Ferreira Gullar foi grande poeta e crítico lúcido da esquerda

Bandeira, Vinícius, Drummond, Leminski, Quintana, João Cabral. Já vi a morte de grandes poetas do Brasil.

Agora, mais um. Ferreira Gullar, quase fechando um ano de tantas perdas.

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Onde andarás nesta tarde vazia

Tão clara e sem fim

Enquanto o mar bate azul em Ipanema

Em que bar,

Em que cinema te esqueces de mim

Minha primeira lembrança de Ferreira Gullar é essa. Onde Andarás, um bolero meio samba-canção. Música de Caetano Veloso sobre versos dele. Ouvi muito na infância e na passagem para a adolescência, naquele disco de capa vermelha.

“Ferreira Gullar era particularmente querido por sua capacidade de encorajar, seu senso de solidariedade e seu talento para encontrar soluções inventivas mesmo naquela situação tão pobre de possibilidades”, diria Caetano muitos anos mais tarde sobre o poeta que hoje nos deixa, os dois, presos pela ditadura e levados para a mesma unidade militar, no final de 1968.

Senti o impacto do Poema Sujo na época em que foi publicado. É daquelas obras que, se não houvesse mais nada (e há!), justificam a existência de um autor.

O Poema Sujo, se pensarmos em forma e conteúdo, pode sintetizar o artista inquieto que, anos antes, ajudara a redirecionar a poesia brasileira, e o cidadão engajado que lutou firmemente contra o regime de exceção.

Foi, aliás, a sua luta contra a ditadura militar que o credenciou a, na velhice, tornar-se um crítico lúcido e severo dos governos petistas.

Quero terminar com música. O Trenzinho do Caipira, retrato de um Brasil profundo tirado pelo gênio de Heitor Villa-Lobos. Melodia enriquecida pelos versos de Ferreira Gullar. Na voz de Edu Lobo.

Lá vai o trem sem destino

Pro dia novo encontrar

Correndo vai pela terra

Vai pela serra

Vai pelo mar

Mais do que nunca, o trem sem destino segue em busca do dia novo.

Os versos do Poema Sujo eternizam Ferreira Gullar!