Lula mordeu a língua. FHC pareceu inatingível

Volto aos textos que estou publicando a propósito dos 30 anos da TV Cabo Branco. Hoje, venho com breves anotações sobre grandes nomes da cena política nacional que passaram pelo estúdio da emissora, entrevistados quase sempre por Nonato Guedes, Otinaldo Lourenço e Chico Maria.

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Lula esteve conosco mais de uma vez. Numa delas, na campanha de 1989, enquanto não chegava a hora da gravação, assisti ao Jornal Nacional com ele. Havia um problema com a escolha do seu vice (o senador Bisol), e o JN pedira uma sonora de Lula, que gravamos horas antes. Mencionei a entrevista, e Lula me disse:

Esses porras não vão dar!

Mordeu a língua! Segundos depois, a entrevista foi exibida.

Fernando Henrique Cardoso gravou para o Bom Dia Paraíba quando era senador. Ninguém imaginava ainda que seria presidente. Fiquei empolgado para estar com ele, pelo quanto era respeitado como sociólogo e homem de esquerda.

Mas foi frustrante. No contato pessoal, na hora da conversa, me pareceu inatingível. Como se pouco tivesse para dividir com os que o recebiam.

Também foi frustrante o contato com Leonel Brizola. Era meu candidato, e até hoje o admiro, mas, visto de perto, não exibiu nada do carisma dos palanques e entrevistas. Como se tivesse gestos e sorrisos pouco naturais.

Antes da gravação, o entrevistador Otinaldo Lourenço fez um comentário nada conveniente. Ao ver que Brizola calçava botas, lançou mão de sua habitual irreverência e usou uma palavra que o gaúcho não admitia: caudilho.

A frase de Otinaldo, que Brizola ouviu com um riso amarelo:

Botinha de caudilho! 

Ulysses Guimarães chegou à TV Cabo Branco num sábado à noite para gravar uma entrevista. Agenda cheia, estava na correria de uma campanha. Afável, muito bom de conversa.

O historiador José Octávio de Arruda Mello soube da presença de Ulysses e foi à TV cumprimentá-lo. Quando o viu caminhando pelo corredor, saindo do estúdio, bradou:

Viva Dr. Ulysses!

Bem que o Sr. Diretas era merecedor.

Celso Furtado contou muitas histórias na noite em que gravou A Palavra É Sua. Kennedy, Sartre, personagens com quem cruzou. E disse uma frase inesquecível:

As elites brasileiras são tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses!

Eduardo Suplicy me lembrou um freak dos anos 1960 transportado para a política. José Genoíno dava a impressão de ser pouco verdadeiro. A conversa de José Dirceu, sedutora e muito inteligente, sugeria que ele faria qualquer coisa pelo êxito do projeto.

O líder comunista Luiz Carlos Prestes era o que se costuma chamar de lenda viva. Na redação, uma jovem produtora não acreditou que ele estava ali. Pensou que, àquela altura, só fizesse parte dos livros de história.

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Na saída, o militante prestista Alexandre Guedes me fotografou com o Cavaleiro da Esperança. Prestes morreu dois meses depois.