Linda McCartney tiraram o marido da estrada. O retorno coincidiu com a virada do século. Primeiro, com uma banda de garagem num pocket show no Cavern Club, em Liverpool. Puro rock’n’ roll. Um homem no limiar da velhice experimentava uma volta aos territórios da adolescência. Depois, em longas turnês semelhantes àquelas que haviam passado pelo Brasil em 1990 e 1993. Só que melhores. Tudo se aprimorara: o som, a luz, os músicos. E a ação do tempo ajudava. Paul já tinha idade suficiente para ver as coisas de longe. Como seu público. O resultado era muito mais tocante. Os fãs que o seguiam há décadas incorporavam filhos e netos à plateia.

No mercado, há vários registros disponíveis das turnês de Paul McCartney na primeira década do século XXI. Não só nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Também na Rússia, onde, com a derrocada do comunismo, ele pôde, afinal, cantar. E, com o presidente Putin no meio do público, fazer a Praça Vermelha tremer ao som de Back in the U.S.S.R., o rock outrora banido. Seus shows se consolidaram como extraordinárias celebrações de música, alegria e (para os mais velhos) saudade. Performances impecáveis nas quais Sir Paul não frustra ninguém. Passa três horas em cima do palco apresentando um repertório sem similar no universo da música pop. Com a vitalidade de um jovem roqueiro.

Em 2010, vi McCartney mais uma vez ao vivo em duas noites no Morumbi. Dois anos depois, no Recife. Vi pensando naquele vento abstrato e belo que os Beatles representaram na década de 1960. Testemunhar essas coisas após os 50 é certamente melhor, mas um pouco melancólico. Porque remete ao tempo que passou. Uma balada ingênua como All My Loving agora evoca uma época. Um hino pacifista como Give Peace a Chance traz a lembrança de John Lennon e dos sonhos de uma geração.

Vocês gostam da canção italiana? Vamos ouvir Chiara Civello?

Estava lendo o delicioso texto de Martinho Moreira Franco sobre Jerry Adriani. Lembranças da série As 14 Mais e das canções italianas cantadas pelo artista que nos deixou domingo passado.

O texto me fez pensar no cancioneiro da Itália e me levou a um disco que, agora, sugiro aos leitores.

Canzoni, de Chiara Civello. Conhecem?

Vejam a capa.

A foto é uma homenagem à atriz brasileira Florinda Bolkan. Confiram.

Chiara Civello é uma italiana nascida em Roma há 42 anos. É uma cantora moderna de jazz, mas transita pelo pop, pela MPB.

Seu disco Canzoni, de 2014, foi lançado no mercado brasileiro em 2015. É um apanhado de standards da música do seu país. Tem muito a ver com a música brasileira por causa da sonoridade e das soluções harmônicas de alguns arranjos e também pelos convidados: Chico Buarque, Gilberto Gil e Ana Carolina.

Com Chico, Chiara faz Io Che Amo Solo Te. Com Gil, Io Che Non Vivo Senza Te. São verdadeiros clássicos do cancioneiro pop do mundo.

Vamos degustar? Fiquem com o vídeo de Chiara e Gil.

Acho irresistível!

 

Arte de Chico está acima de partidos, da esquerda, da direita!

Conheço pessoas que passaram a ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Conheço pessoas que deixaram de ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Acho parecidas as duas posturas.

São reducionistas.

Circunscrevem o grande artista e sua arte à intolerância do atual debate político e ideológico travado no Brasil.

Estou tocando no assunto por causa de uma postagem de Chico cantando Tanto Mar que fiz, no 25 de abril, a propósito do aniversário da Revolução dos Cravos. Recebi mensagens muito reveladoras, tanto de amor quanto de ódio.

Tento respondê-las nesse texto.

Começo com o óbvio. Chico Buarque é um artista extraordinário. Um dos maiores da nossa canção popular em qualquer tempo.

Sempre foi um homem de esquerda. Isso é absolutamente legítimo. A rigor, nem engrandece nem diminui sua arte. O que o fez (faz!) um gigante da música produzida pelos brasileiros foi (é!) o absoluto domínio que tem do artesanato da canção. Música e letra, uma nascida para a outra, uma indissociável da outra. Como um segredo que não se revela. Como um mistério que não se desvenda. Só se contempla. Só se admira.

Chico é assim. Muitas, infinitas belezas reunidas num cancioneiro. Quando fala do individual, quando se debruça sobre o coletivo. Desde a juventude, tempo dos clássicos instantâneos. Até a maturidade (agora, a velhice), de canções mais refinadas, de assimilação mais lenta e difícil.

Não é justo que a sua música só seja ouvida por causa de uma circunstância política. Ou que, na outra ponta, por isso seja execrada. Os atuais impasses serão superados, substituídos por outros, mas arte como a de Chico atravessa o tempo. Tem permanência.

Encanta, fascina, alegra, entristece, humaniza.

Fecho, então, com o Caetano de Festa Imodesta, um samba que Chico gravou:

E acima da razão a rima

E acima da rima a nota da canção

Bemol, natural, sustenida no ar

Viva aquele que se presta a esta ocupação

Salve o compositor popular!

Morre o jornalista Carlos Chagas

Luto no jornalismo brasileiro.

Carlos Chagas morreu nesta quarta-feira (26) aos 79 anos. Ele teve um aneurisma.

Chagas começou a atuar nas redações no final dos anos 1950. Trabalhou em O Globo e no Estadão. Foi secretário de imprensa do presidente Costa e Silva, cuja agonia acompanhou de perto. Fez comentários políticos na TV Manchete. Era advogado, professor de jornalismo, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras.

Um homem culto e respeitado no meio. Desses que fazem muita falta.

Morre Jonathan Demme. “O Silêncio dos Inocentes” é maior legado

Morreu aos 73 anos o cineasta americano Jonathan Demme.

Ele tinha câncer no esôfago. Problemas cardíacos, decorrentes da doença, levaram à morte.

Demme trabalhou com Roger Corman, mestre dos filmes B. Levou astros da música para a tela (Talking Heads, Neil Young, Justin Timberlake). Realizou um filme sobre a AIDS (Filadélfia) quando a doença ainda era uma sentença de morte.

Seu maior legado é O Silêncio dos Inocentes. A produção, de 1991, conquistou o Oscar de melhor filme e deu a estatueta de melhor direção a Demme.

Um grande filme, extremamente bem resolvido, que se destaca entre o melhor cinema da década de 1990.

O Silêncio dos Inocentes provoca medo, mas vai muito além.

Seria pouco dizer que a história construída em torno da relação do canibal atrás das grades (Anthony Hopkins) com a jovem agente federal (Jodie Foster) é apenas assustadora. Ela tem elementos que perturbam e inquietam de verdade o espectador.

Roberto e Erasmo entram bem no mapa da nossa canção

Os dois volumes de A Canção no Tempo oferecem precioso mapeamento da música popular que os brasileiros produziram entre 1901 e 1985. Os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello comentam as canções que marcaram cada ano. De Parei na Contramão a Caminhoneiro, Roberto Carlos aparece várias vezes.

REBELDIA

O registro inicial que o livro faz de Roberto Carlos é de 1963: Parei na Contramão, citado como um dos primeiros grandes sucessos de autoria brasileira na área do rock. “O espírito de rebeldia e o impulso dançante do jovem estão presentes nesta gravação, marcada pela guitarra, contrabaixo e a voz anasalada do maior ídolo da mocidade brasileira nos anos seguintes”, comentam os autores. No texto sobre Quero que Vá Tudo pro Inferno (1965), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello chamam atenção para o fato de que “tal como Orlando Silva, que foi o primeiro ídolo de massa criado pelo rádio no Brasil, Roberto Carlos seria o primeiro criado pela televisão”. Quero que Vá Tudo pro Inferno, dizem eles, “é a canção que marca o início desse reinado”.

BOATO

Namoradinha de um Amigo Meu (1966), por ser assinada só por Roberto, favoreceu “um boato, negado pelo cantor, de que a composição referia-se a um caso realmente vivido por ele e que envolvia um casal em evidência na época”. Já Negro Gato, também de 1966, é de Getúlio Cortes, “um dos raros artistas negros ligados à Jovem Guarda”. O autor nega que a música tenha uma conotação de protesto identificada com os conflitos raciais tão em evidência àquela época.

METÁFORA

Para Severiano e Zuza, As Curvas da Estrada de Santos, de 1969, “é mais ou menos uma reedição do rebelde de Quero que Vá Tudo pro Inferno com um carro mais veloz”. Sentado à Beira do Caminho (1969), sucesso na voz de Erasmo, “é uma metáfora que expõe o desengano dele ante o fim da Jovem Guarda e o que isso representa para a sua carreira”. Do disco que Roberto Carlos lançou em 1970, A Canção no Tempo destaca Jesus Cristo, de certa forma inspirada no sucesso de Jesus Christ Superstar. O livro a classifica como “um rock-hino cantado com respeitoso entusiasmo por Roberto”.

PROTESTO

Três músicas do disco de 1971 são comentadas em A Canção no Tempo. Composta por Caetano Veloso, Como Dois e Dois “é uma canção de protesto, deixando transparecer em seus versos ambíguos referências à ditadura e ao drama do exílio”. Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos é uma homenagem de Roberto a Caetano, depois que o visitou no exílio londrino. E Detalhes atesta “o alto nível de interpretação alcançado por RC, um dos maiores cantores românticos de nossa música popular”. Severiano e Zuza consideram Detalhes uma das melhores canções da parceria Roberto & Erasmo.

AMIZADE

Os pesquisadores seguem comentando as músicas da dupla com Amigo, de 1977, classificada como “um verdadeiro hino à amizade”, que ultrapassou a homenagem a Erasmo Carlos, “aplicando-se a amigos do mundo inteiro”. Falam também de Café da Manhã (1978), “balada romântica temperada por boa porção de sensualidade”, Força Estranha (1978), que Caetano Veloso escreveu como “uma homenagem à figura do cantor” e Outra vez (ainda 1978), de Isolda, “uma das raras músicas não compostas por Roberto e Erasmo que podem ser consideradas clássicos de seu repertório”.

NOSTALGIA

Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello enquadram Amante à Moda Antiga (1980) na categoria das canções nostálgicas e confessionais, destacando a elegância de sua melodia. Quando comentam Emoções (1981), fazem menção à sua bela melodia e ao competente arranjo de big-band e lembram que a música reproduz o clima romântico e nostálgico de outros foxes de Roberto & Erasmo. De Fera Ferida (1982), dizem que é uma das melhores canções da obra de Roberto e Erasmo Carlos. “Composta à época em que se desfazia o casamento de Roberto e Nice, a canção parece refletir o fato nas entrelinhas”.

PARCERIA

No texto sobre Caminhoneiro (1984), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello aproveitam para falar um pouco da dupla Roberto & Erasmo: “Em atividade desde o início dos anos sessenta, Roberto Carlos e Erasmo Carlos são recordistas de sucessos no período 1963/1985, tendo Roberto setenta e cinco composições relacionadas neste livro (setenta em parceria com Erasmo), das quais, treze são comentadas como destaques. Uma particularidade no trabalho da dupla: há uma participação maior de Roberto na criação das canções mais românticas e de Erasmo nas mais roqueiras”.

Chico, Tanto Mar, Revolução dos Cravos

Nesta terça-feira (25), 43 anos da Revolução dos Cravos.

Aquele 25 de abril de 1974 marcou o fim do Salazarismo em Portugal.

E encheu de esperança muitos brasileiros.

Tanto Mar, de Chico Buarque, ficou como evocação musical e eco da Revolução dos Cravos no Brasil.