Pedro Osmar faz autocrítica no Face e diz que não é minimamente razoável no palco

O compositor Pedro Osmar usou seu perfil no Facebook para fazer uma autocrítica. Foi depois de um show na sexta-feira (28) com o irmão Paulo Ró.

Pedro disse que não é um artista minimamente razoável no palco e que sua incompetência é gritante.

“Eu devo parar com esses experimentos”, diz o guerrilheiro cultural.

Pedro Osmar

Transcrevo:

Ontem à noite, fui com Paulo Ró fazer a apresentação do Jaguaribe Carne na Budega Café e Arte, nos Bancários. Foi uma apresentação bem Musiclube, nada executiva, onde eu me convenci, definitivamente, que não sou um artista de palco minimamente razoável. Minha incompetência é gritante e impaciente comigo mesmo. Mas isso quando vamos para o palco em dupla (mas Paulo Ró se segura muito melhor que eu). Eu me convenci que o Jaguaribe Carne é melhor quando está em banda, rodeado dos músicos amigos que tanto nos fundamentam tecnicamente.

E qual a diferença do Jaguaribe Carne que esteve na abertura do show de Tom Zé no Teatro de Arena do Espaço Cultural e a apresentação da Budega ontem? A resposta é uma só: o apoio luxuoso de uma banda, com os bons músicos que sempre nos apoiaram, é o segredo. Xisto Medeiros e Marcelo Macedo (nossos produtores e diretores de cena) e os apoiadores fundamentais: Guegué Medeiros e Helinho Medeiros, Uirá Garcia, Uaná Barreto e Michel Felipe. Este é o segredo de um trabalho mais competente de palco!

Eu dou a mão à palmatória: não adianta insistir em fazer apresentações “Solo” ou “Duo”, eu não tenho capacidade de segurar a onda sozinho. Eu devo parar com esses experimentos. Paulo Ró, ao contrário, ainda tem capacidade para aguentar alguns anos à frente, apesar de também já mostrar sinais evidentes de cansaço físico. Eu confesso: eu sou um João do Vale da música paraibana. Um criador de músicas. E gosto de ser assim. E viva a música da Paraíba!

Freixo, Crivella, Collor e o som de Lula

Partamos do pressuposto de que, por natureza, o jogo político nem sempre é muito verdadeiro. Consideremos que o que há são limites que não deveriam ser ultrapassados.

Vou dar um exemplo.

No debate histórico entre Collor e Lula, na eleição de 89, Collor ultrapassou esse limite quando disse que não tinha condições de possuir um aparelho de som igual ao de Lula.

Que bobagem, dirão alguns. Não! Não era bobagem! Collor, um homem rico. Lula, um homem pobre. Como este tinha um aparelho de som que aquele não poderia ter?

Até hoje, não sei ao certo o que levou Collor a fazer aquela afirmação, mas, para mim, ela teve uma grande força simbólica. Era como se ele fosse capaz de dizer (ou fazer) qualquer coisa, mesmo que fosse a mais descabida das mentiras. Mesmo o que não pode ser feito. Nem no jogo político.

Lembrei dessa história vendo, na Globo, o debate entre os Marcelos que disputam neste domingo (30) a prefeitura do Rio.

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Freixo, o candidato do PSOL, partiu para o ataque. Crivella, do PRB, jogou na defensiva. Freixo parecia estar atuando dentro do que é permitido. Crivella, não.

As falas de Crivella davam a impressão de que, como Collor, ele faria (faz) qualquer coisa. A despeito do seu discurso religioso e do seu vínculo com uma igreja cristã. O episódio envolvendo a viúva de Amarildo é, no mínimo, nebuloso. E – convenhamos – não foi bem explicado pelo candidato.

Como show de televisão, o debate foi mais atraente do que muitos que tenho visto nos últimos tempos. As provocações, as acusações, o cinismo e a ironia como armas de defesa – tudo isso prende o telespectador. Ideias para a cidade, propostas, programa de governo? – não era o mais importante!

Freixo diz coisas nas quais é preciso acreditar nesses tempos de pouca crença no jogo político. Crivella atua num território que faz lembrar a história de Collor e o som de Lula. A julgar pelas pesquisas, é nas mãos dele que a prefeitura do Rio estará nos próximos quatro anos. A não ser que ocorra um milagre.

Caetano e Gil encerram turnê com show no Rio

Com um show no Rio de Janeiro, Caetano Veloso e Gilberto Gil encerram neste domingo (30) a turnê Dois Amigos, Um Século de Música. O projeto, iniciado em junho do ano passado, percorreu o Brasil e diversos países durante 16 meses.

O duo acústico de vozes e violões foi registrado em CD duplo e DVD.

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Vi o show quando da passagem da turnê pelo Recife, em novembro do ano passado.

Transcrevo aqui um pouco do que escrevi:

Há muitas belezas no show. Uma delas é a obra de cada um revisitada através de músicas que entraram para a antologia do nosso cancioneiro. Seja “Domingo no Parque” ou “Expresso 2222”, de Gil, “Tropicália” ou “Sampa”, de Caetano. Outra beleza é a oportunidade que o set list proporciona de identificarmos a relação dessas canções com o tempo em que foram escritas. Como nos comentários sobre o exílio (em “Nine Out of Ten”, de Caetano, e “Back in Bahia”, de Gil), na lembrança da prisão (em “Terra”, de Caetano) ou, ainda, no retrato do Brasil à época do Tropicalismo (em “Marginália II”, de Gil, letra de Torquato Neto).

Belo também é o modo com que o repertório foi “costurado”. O que pode ser lido pelo público nas entrelinhas. A conversa que vai se construindo ali no palco ornamentado com as nossas bandeiras estaduais. Como se Caetano e Gil dialogassem conosco e não só entre eles. Os artistas permanecem o tempo todo em cena, mesmo quando somente um está tocando e cantando. Um atua, o outro contempla. O silêncio se traduz como reverência, admiração profunda, também como amor e amizade.

Tudo nesse show tem a ver com uma história de grande cumplicidade que começou na Salvador da primeira metade da década de 1960, no dia em que Caetano e Gil se viram pela primeira vez. O encontro foi na Rua Chile, no centro da cidade, perto da loja de calçados “O Adamastor”, que pertencia ao pai de Glauber Rocha. E essa história, contada hoje através de canções, é talvez a maior beleza do duo acústico.

A passagem do tempo é aliada de todos se insistirmos nas belezas do show. E dá significados muito fortes às melodias e às letras de cada canção. O que temos no palco são dois homens que já ultrapassaram o limiar da velhice, revendo o que fizeram em cinco décadas. O “aqui é o fim do mundo”, de Gil, ou o “eu organizo o movimento”, de Caetano, parecem ter outra sonoridade e dizer mais do que diziam há quase meio século. Conseguem juntar o país convulsionado de ontem com o país convulsionado de hoje. E confirmam a opinião, de Caetano, de que o cancioneiro popular do Brasil fala muito profundamente do nosso destino como nação.

Box repõe discos essenciais de Jards Macalé no mercado

Jards Macalé tem três discos essenciais: Jards Macalé (1972), Aprender a Nadar (1974) e Contrastes (1977).

Contrastes foi relançado no ano passado pela Som Livre. Jards Macalé e Aprender a Nadar, lançados originalmente pela Philips, acabam de voltar ao mercado no box de CDs Anos 70, do selo Discobertas, do pesquisador e produtor musical Marcelo Fróes.

Com seu selo, Fróes tem reposto no mercado dezenas de discos muito importantes. Os de Macalé somam-se a esse trabalho.

Conheci Macalé cantado por Gal Costa. Hotel das Estrelas, Mal Secreto, Valor Barato. Depois, com seu violão e arranjos no disco Transa, de Caetano Veloso. Em seguida, no LP Jards Macalé, que reaparece agora no box da Discobertas.

Voz, violão, baixo e bateria. Macalé, Lanny Gordin, Tutty Moreno. Um trio poderoso num disco que tem grande unidade e registra o repertório que projetou o compositor. Um verdadeiro petardo!

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Dois anos depois, o segundo disco. Aprender a Nadar é excelente, mas muito diferente do disco anterior. É muito bom na falta de unidade, na diversidade do seu repertório.

Confirma o grande talento que Macalé teve dificuldade de amplificar. Seja por questões da indústria fonográfica, seja por traços da sua personalidade, o fato é que o músico ficou à margem. Merecia maior visibilidade.

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Dois discos de raridades (gravações domésticas + faixas ao vivo) completam o box da Discobertas.

Muito bom reouvir o melhor de Macalé!

Morre Dib Lutfi, um dos fotógrafos do Cinema Novo

Luto no cinema brasileiro.

Morreu nesta quarta-feira (26) no Rio de Janeiro o fotógrafo e diretor de fotografia Dib Lutfi.

Lutfi, de 80 anos, morava no Retiro dos Artistas e sofria do Mal de Alzheimer.

Nascido no interior de São Paulo, filho de uma família de libaneses, Dib Lutfi foi, como fotógrafo e diretor de fotografia, um dos grandes nomes do cinema brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Trabalhou com os cineastas mais importantes daquela época, sobretudo os do Cinema Novo.

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Era irmão do compositor e cineasta Sérgio Ricardo, de 84 anos, que hoje pela manhã usou as redes sociais para anunciar a morte de Dib.

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Algumas imagens inesquecíveis do cinema brasileiro, nós vimos através dos olhos de Dib Lutfi!

(Na primeira foto, Dib Lutfi filmando com Glauber Rocha)

(Na segunda foto, Dib Lutfi com o irmão Sérgio Ricardo)

Primeiro jornal da TV Cabo Branco foi ao ar há 30 anos

Antes que o mês termine, quero fazer um registro: o primeiro jornal da TV Cabo Branco foi ao ar há 30 anos, em outubro de 1986. Foi apresentado por Geraldo Oliveira (foto) e Bertrand Freire.

Conto um pouco dessa história.

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A TV Cabo Branco, primeira emissora de televisão de João Pessoa, entrou no ar em caráter definitivo, como afiliada da Rede Globo, no primeiro dia de janeiro de 1987. Mas, antes, houve uma fase experimental, que durou pouco menos de três meses, entre outubro e dezembro de 1986.

Nessa fase experimental, a emissora transmitia o sinal da Band. Muitos dos seus profissionais estavam experimentando o veículo pela primeira vez. Eram jornalistas que vinham de outras plataformas e jovens recrutados na Escola Técnica para postos operacionais. Todos haviam passado por um treinamento que durou alguns meses e, de fato, teriam a oportunidade de “treinar” no ar, antes que a TV passasse a operar como afiliada da Globo.

O primeiro telejornal se chamou Câmera 7. O 7 era uma alusão ao horário em que ia ao ar e ao canal da emissora.

Estávamos no Brasil do Plano Cruzado, do governo Sarney, e às vésperas de uma eleição. O deputado federal Tarcísio Burity seria eleito governador pelo PMDB.

As primeiras edições do Câmera 7 falavam das eleições, das ações da Sunab para garantir o êxito do Plano Cruzado, cobriam os eventos esportivos, a agenda cultural da cidade. Dava ao pessoense a oportunidade de se ver todas as noites num telejornal.

Campina Grande, com a TV Borborema, teve uma emissora de televisão em 1963. João Pessoa demorou muito para ter o seu primeiro canal. Vivíamos do que as repetidoras nos ofereciam. Basicamente, do que era produzido no Recife. A chegada da TV Cabo Branco foi, portanto, um marco na vida da cidade.

O Câmera 7 era, por certo, um telejornal cheio de limitações. Mas era o resultado do esforço de uma equipe consciente de que desempenharia o papel histórico de por no ar a primeira emissora de televisão de João Pessoa.

Não posso mencionar todos os envolvidos, mas há alguns nomes que quero registrar:

Dos repórteres Joanildo Mendes, Saulo Moreno, Gisa Veiga, Karla Almeida, Naná Garcez e Ruth Avelino. Outros, que chegaram logo depois, ainda não estavam nesses primeiros dias.

Dos editores de imagens Carlos Alberto e Bernadete de Oliveira, que editaram comigo o Câmera 7.

Do editor geral, Erialdo Pereira, e do chefe de reportagem, Rubens de Abreu. Do gerente operacional, Cacá Martins.

Não havia computadores, muito menos internet. Usávamos máquinas de datilografia e um tele-prompter doméstico. Além de grandes fitas U-matic. As equipes que acompanhavam os repórteres tinham um cinegrafista, um operador de VT e um iluminador.

Muitos dos garotos e garotas da geração Y, que hoje dividem conosco os espaços de uma redação, ainda nem eram nascidos.