Mônica Salmaso ao vivo é coisa de raríssima beleza

Salmaso palco

Faz tempo que Mônica Salmaso frequenta minhas audições. Desde aquele disco no qual relê os afro-sambas de Baden e Vinícius, acompanhada pelo violão de Paulo Bellinati. Negócio difícil, mas muito bem-sucedido: regravar uma obra-prima indiscutível do nosso cancioneiro.

Rever o repertório de Chico Buarque também não é tarefa fácil. E Mônica enfrentou em “Noites de Gala, Samba na Rua”. Em estúdio e ao vivo. Os originais, que quase sempre a gente tem como definitivos, ressurgiram com novos timbres, novas cores. E como ficaram bonitos!

Mônica Salmaso. Belíssima voz, grandes escolhas de repertório, arranjos impecáveis, músicos virtuoses a acompanhá-la. Discos imprescindíveis. Notáveis participações em CDs de colegas. Uma joia rara nesse universo de tantas cantoras que ouvimos no Brasil das últimas duas décadas.

Chegamos, então, a “Corpo de Baile”. Um coleção de 14 canções da parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro.

Somente “Bolero de Satã” é mais popular por causa do dueto de Elis Regina com Cauby Peixoto no disco “Essa Mulher”, de 1979. As outras já gravadas são muito menos conhecidas. E há as inéditas (guardadas durante anos no baú de Paulo César Pinheiro), razão principal da existência desse projeto de Mônica Salmaso.

Ao disco, seguiu-se o show, visto nesta terça (06) e que volta a ser apresentado nesta quarta-feira (07) no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa.

No palco, ao lado de nove músicos, Mônica faz o repertório integral do disco. O show é primoroso, é excepcional. É perfeito! Os adjetivos serão todos insuficientes!

Uma valsa, uma modinha, uma marcha-rancho, um fado, um bolero, um tema nordestino. A tradição e a contemporaneidade. O popular e o erudito. Ou o popular tratado com felicíssima erudição. Um Brasil menos ouvido.

Algo que a gente viu em Villa-Lobos, ou em Tom, ou em Edu, ou em Hime. E vê em Guinga, autor de melodias refinadas, mestre nas harmonias do seu instrumento. Aliado aqui à poesia de Paulo César Pinheiro.

Disco guiado por um conceito. Na escolha dos arranjadores e na feitura dos arranjos. Na presença de músicos do nosso primeiríssimo time. Tudo transposto minuciosamente para o palco iluminado pelo vídeo cenário de Walter Carvalho, fotógrafo e cineasta que orgulha os paraibanos.

“Corpo de Baile” é um irretocável recital de feição camerística e tom onírico. A música é intensa. A luz, não. Ela é incomum. Talvez por causa da tela transparente que separa a cantora e seus músicos da plateia. Tela sobre a qual Walter Carvalho projeta sua “viagem”. Como se ele levasse para o teatro um pouco do seu cinema e nos dissesse que aquilo tudo, de tão bom, não parece ser real!