Retratos de uma época, “Vai Passar” e “Podres Poderes” atravessam o tempo

“Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e “Podres Poderes”, de Caetano Veloso, foram lançadas na mesma semana, em dezembro de 1984.

O Brasil estava às vésperas, com a eleição de Tancredo Neves, de encerrar o ciclo de presidentes militares iniciado em 1964.

Quando ouvi as duas canções, perguntei ao professor Jomard Muniz de Britto o que ele achava delas.

A resposta de Jomard: “enquanto Chico diz que vai passar, Caetano já está nos podres poderes”.

O tempo passou.

Em 2012, ao entrevistar Caetano Veloso por ocasião dos seus 70 anos, mencionei o comentário de Jomard, seu amigo desde os tempos do Tropicalismo, e ouvi do artista a seguinte resposta:

– Não tinha a menor ideia de que “Vai Passar” fosse do mesmo período de “Podres Poderes”. Esta última parece dizer que “não vai passar”, ou, pelo menos, perguntar se dá para sair da “incompetência da América católica”. Mas acho sempre dificílimo comparar canções de Chico com as minhas. As dele são bem feitas, há uma paz, uma coerência, uma sabedoria que as minhas desconhecem.

“Vai Passar” tem o formato de um samba enredo. “Podres Poderes” é um rock. As duas estão na antologia do nosso cancioneiro popular.

Numa semana em que Chico Buarque esteve em evidência por causa da sua ida ao Senado para acompanhar a defesa de Dilma Rousseff, achei oportuno contar essa breve história.