Paulinho da Viola, com esse jeito cool, reúne muitas elegâncias

Paulinho da Viola passou por João Pessoa neste sábado (22) com o show comemorativo dos seus 50 anos de carreira.

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Elegância é uma palavra comumente usada quando se quer falar sobre ele. Tento evitá-la porque virou um clichê, mas também caio na tentação: Paulinho, o artista e o cidadão, reúne muitas elegâncias.

Gosto da contenção, do comedimento, da serenidade. Desse jeito cool de fazer e tocar samba.

Gosto da tolerância que há no seu diálogo. O portelense que exalta a Mangueira num samba lindo que Elizeth gravou. Sei Lá, Mangueira (letra de Hermínio Bello de Carvalho) está no set list do show com um longo relato sobre sua gênese. É uma história dos anos 1960 que fica como lição. Ainda vale muito no Brasil intolerante de hoje.

Paulinho e suas histórias. Algumas estão no show. Outras, não. Como a de Dedé Aureliano, a militante comunista para quem compôs Para um Amor no Recife, um dos seus sambas mais bonitos. Tive a honra de conhecê-la.

Acompanho Paulinho da Viola desde o início dos anos 1970. Vi inúmeras vezes ao vivo. Hoje, quem está no palco, ao violão, é o filho, João Rabello. No passado, era o pai, César Faria. Quando Nicolino Cópia, o lendário Copinha, tocava na sua banda. E Canhoto da Paraíba aparecia como convidado muito especial.

O tempo passou, mas Paulinho permanece como esse belo exemplo de dignidade. Sua presença no palco resume o que estou dizendo.

Sua música nasceu num momento de grandes mudanças. E traz os reflexos das transformações. Paulinho se manteve fiel às matrizes do samba (e do choro) e soube modernizá-lo ao seu modo. Como o marinheiro que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar.

Penso em tudo isso agora que o vejo de novo. No palco, num show impecável. Ou numa conversa breve no backstage do teatro A Pedra do Reino.

O artista faz 74 anos em novembro. Já vemos tudo de longe. Seus sambas, sua presença na música popular brasileira, seu lugar na geração que despontou ali na era dos festivais.

Vê-lo ao vivo é estar diante de um dos nossos grandes. O cara que escreveu Sinal Fechado. Ou Dança da Solidão. Ou Foi um Rio que Passou em Minha Vida. Ou Coração Leviano. Todas no set list.

Paulinho da Viola se fez guardião do samba e do choro com excepcional trabalho autoral. Esse show traz a síntese do que ele é.