Em dezembro, coluna vai abrir espaço para destaques de 2016

Dezembro começa nesta quinta-feira, e a coluna, ao longo do mês, abrirá espaço para destaques de 2016.

Não vou, necessariamente, fazer listas com os melhores nessa ou naquela atividade.

Pretendo comentar o que me chamou atenção. Um disco, um show, um filme, alguém que nos deixou.

Escolhas pessoais,  seguindo a linha que adoto nos textos que posto aqui.

 

Sérgio Cabral tem Mal de Alzheimer. Um alívio!, dizem os amigos

Para quem não conhece, este é o jornalista Sérgio Cabral (em foto de Nilson Soares), pai de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro.

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Há uns 40 dias, depois da notícia de que Fernando Cavendish teria comprado um anel de 800 mil reais para a mulher de Sérgio Cabral, o filho, escrevi algo aqui na coluna sobre Sérgio Cabral, o pai.

Quando o ex-governador foi preso, voltei a pensar no pai. Acho que eu e todos os que o admiram.

A pergunta óbvia:

Como um homem íntegro como o velho Sérgio Cabral estaria vendo tudo isso que ocorreu com o filho?

A resposta veio numa notícia triste, através de um artigo de Ignácio de Loyola Brandão.

Triste, mas recebida com certo alívio por alguns dos seus amigos.

Sérgio Cabral, de 79 anos, está alheio a tudo. Tem Mal de Alzheimer, ou alguma outra demência senil. Foi poupado pela doença.

Sei que muitos, sobretudo os mais jovens, não conhecem Sérgio Cabral.

Vou falar um pouco sobre ele.

Cabral, profundamente vinculado às coisas do Rio de Janeiro, torcedor do Vasco, é jornalista, crítico de música, escritor, produtor musical. Foi jurado dos grandes festivais da MPB, fundador do Pasquim, autor de biografias de Tom Jobim, Pixinguinha, Elizeth Cardoso. Homem de sólidas convicções ideológicas, militante da esquerda nas lutas contra a ditadura. Uma figura muitíssimo cara a todos nós que amamos a música popular do Brasil!

Em seu artigo, Ignácio de Loyola Brandão chama nossa atenção para os tempos em que vivemos.

São tempos tão estranhos, com tamanha inversão de valores, que uma doença terrível e indesejável como o Mal de Alzheimer acaba por tranquilizar os amigos do doente.

Desde que evite que ele veja o filho na cadeia, com a cabeça raspada e roupas de presidiário. Acusado de ajudar a destruir o Rio que seu pai amou intensamente.

Secom JP chama FEderico de FREderico Fellini! E então?

Recebo texto da Secom da Prefeitura de João Pessoa sobre os filmes de Fellini que serão exibidos no Estacine. Muito bacana a programação.

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Mas eis que, no título e no texto, algo chama minha atenção.

Federico (o correto é assim: FE) Fellini virou Frederico (assim mesmo, errado: FRE) Fellini.

Puxa! Será Possível?

O erro começa no título:

Mostra Frederico Fellini movimenta o Estacine neste mês de dezembro

E segue no texto:

O último mês do ano o projeto Estacine rende homenagem ao cineasta italiano Frederico Fellini.

E outra vez:

Quem foi Frederico Fellini?

Só acerta quando cita a Wikipédia:

De acordo com a Enciclopédia Eletrônica Livre Wikipédia, Federico Fellini 

Vamos só lembrar:

Fellini nasceu na década de 1920. Ficou famoso nos anos 1950. Mais tarde, lotou os cinemas do mundo inteiro com A Doce Vida. Ganhou Oscar. É um dos maiores cineastas de todos os tempos. Morreu na década de 1990.

Seu nome é FEDERICO! Não é FREDERICO!

Em nossas redações, ainda há gente que não sabe?

Consultem o Google! Não é assim que se faz hoje em dia? Mas não soltem esses textos por aí! Eles provocam vergonha alheia!

George Harrison, o mais discreto dos Beatles, morreu há 15 anos

Nesta terça-feira (29), faz 15 anos que morreu o beatle George Harrison.

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Numa banda em que o comando era disputado por John Lennon e Paul McCartney, para George Harrison, o mais discreto e também o mais místico dos quatro Beatles, só havia lugar de coadjuvante. Mesmo que ele fosse o guitarrista solo, como se chamava na época. No começo, quando os Beatles gravavam covers de outros artistas, Harrison fazia o vocal principal de algumas canções. Como “Chains” e “Roll Over Beethoven”. Depois, os discos do quarteto traziam uma música de sua autoria, ou duas. Três no “Revolver”. Quatro no “Álbum Branco” porque era duplo. John e Paul, trabalhando juntos ou separados, escreviam a maior parte das canções, e o maestro e produtor George Martin dava preferência a elas.

Há quem defenda o argumento de que, nos Beatles, George Harrison desempenhou papel semelhante ao de Brian Jones nos Rolling Stones. Com a diferença de que Brian foi aniquilado porque tentou ser o líder. George ficou meio à margem, mas, a despeito disto, o quarteto não pôde prescindir da sua contribuição. Foi ele que apresentou a música indiana aos companheiros de banda e ajudou a difundi-la no Ocidente. Não ouviríamos Ravi Shankar se não fosse George Harrison. Deve-se a ele a presença de um instrumento como o sitar em incontáveis manifestações musicais do mundo ocidental, não só no universo do rock. O mesmo sitar que aparece em algumas gravações dos Beatles.

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George era melhor instrumentista do que John. Sua guitarra é muito marcante na produção do quarteto. No início, fortemente influenciada pelo rock da década de 1950, pelos solos criados por Chuck Berry e Carl Perkins. Depois, com cores próprias. O músico inventou o seu jeito de tocar o instrumento. Um modo choroso de se expressar. “Enquanto minha guitarra chora gentilmente”, diz o título da canção que gravou em 1968, no “Álbum Branco”, com solo não dele, mas do amigo Eric Clapton. Não tinha virtuosismo, mas era um perfeccionista. Um músico aplicado que criou belos solos para as canções dos Beatles.

Se fôssemos escolher uma música, diríamos que o melhor do autor está em “Something”. Foi composta sob inspiração de Ray Charles. A gravação dos Beatles beira a perfeição. O vocal de George, as vozes de John e Paul, o solo de guitarra, as notas graves do piano, o caminho percorrido pelo baixo, as cordas arranjadas e conduzidas por George Martin. Há muitos registros de “Something”. De Joe Cocker, cover branco de Charles. De Elvis Presley, de Frank Sinatra, que, uma vez, atribuíu a autoria a Lennon e McCartney. Nenhum supera o dos Beatles. Foi a única composição de Harrison a ocupar o lado A de um single do grupo.

Longe dos Beatles, George gravou o antológico álbum “All Things Must Pass”, seu maior feito. Reuniu os amigos no concerto para Bangladesh, precursor dos grandes eventos voltados para o combate à fome no mundo. Produziu pouco e se manteve distante do show business. Deixou saudades, além de belas e melancólicas canções.

Top 5 de George Harrison, que morreu há 15 anos

Nesta terça-feira (29), são 15 anos da morte de George Harrison.

Vamos reouvi-lo? Fiz aí minhas escolhas.

All Things Must Pass. O melhor disco de Harrison. Um álbum triplo gravado logo após a dissolução dos Beatles. Tem algumas das suas canções mais conhecidas, além de uma longa jam session com os amigos.

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The Concert for Bangladesh. Traz  o concerto realizado em Nova York, em agosto de 1971. George e os amigos tocam e cantam para arrecadar fundos para a população faminta de Bangladesh.

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Living in the Material World. Give Me Love, um grande hit, puxa o repertório desse disco feito por um artista perfeccionista. O repertório reúne belas e melancólicas baladas compostas por Harrison.

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Cloud Nine. Último disco autoral de George. Rocks e baladas se alternam num trabalho maduro. Há uma certa nostalgia nas canções, como se, às vezes, a gente estivesse ouvindo os Beatles.

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Traveling Wilburys. Uma brincadeira de George com seus amigos famosos. Entre eles, Bob Dylan e Roy Orbinson, que morreu logo após a gravação. Os cinco interantes do grupo usaram pseudônimos.

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Gump e Kennedy. Hanks e Obama. A vida a imitar a arte!

O ator Tom Hanks foi condecorado pelo presidente Barack Obama na Casa Branca.

Inevitável a lembrança do que vimos em Forrest Gump. Hanks, no papel de Gump, sendo condecorado pelo presidente John Kennedy na Casa Branca. Os dois aparecem juntos graças a uma trucagem muito convincente.

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Agora, Hanks e Obama, aplaudidos por Bill Gates, que está ao fundo.

Não é preciso saber o diálogo, a foto, por si só, já sugere que Obama está dizendo algo sobre Forrest Gump, não?

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Realidade e ficção. Vida e arte. Tudo misturado!

“Elis” é um bom filme. Bom e necessário

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João Marcello, o filho de Elis Regina com Ronaldo Bôscoli, disse que Elis é um bom filme. Entendi assim a fala dele: é apenas bom, mas não deixe de ver!

Saí do cinema com essa sensação: é correto, bem realizado, não é excepcional, mas como é necessário!

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No passado, as estrelas da música popular viravam estrelas de cinema. Ou, aqui, acolá, apareciam num documentário sobre um grande show ou uma turnê.

Agora, depois que o tempo passou, elas se transformaram em personagens de cinebiografias ou de documentários que olham as coisas de longe.

O cinema brasileiro está cheio desses filmes. Faz uns 15 anos. São importantes para a construção da memória.

Elis, que acaba de chegar aos cinemas, é o mais recente. Quem viu Elis, a Musical, pode achar que há muitas semelhanças entre os dois. E há. Eles, na verdade, se completam.

No teatro, vivemos um pouco a ilusão de que estamos diante de Elis. Isso impressiona contemporâneos e não contemporâneos dela.

No cinema, não. Mas há o impacto de uma atriz (Andreia Horta) que ficou muito parecida com a cinebiografada. Em muitos momentos, ela “recebe” Elis. Não tem nada de caricatural, como andaram dizendo!

E há o impacto da música. Andreia dubla. A voz é de Elis, cantora extraordinária que surgiu e cresceu no Brasil da ditadura e se consolidou pelo singular domínio da voz, entre a técnica e a emoção, e pelo marcante repertório que gravou em seus muitos discos.

O filme de Hugo Prata tem o contexto histórico em que Elis se firmou, seus (grandes) dramas pessoais, que acabaram levando ao desfecho trágico e prematuro, e tem muita música. Números muito bem filmados que impressionam os que admiram a artista.

A música de Elis e o desempenho de Andreia Horta são os destaques desse filme que emociona os que viram Elis em seu tempo e ensina algo aos que não viram!

A morte é um dos temas do filme de Scorsese sobre George Harrison

Nesta terça-feira (29), faz 15 anos da morte de George Harrison. Um retrato fidelíssimo do beatle e da sua música está no documentário Living in the Material World, de Martin Scorsese.

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Minhas impressões sobre o filme:

“Living in the Material World”, de Martin Scorsese, é um documentário com duração de três horas e meia. Conta a história de um homem rico que se voltou para as coisas do espírito. E viveu dividido entre o mundo material e a crença que as religiões oferecem de que o melhor é o que vem depois da morte. Morreu antes dos 60 anos, consumido pelo câncer, e deixou a fortuna para a família (mulher e filho) e os irmãos de fé. O personagem retratado por Scorsese não é um anônimo. É o beatle George Harrison.

Há muitas histórias neste longo filme. Uma delas (a mais óbvia), a dos Beatles. O documentário “Anthology” não a esgotou. Scorsese usa Harrison para contá-la através da sua sensibilidade. E consegue mostrar o que ainda não havíamos visto. A exemplo da sequência em que Astrid diz que fotografou John Lennon e George Harrison no lugar em que Stu trabalhava. Stu, morto prematuramente, fora integrante da primeira formação dos Beatles e namorado de Astrid. Duas ou três fotos desconhecidas ilustram a fala. John está devastado. George segura a barra dele. A alemã, que vimos bela e jovem, é uma senhora de 70 anos cujo envelhecimento não acompanhamos. Scorsese nos reencontra com ela.

No começo, vemos George no jardim. Ele está indo embora. Como se estivesse morrendo. Depois, algumas pessoas falam da ausência dele. Do que diriam se o reencontrassem. A narrativa volta para a década de 1940, quando nasceu. A guerra, a vitória dos aliados. A canção que ouvimos garante: tudo passa. “All Things Must Pass”. Scorsese vai contando várias histórias. A do garoto pobre que conquistou a fama através do talento. A do jovem astro que mergulhou fundo no misticismo. A do músico preterido pelos companheiros de banda, mais talentosos do que ele. A do homem que viu o melhor amigo levar sua mulher. Canções e imagens de uma época ilustram cada uma das histórias.

O documentário mostra George Harrison vivendo no mundo material, o título nos assegura. Dividido entre a escolha religiosa e a fortuna que fez com sua guitarra e suas canções. Entre o senso de humor e a amargura. Mundano e cheio de luz. Assim os amigos o definem. Assim Martin Scorsese o revela neste retrato que poucos cineastas tirariam com tanta propriedade e delicadeza. Era preciso que um realizador como Scorsese se dispusesse a transformar George em personagem de um filme. Porque o seu cinema, desde o início, está repleto de música. Ele trabalha com as duas formas de expressão artística, o cinema e a música, do mesmo modo que é tão talentoso na ficção quanto no documentário.

A morte é um dos temas principais do filme. Está no prólogo e no epílogo. Na abertura, o filho, Dhani, conta que sonhou com o pai. Perguntou onde ele estivera e ouviu a resposta: nunca saíra de perto. No final, os mais chegados dizem do que sentem falta. Da amizade, do amor. E não parecem bem resolvidos com a ausência física. Ao contrário de George, que, guiado pela religião, lidava melhor com a ideia da morte. O campeão Jackie Stewart perdeu colegas em acidentes nas pistas, mas não conhecia um luto tão severo. Ringo Starr chora ao narrar o último encontro com o amigo. Se acreditarmos na conversão de George, assistiremos ao filme convencidos de que ele não comporta lágrimas.

Manfredo Caldas e o amor ao cinema

A notícia triste chegou na sexta-feria (25) à noite através de uma mensagem de Marcus Villar:

Manfredo fez a viagem dele!

Morreu Manfredo Caldas. O montador, o realizador, o militante comunista. O amigo querido.

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Na minha memória afetiva, Manfredo está associado a muita gente e muita coisa boa. Sobretudo no período em que voltou a morar em João Pessoa, nos anos 1980.

Seu irmão Hugo, amigo de Paulinho da Viola e de Archidy Picado. Vladimir Carvalho, claro!, Erialdo Pereira, com quem dividiu um quarto de pensão no Rio do final dos anos 1960. O Nudoc, a última semana do Rex, as conversas sobre Cuba, a militância. Mas, principalmente, o amor ao cinema, que manifestávamos falando de filmes.

Às vezes, um filme obscuro, pouco lembrado, como Os Visitantes, de Kazan, que adoro. E ele adorava.

Na estreia do seu média sobre a nau catarineta, ao término da sessão, eu disse que havia gostado muito, e ele resumiu:

Assumi o vídeoclipe! 

 

Roberto Correa, dos Golden Boys, morre aos 76 anos

Roberto Correa, um dos integrantes dos Golden Boys, morreu na noite deste sábado (26). Tinha 76 anos. A causa da morte não foi divulgada.

Nos anos 1960, os Golden Boys, inspirados nos conjuntos vocais americanos, foram um dos grupos mais famosos da Jovem Guarda.

O grupo era formado pelos irmãos Roberto, Ronaldo e Renato Correa e Valdir da Anunciação, que morreu em 2004. Com a morte de Valdir, o quarteto virou um trio.

Na foto, Roberto é o segundo da esquerda para a direita.

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Os Golden Boys já como um trio. Roberto Correa é o do meio.

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Para ouvir: Pensando Nela. Versão de Bus Stop, dos Hollies.