Será que ainda há críticos de cinema como Roger Ebert?

Roger Ebert foi um dos maiores críticos de cinema do mundo. Tão bom que recebeu o Prêmio Pulitzer por sua atuação. Gosto de relê-lo em dois livros lançados no Brasil pela Ediouro: “A Magia do Cinema” e “Grandes Filmes”. No original, “The Great Movies” (2002) e “The Great Movies II” (2005).

Sou de uma geração que cresceu lendo crítica de cinema antes ou depois de assistir a um filme. Começávamos por um grande nome daqui, Antônio Barreto Neto. Gostávamos de confrontar as opiniões de Ely Azeredo e José Carlos Avellar nas páginas do Jornal do Brasil. Um parecia o oposto do outro. Azeredo, mais conservador. Avellar, mais avançado. Também líamos Sérgio Augusto. Depois, Inácio Araújo. Todos, certamente devedores de Antônio Moniz Vianna, cujos textos Ruy Castro compilou em “Um Filme Por Dia”. Os de fora chegaram pelos livros. A grande Pauline Kael (seu nome é sinônimo de crítica de cinema nos Estados Unidos) e François Truffaut, que trocou as páginas do Cahiers du Cinema pelas lentes da Nouvelle Vague.

Também professor de cinema, Roger Ebert começou a atuar em 1967 e só deixou de escrever poucos dias antes de morrer, devastado por um câncer que deformou seu rosto e comprometeu seus movimentos. Quando lemos Ebert, o que temos é um parâmetro de excelência da crítica de filmes. Texto impecavelmente bem escrito. De conteúdo rico, nem um pouco superficial, mas de fácil leitura. E de perfeito equilíbrio entre os aspectos subjetivos do olhar do autor e a objetividade dos fundamentos teóricos a que ele recorre. Ebert fundia a emoção do espectador (ele próprio ou seus leitores) sentado na sala escura, assistindo a um filme, ao academicismo do professor que reunia seus alunos para rever um clássico restaurado e analisá-lo quadro a quadro.

“A Magia do Cinema” compila ensaios de Roger Ebert sobre 100 filmes. Não necessariamente os 100 maiores de todos os tempos na visão do crítico. Ele observa que “qualquer lista deste tipo redundaria numa tentativa insensata de sistematizar obras que têm o seu próprio valor intrínseco”. Mas, abrindo mão da modéstia, reconhece que, quem pretender fazer um circuito entre os marcos do primeiro século do cinema, poderá muito bem começar pelo seu livro. Mais 100 títulos estão nos ensaios de “Grandes Filmes”. Em dois volumes, 200 filmes analisados por Ebert com fotos de cena selecionadas por Mary Corliss. Um breve (e não tão breve assim) curso de cinema para quem não teve o privilégio de ser aluno do crítico do Chicago Sun-Times.

Ebert começou a atuar numa época em que o crítico de cinema escrevia diariamente no jornal sobre um filme a que acabara de assistir. Os ensaios escritos muito mais tarde para os dois volumes de “The Great Movies” são uma tentativa de romper com este modelo. De voltar ao passado no lugar de ficar preso ao presente. No fundo, ele não queria estar comprometido somente com os dias atuais. Os textos não contêm mais os equívocos de uma leitura feita sob a pressão do horário de fechamento do jornal. São distanciados, serenos, amadurecidos pela passagem do tempo. Enriquecidos pela dimensão que os filmes conquistaram à medida que envelheceram. Os bons fizeram de nós seres humanos melhores. Roger Ebert tinha certeza.