De Kennedy a Obama. E agora? Hillary ou Trump?

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Eu tinha pouco mais de quatro anos, mas a lembrança ainda é nítida em minha memória. Meu pai ouvindo na Voz da América a notícia do assassinato do presidente Kennedy. Posso dizer que os americanos entraram na minha vida naquela tarde do dia 22 de novembro de 1963. Nas semanas seguintes, vieram as muitas revistas que minha mãe comprava. E, alguns meses mais tarde, também por iniciativa dela, a foto autografada do casal Kennedy ao lado dos dois filhos. Meu pai era comunista, mas admirava JFK. A um só tempo, respeitava a sólida democracia dos americanos e lamentava que eles separassem os homens pela cor da pele.

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Cinco anos depois, mais duas tragédias americanas. Os assassinatos do reverendo Luther King e do senador Bob Kennedy pareciam sugerir que a América teria grandes dificuldades para avançar na luta pelos direitos civis. Estávamos em 1968, o ano em que os estudantes puseram a França de cabeça para baixo, e os militares brasileiros endureceram o regime, promovendo o que Brizola chamava de o golpe dentro do golpe.

Os democratas ficaram oito anos com Kennedy e Johnson, depois veio o republicano Nixon. O desfecho foi o pior possível: o escândalo de Watergate e a renúncia, já no segundo mandato. De Carter, a gente lembra sobretudo da defesa dos direitos humanos. O eleitor não quis que ele ficasse oito anos. Os republicanos voltaram com Reagan, canastrão do cinema que governou a Califórnia e terminou presidente. Em 1980, admirávamos a velocidade da apuração dos votos nos Estados Unidos. A nossa era obsoleta, e os brasileiros estavam enferrujados se o assunto fosse eleição.

Esperávamos o pior de Reagan, um ultraconservador no comando da Casa Branca. Era assustador para nós, que vivíamos sob governos de exceção e sonhávamos com um país redemocratizado. A realidade foi menos sombria. O velho ator ficou oito anos e fez o sucessor, Bush pai, que não se reelegeu. Aí veio Clinton, um cara da geração que se rebelou nos anos 1960. Da Casa Branca ao show dos Rolling Stones – dá para traduzir assim. No ano 2000, seu vice, Al Gore, ganhou no voto popular, mas perdeu no número de delegados para Bush filho. Os oito anos que se seguiram confirmaram que o pesadelo não atendia pelo nome de Ronald Reagan.

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Em 2008, os democratas queriam uma mulher no poder. Quando vi Obama pela primeira vez, não pensei que ele ultrapassaria Hillary para ser o primeiro negro na Casa Branca. Na madrugada em que discursou como presidente eleito, a imagem mais forte, para mim, foi a do reverendo Jackson com lágrimas nos olhos, no meio da multidão. Resumia a longa caminhada. Havia muitos símbolos ali, embora a vida real fosse menor do que o sonho. Em 2012, sem a reeleição de Obama, teria vencido a América que ainda separa os homens pela cor da pele. Assinado, selado, entregue, eu sou de vocês – cantou Stevie Wonder na vitória. The best is yet to come, prometeu o presidente. Como na canção de Sinatra.

Alternância de poder é um negócio que os americanos levam a sério. Se ocorrer agora em 2016, a letra da canção será invertida. O pior estará por vir!