De Obama a Trump. Da elegância de um à truculência do outro!

Nesta terça-feira (10) à noite, o mundo assiste ao último discurso do presidente Barack Obama. A pouco mais de uma semana da posse de Donald Trump.

A alternância de poder, tão necessária às democracias que conhecemos, permite que saiamos da elegância de um para a truculência do outro. Mas não sem riscos.

Os oito anos de Obama na Casa Branca deixarão saudades. O casal Obama deixará saudades.

Entre as muitas marcas do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, há a admirável retórica. Algo que ele, mais uma vez, deve exibir na despedida desta noite.

Fecho com música: a imagem comovente de Obama cantando o spiritual Amazing Grace e desejando que os negros assassinados numa igreja encontrem a Graça!

Complemento com Joan Baez e sua versão de Amazing Grace.

“Eu era cego, mas agora eu vejo!”, diz a letra.

Não é preciso crer. Essa oração comove até os corações ateus!

Zé Américo nasceu há 130 anos!

Quando eu era criança, uma figura de dimensão nacional estava ali ao nosso alcance, bem perto de nós, no terraço da sua casa, no Cabo Branco.

Era José Américo de Almeida, o político, o escritor.

Eu ia à praia aos domingos, meu tio estacionava o Jeep em frente à casa dele e mostrava: lá está o homem que escreveu A Bagaceira!

Meu pai era dos comunistas que não gostavam de Zé Américo. Mas ele costumava dizer que havia os comunistas que gostavam. E citava sempre o amigo Vladimir Carvalho (na foto, com o irmão, Walter, filmando O Homem de Areia). Era bom. Eu ficava entre as virtudes e os defeitos do homem. Provocava meu senso crítico.

Vendo, agora, Zé Américo de longe, penso no quanto A Bagaceira é indispensável! E penso em A Paraíba e Seus Problemas. Tinha um na estante do meu pai. Os garotos de hoje, ricos de informação e pobres de conhecimento, certamente nem ouviram falar!

José Américo de Almeida! Tem a entrevista que derrubou a ditadura de Vargas! Tem o discurso a Prestes! Tem o enfrentamento da seca – as imagens, impressionantes, tive o privilégio de vê-las exibidas por quem as fez, o fotógrafo João Cordula! No tempo em que a Paraíba tinha um Cinema Educativo!

O Homem de Areia, o documentário de Vladimir Carvalho, está aí e pode apresentar Zé Américo a muita gente.

Nesta terça (10), faz 130 anos do nascimento de José Américo de Almeida.

David Bowie, no jazz, ficou parecido com Milton Nascimento

Hoje (10) faz um ano que o mundo da música foi surpreendido pela morte de David Bowie. Dois dias antes, Bowie tinha feito 69 anos e lançado Blackstar, um novo disco. Falou-se até em suicídio assistido. O artista tinha câncer no fígado, mas ninguém sabia que ele estava doente.

Em Blackstar, Bowie é acompanhado por músicos de jazz. Mas não é um disco jazzístico, como se disse inicialmente. Não! São músicos de jazz tocando Bowie!

Jazzística – aí, sim! – é Sue (Or In a Season of Crime), a faixa inédita da coletânea Nothing Has Changed, de 2014.

E com um dado muito curioso e atraente para nós, brasileiros. A melodia sinuosa da canção lembra muito Cais, de Milton Nascimento. E a sonoridade da gravação remete ao jazz e também a um certo experimentalismo que há em Milton.

Vamos, então, ouvir Bowie pensando em Milton? Não é plágio, não! Se não for coincidência, é Milton influenciando um gigante do pop como Bowie!

Meninos, eu vi Joan Baez de perto, e ela apertou minhas mãos!

Hoje (09) é aniversário de Joan Baez. 76 anos. Aproveito a data para contar como foi a noite inesquecível em que vi a musa da canção de protesto ao vivo.

“Cantei essa música em Woodstock, cantei para Martin Luther King, cantei ao redor do mundo. Agora, canto para vocês”. Foi o que Joan Baez disse antes de fazer “Swing Low, Sweet Chariot” para a plateia que lotou o Teatro Riomar, no Recife.

A fala traz a cantora e sua história para junto de nós numa noite mágica e inesquecível. Não mais a capela, como em Woodstock, agora com voz e violão, o spiritual pode resumir o que é ver Baez de perto. Grandeza e absoluta simplicidade. A sua dimensão projetada ali num concerto que dura pouco mais de uma hora. A voz de soprano, já com registros menos agudos, mas igualmente bela. O violão com suas cordas de aço e uma sonoridade muito familiar. A mesma que ouvimos através das décadas do nosso tempo. E continuamos a ouvir. Depois de todos esses anos.

Vi Joan Baez a três dias da data em que o golpe de 64 completa meio século. A coincidência tem uma força simbólica. Aos 73 anos, ela é parte dos sonhos e das ideias generosas de uma geração. A impossibilidade de realizá-los torna ainda mais bonito o seu recital. É uma evocação. Nostálgica, sim. Melancólica, por que não?

Baez, sua voz, seu violão, dois músicos, 21 canções. Dos spirituals ao Vandré de “Caminhando” ou ao nosso “Cálice”, que os censores impediram Chico e Gil de cantar em 1973. De Dylan a Lennon. Do folk de lá ao folk de cá, em “Muié Rendeira”. Mais a latinidade de “Gracias a la Vida”, que remete a Violeta Parra, Mercedes Sosa e Elis.

Fiz com Joan Baez o que nunca havia feito em tantos anos de amor à música e de muitos shows ao vivo. Na reta final do programa, corri para a beira do palco e me pus a fotografá-la com o celular. Olhei nos olhos dela, contemplei as expressões do seu rosto e os movimentos da sua boca em “Imagine” e “Blowin’ in the Wind”. Também no spiritual “Amazing Grace”, feito a capela com as vozes de uma plateia emocionada.

Fui recompensado. Depois de abraçar um rapaz ao meu lado e de ouvir um “quero também” no meu Inglês precário, ela estendeu as duas mãos e apertou as minhas com força. Quando as soltou, olhou para mim, sorriu e repetiu o gesto. Entre um aperto e outro, a foto sem qualidade tenta eternizar o momento.

Mãos quentes e firmes. As dela. As minhas estavam geladas.

“I don’t believe it!”, foi tudo o que consegui dizer.

Cinema americano não seria o que é sem os estrangeiros!

No Globo de Ouro, a grande atriz Meryl Streep foi homenageada pelo conjunto da obra.

Fez um discurso dirigido ao presidente eleito Donald Trump. Exaltou a presença dos estrangeiros em Hollywood.

Meryl sabe, como o resto do mundo, que, sem os estrangeiros, o cinema americano jamais seria o que é.

Em muitas áreas, a América, aliás, tem uma tradição que é o oposto da xenofobia.

Como o assunto aqui é cinema, fecho lembrando cinco cineastas não americanos que atuaram em Hollywood.

Charles Chaplin.

Alfred Hitchcock.

Billy Wilder.

Elia Kazan.

Frank Capra.

Há cinco paraibanos nas 101 canções que tocaram o Brasil

101 Canções que Tocaram o Brasil é o novo livro de Nelson Motta. Foi escrito com colaboração de Antônio Carlos Miguel. Na parceria, há uma lição de tolerância porque, hoje, Motta é grande crítico da esquerda, e Miguel, não.

Há quem diga que o cancioneiro popular fala do nosso destino como Nação. Se é verdade, um livro como esse, ao percorrer um século de canções, conta algo da nossa história.

Vou me prender apenas à presença paraibana.

Nas 101 canções escolhidas por Nelson Motta, há cinco autores e seis músicas que dizem respeito a nós, paraibanos:

Chiclete com Banana, que Jackson do Pandeiro gravou em 1959. Jackson, que o autor chama de “grande mestre do suingue e das divisões rítmicas”.

Caminhando, o hino de protesto composto por Geraldo Vandré no convulsionado ano de 1968.

A Lua e Eu, do soul man Cassiano. “Não era só um sucesso do momento, com o tempo se tornou um clássico”, diz Motta da balada de Cassiano.

Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, que o livro classifica como “o melhor exemplo da força, audácia e personalidade do estilo do autor”.

Alagados e Lanterna dos Afogados, dos Paralamas do Sucesso, grupo liderado pelo paraibano Herbert Vianna. Os Paralamas, na opinião de Nelson Motta, “sinalizavam versatilidade e muito bom gosto desde a sua entrada em cena”.

No posfácio, que justifica as ausências, há uma breve menção a Chico César (À Primeira Vista), outra a Zé Ramalho (Frevo Mulher) e mais uma a Geraldo Vandré (Canção da Despedida, parceria com Geraldo Azevedo).

“Haiti”, de Caetano e Gil, tem quase 25 anos e continua atual!

A crise nos presídios brasileiros parece surpreender o governo?

É preciso que ocorram episódios como esses dos últimos dias para que o governo volte os olhos para o sistema penitenciário?

Documentos colocam mal o ministro da Justiça! Uma fala desastrada e inaceitável derruba o secretário da Juventude!

Ilhados em Brasília, os políticos não sabem o que todos nós sabemos?

Bem, a coluna é de cultura, e vou ilustrar com música.

Haiti é do início dos anos 1990. Abre o disco que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram para marcar os 25 anos do Tropicalismo. Já já vamos comemorar os 50!

Haiti continua atual! Era melhor que fosse apenas evocativa de uma época! Mas, infelizmente, não é!

Elvis foi tão importante que influenciou até o punk!

Elvis Presley, se estivesse vivo, faria 82 anos neste domingo (08). Ao fundir o R & B dos negros com o country & western dos brancos, inventou o rock’n’ roll. Foi na gravação seminal de That’s All Right.

Elvis foi tão importante que influenciou até o punk! É só olhar a capa do seu primeiro LP na RCA, lançado em 1956, e a do London Calling, do Clash.

Está aí: Elvis Presley.

E, muito mais tarde, London Calling.

Elvis se transformou num fenômeno em 1956 ao ser contratado pela RCA Victor. Nos dois anos anteriores, gravara em Memphis, na pequena Sun Records, fonogramas fundadores do rock’n’ roll. As chamadas “Sun Sessions” reúnem as bases do rock na medida em que Elvis mistura blues, R & B, gospel e country. Dos Beatles ao U2, todos se curvam à importância daqueles registros e reconhecem neles matrizes do que vieram a fazer. O artista que o mundo conheceu a partir da chegada à RCA conservou muito do que encontramos nas sessões da Sun, mas também foi tragado pelas artimanhas da indústria fonográfica e pelos grandes estúdios de cinema.

Os anos 1950 foram extremamente produtivos, apesar do serviço militar prestado na Alemanha – uma jogada comandada pelo Coronel Parker, seu empresário. A volta, no disco “Elvis Is Back”, foi triunfal. O LP promove o reencontro do artista com suas fontes. A década de 1960 seria dedicada ao cinema, entre filmes medíocres e discos com suas trilhas sonoras. Felizmente, um outro retorno recuperaria a imagem de Elvis e o levaria a uma fase em que gravou grandes discos. O primeiro, e um dos melhores, se chama “From Elvis in Memphis”. É da época do especial de televisão que mostrou um intérprete vigoroso revisitando o que fizera nos tempos da Sun.

Elvis Presley vem de regiões profundas do ser da América. Estabeleceu um vínculo raro com milhões de ouvintes, interpretando com seu vozeirão kitsch um repertório irresistível para quem nasceu nos Estados Unidos. Ele não largou as raízes, ainda que as tenha submetido a um verniz que desagrada aos puristas. Não deve ser condenado por isto. Se tivermos boa vontade, verificaremos com facilidade que produziu música pop de ótima qualidade numa carreira relativamente curta, iniciada em meados da década de 1950 e encerrada em 1977, com a morte prematura aos 42 anos.

David Bowie, artista extraordinário, faria 70 anos neste domingo

Se estivesse vivo, David Bowie faria 70 anos neste domingo (08). Ele morreu dois dias depois de completar 69.

David Bowie é chamado ao palco do majestoso Royal Albert Hall para fazer dois números no bis do show de David Gilmour. É ovacionado pela plateia, recebido de pé. Agradece e solta a frase: “I hope I warrant that”. O comentário pode inseri-lo no grupo dos artistas que sabem o quão importantes são, mas às vezes se comportam como se não soubessem. O que se segue é um momento de grande elegância de um homem que começava a envelhecer e, ali, ao revisitar a canção psicodélica do Pink Floyd, funde a ousadia da juventude com uma contenção trazida pelo passar do tempo.

Ouvi David Bowie na primeira metade dos anos 1970 com um amigo que, num surto psicótico, disse ter sido levado pelos marcianos. O amigo, nunca mais vi. A música de Bowie, só reencontrei nos 40 anos de “Ziggy Stardust”, em 2012. Desperdicei mais de 35 anos – foi a sensação que tive. Corri atrás, mas, claro, perdi o prazer do olhar contemporâneo, da audição do disco no instante em que é lançado. Como havia feito um pouco, porém menos do que desejava, com “Ziggy”, “Aladdin Sane”, “Pinups”, “Diamond Dogs”, “Young Americans” e “Station to Station”.

O David Bowie que me restou, entre o quadragésimo aniversário de “Ziggy Stardust” (ainda de devastadora beleza) e o dia em que amanheci com a inesperada notícia de sua morte, tem o sabor inevitável de uma descoberta tardia. Mas não ouvi-lo teria sido muito pior. Não tê-lo a enriquecer a minha discoteca equivaleria, de resto, a ignorar o óbvio: o significado do que sua música e sua figura (aliadas à performance no palco, ao cinema, à moda, ao comportamento, à ousadia, ao experimentalismo) representam para a cultura pop da segunda metade do século passado.

A tese tropicalista de entrar em todas as estruturas e sair (inteiro) delas, Bowie viveu intensamente em sua carreira. Do pop mais banal ao experimentalismo mais ousado. Até o jazz que norteara a excepcional “Sue”, de 2014, que remete ao Milton Nascimento de “Cais” e “Trastevere”. Se me perguntam pelo Bowie que prefiro, digo que é o dos anos 1970, talvez pelo gosto do olhar contemporâneo. Mas o melhor é ouvi-lo todo. Só o conjunto dará a dimensão do artista extraordinário que ele foi.

Mulher é o negro do mundo em canção feminista de Lennon e Yoko

Uma garota da geração Y me fala do feminismo como grande novidade dos dias atuais. Argumentei que ela estava equivocada e que as lutas feministas vêm de longe, marcaram todo o século XX com importantes conquistas.

A conversa me fez lembrar de uma canção feminista muito ouvida no início da década de 1970. É a balada Woman Is the Nigger of the World, de John Lennon e Yoko Ono. Faixa de abertura do disco duplo Some Time in New York City.

Antes, um pouco do disco. Olhem a capa.

Some Time in New York City é de 1972. Tem, portanto, 45 anos. É um dos discos mais panfletários do rock. Traz na capa uma montagem com Nixon e Mao nus, dançando. As letras falam do Vietnã, da Irlanda, de Ática, dos negros, das mulheres, da esquerda americana, de John Sinclair, Angela Davis.

Woman Is the Nigger of the World é a faixa lançada em single na época. Um baladaço! Tipicamente Lennon!

A mulher é o negro do mundo!

Sim, ela é! Pense nisso!

A mulher é o negro do mundo!

Sim, ela é! Faça algo a respeito!

Vamos ouvir?

Primeiro, com Lennon.

Para encerrar, com a nossa Cássia Eller.