Glauber Rocha, o maior cineasta do Brasil, morreu há 35 anos

Nesta segunda-feira (22), faz 35 anos da morte de Glauber Rocha, o mais importante e controvertido de todos os cineastas brasileiros.

Lembro que, no dia seguinte à morte de Glauber, o Jornal do Brasil circulou com textos assinados pelos críticos Ely Azeredo e José Carlos Avellar.

Um deles mencionava o gênio do construtor, o cineasta que levou o cinema brasileiro a obter grande prestígio internacional com os filmes que realizou, sobretudo Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.

O outro artigo falava do mito do demolidor, a figura de opiniões polêmicas e discurso muitas vezes incompreendido, principalmente quando enxergava nos militares que tomaram o poder em 1964 um caminho que levaria o país à redemocratização.

Lembro das duas imagens registradas por Azeredo e Avellar porque temo que, ao longo dos anos, o mito do demolidor tenha se sobreposto ao gênio do construtor. O que, se é verdade, representa uma profunda injustiça com um cineasta do tamanho de Glauber.

O homem que fez Deus e o Diabo na Terra do Sol com pouco mais de 20 anos e estarreceu os europeus com seu filme não pode ser lembrado pelas falas desesperadas dos últimos anos de sua vida curta. O realizador que retratou o Brasil no país imaginário de Terra em Transe não pode ser avaliado como se ainda nos guiássemos só pelos confrontos entre esquerda e direita.

Prefiro a percepção que, de longe, Martin Scorsese tem do significado de Glauber Rocha. Cineasta e pensador do cinema, o americano de origem italiana vê e revê os filmes de Glauber e os apresenta aos seus atores.

É Martin Scorsese em oposição aos cinéfilos e homens de cinema que, entre nós, detratam Glauber, subdimensionam a sua obra e reforçam a tese de que, nele, o mito do demolidor é mesmo muito maior do que o gênio do construtor.

Melhor fundir os dois, enxergando em Glauber um cinema que nasceu da sua profunda inquietação criativa e da combinação desses elementos. O construtor e o demolidor, ambos movidos por uma grande ambição e um extraordinário desejo.

Nas imagens e nos sons que trazem Ford, Kurosawa e Villa-Lobos para o Sertão da Bahia em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Nas questões cruciais ainda não superadas pelo Brasil nessas quase cinco décadas que nos separam de Terra em Transe.

No delírio de A Idade da Terra, síntese do seu desespero e também da sua ousadia estética.

A ambição e o desejo de Glauber falam do cinema brasileiro e do nosso destino como Nação.

Raul Seixas é importante com virtudes e (alguns) defeitos

Neste domingo, faz 27 anos da morte de Raul Seixas.

Vindo de uma passagem pela Jovem Guarda, no início da década de 1970 ele deixou de ser chamado Raulzito para se projetar como uma das grandes expressões do rock brasileiro. O disco Krig-Ha Bandolo!, que o consagrou em 1973, não faz parte apenas das antologias do pop/rock nacional. É, com suas qualidades e seus defeitos, um dos discos fundamentais da nossa música popular.

Sou contemporâneo da explosão de Raul Seixas. Ouvi Krig-Ha Bandolo! com o entusiasmo da época e, logo em seguida, Gita. Mas não acompanhei sua trajetória com o interesse que tive pelos dois primeiros discos. Fui ouvi-lo de novo muito mais tarde. E já com o devido distanciamento.

Gosto de Raul sem concordar com alguns elogios que lhe são feitos. Não sou um admirador incondicional. Nem faço parte do grupo que o tem como um verdadeiro pensador, um filósofo. Claro que não. Prefiro enxergar nele um rocker talentoso e inteligente que promoveu o encontro de Elvis Presley com Luiz Gonzaga (dois dos seus ídolos) e obteve êxito nesta mistura maluca e improvável.

Antes de Krig-Ha Bandolo!, Raul Seixas frequentou as paradas com uma música que já confirmava esta fusão. Era Let Me Sing, Let Me Sing. Suas fontes eram de facílima identificação: de um lado, o rock primitivo dos anos 1950 e também as baladas da época; do outro, os ritmos nordestinos. No meio, um certo mau gosto (alguns chamarão de brega), oriundo do seu vínculo com a Jovem Guarda. Ou da admiração por um lado bem popularesco da nossa canção.

Os ingredientes que Raul jogava em seu caldeirão sonoro levaram muita gente a considerá-lo genial. Um exagero. Ele era apenas suficientemente habilidoso para fazer a mistura e superar suas limitações.

No blues, e depois no rock primitivo, os riffs e as melodias se repetem. Ganham novas letras, como se fossem outras músicas, e ninguém é chamado de plagiador. Raul Seixas usou e abusou do método.

Vamos conferir:

A Verdade Sobre a Nostalgia parece uma versão de My Baby Left Me. A introdução de Rock do Diabo é igual à de Honey Don’t. O refrão de Gita é como o de No Expectativas, dos Rolling Stones. As Minas do Rei Salomão dá a impressão de que estamos ouvindo o Dylan de I Want You.

Tem mais:

S.O.S. remete a Mr. Spaceman, dos Byrds, e Dia da Saudade, a Get Back, dos Beatles. Meu Amigo Pedro lembra um dos temas que Dylan compôs para o filme Pat Garrett & Billy the Kid. Algumas vezes, ele exagerava. Ave Maria da Rua incomodará o ouvinte se este pensar em I’ll Be All Right.

Uma frase de Raul fala de quem ele era: “finjo que sou cantor e compositor e todo mundo acredita”.

Reaudição de domingo: o melhor de Zé Ramalho num box com quatro CDs.

O recente concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba me leva a reouvir A Caixa de Pandora e a resgatar um texto em que comento o box e narro um reencontro com o artista.

Quatro discos oferecem uma síntese da carreira de Zé Ramalho. O autor e o produtor Marcelo Fróes escolheram um repertório que funde o que é previsível ao que não é.

Dois discos reúnem os sucessos. As canções retiradas dos primeiros discos de Zé reavivam a lembrança do instante em que ele se consolidou como um artista de dimensão nacional, na segunda metade da década de 1970. Conservam a beleza e a força originais. Atravessam o tempo. Permanecem colocadas aos nossos ouvidos e à nossa memória afetiva. É bom compará-las com as regravações da Antologia Acústica. Cada versão tem vida própria. As mais antigas flagram o artista num momento de intensa criatividade, com a voz jovem e os desejos da conquista. Aquelas feitas 20 anos depois trazem o distanciamento da maturidade.

A caixa segue com um disco dedicado ao intérprete. De Caetano, Gil, Milton, Tom, Roberto & Erasmo. Lá estão também Raul Seixas, Gonzaguinha, Renato Teixeira, Lulu Santos e Guilherme Arantes. Muitos fonogramas vieram do álbum duplo Estação Brasil. Zé e Fagner brilham na releitura de Amigo, de Roberto & Erasmo, transformada num choro canção que está entre as faixas inéditas.

O quarto disco é o das raridades. Nele aparecem algumas gravações feitas para o CD dedicado a Raul e não liberadas à época do lançamento. Nos últimos anos, nos trabalhos em que o intérprete se sobrepõe ao autor, temos a confirmação de que, ao gravar outros compositores, Zé Ramalho confere às canções um toque tão pessoal que algumas soam como se fossem suas. É uma marca registrada quando se debruça sobre repertório não autoral.

Reencontro Zé Ramalho. O artista no seu refúgio paraibano, na praia de Areia Dourada. A conversa tem a serenidade da passagem do tempo. As músicas interpretadas ao violão, no sofá da sua casa, mostram o autor na intimidade, com um registro vocal mais grave. Um privilégio ouvi-las assim bem de perto. E poder observar cada detalhe das performances. Elas são muito diferentes do que vemos no palco. Têm um despojamento que valoriza a beleza das melodias e realça a magia dos versos.

Zé continua apaixonado por tudo o que ouviu. Não apenas pela música que criou. Ele não perdeu o prazer de ouvir os artistas que admira desde a juventude. No reencontro com amigos dos anos 1970, faz como nos velhos tempos: promove uma audição repleta de comentários, tal como se fazia há mais de 40 anos nas intermináveis reuniões em que ouvíamos discos de vinil.

Imagens e sons de uma época. Os músicos com as canções que se transformaram na trilha sonora de nossas vidas. Uma revisão que mistura empolgação e nostalgia. E reafirma a convicção do quanto tudo aquilo foi e continua sendo essencial.

O anfitrião nos conduz a um passeio por números que estão retidos nas nossas memórias. Uma alegria poder compartilhá-los com um artista como Zé Ramalho!

Políticos choram a morte de Biuzinha. Há sinceridade nisso?

Tenho algo a dizer sobre a morte do ator Adeílton Pereira, que ficou conhecido em João Pessoa com o personagem Biuzinha. Ficou conhecido na TV Correio, no tempo em que o programa de Tony Show era um sucesso, e nos palcos, participando do Pastoril Profano.

Pois bem. No verão de 2013, estive com Adeílton durante uma transmissão ao vivo, lá mesmo na TV Correio, onde fui editor geral. Por trás da alegria do personagem, tive a sensação de estar diante de um homem triste, talvez amargurado pela luta que, creio, travava pela sobrevivência.

Estou equivocado?

Morreu Adeílton.

Na mídia e, sobretudo, nas redes sociais, vejo dezenas, talvez centenas de manifestações sobre o ator, o talento dele, o papel que desempenhou na nossa cena cultural, a falta que fará, etc.

Muitas são absolutamente sinceras, e é até fácil identificar as que são.

Outras incomodam. As de quem mistura a política (temos uma eleição daqui a pouco mais de 40 dias) com a morte do ator.

Essas, principalmente essas, incomodam, sim!

São manifestações verdadeiras ou tão somente busca de votos? Vêm de pessoas que fizeram algo por Biuzinha? Que reconheceram o seu talento de ator? Que tomaram alguma iniciativa concreta para que ele não parecesse o homem triste que vi naquela transmissão de TV?

Não sei.

Como não sei, não vou mencionar nomes, nem fazer afirmações. Estou apenas fazendo perguntas. Porque tenho, cá, as minhas dúvidas!

 

 

Arte de fotografar inspira canções. Às vezes, a música é uma fotografia

Mais uma homenagem ao Dia Mundial da Fotografia.

Agora, misturo a música com a arte de fotografar.

A primeira lembrança é de Desafinado, espécie de manifesto da Bossa Nova. Parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto. A famosa máquina alemã aparece no verso:

“Fotografei você na minha Rolleiflex, revelou-se a sua enorme ingratidão”

Quem imaginaria uma música com Rolleiflex na letra?

Paul Simon fez isso mais na frente em Kodachrome:

“Mamãe, não leve minha Kodachrome embora!”

Mas há também a música como fotografia. Música e letra, juntas, oferecendo ao ouvinte uma espécie de fotografia. O retrato de um instante. É esse o conceito. Como em Fotografia, de Tom Jobim:

“Eu, você, nós dois, aqui nesse terraço à beira-mar/o sol já vai caindo e o seu olhar/parece acompanhar a cor do mar”

Há muitas outras. Photograph (Ringo Starr), Retrato em Branco e Preto (Tom e Chico Buarque), Fotografia 3 x 4 (Belchior). Mas fico com essas duas, cada uma a sintetizar um caminho: a fotografia como inspiração (em Paul Simon) e a música como uma fotografia (em Tom Jobim).

Parabéns aos fotógrafos! 

 

 

 

 

 

Hoje é dia de homenagear os artistas da fotografia

Hoje (19/08) é o Dia Mundial da Fotografia.

Posto imagens que sempre me impressionaram, por razões distintas, como homenagem da coluna a todos os fotógrafos do mundo. Vivos ou mortos, próximos ou distantes. Verdadeiros artistas.

Esta foto, de 1958, ficou conhecida como A Great Day in Harlem. Nela, Art Kane reuniu 57 grandes nomes do jazz.

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Em 1963, Jack Ruby mata Lee Harvey Oswald, o suposto assassino do presidente Kennedy. A foto é de Robert Hill Jackson.,

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Em 1972, a garota vietnamita Kim Phuc, de nove anos, corre nua, queimada pelo napalm que os americanos usaram no bombardeio à sua aldeia. A foto é de Nick Ut.

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No registro de Kane, os músicos de jazz sabiam que estavam sendo fotografados. O de Jackson é um flagrante. O de Ut, também. Os três entraram para a história. E são dignos da lembrança no Dia Mundial da Fotografia.

Morreu Arthur Hiller. “Love Story” não é tão ruim quanto se dizia!

Morreu aos 92 anos o cineasta canadense Arthur Hiller. Não deixa uma filmografia importante, mas um filme o colocou na história do cinema. Mais pelo êxito comercial e pelas lágrimas que provocou do que por qualquer outra virtude.

Sim! Arthur Hiller é o diretor de “Love Story”.

A história, todos sabem. O rapaz rico se apaixona pela moça pobre, na universidade, e ela morre de leucemia. Tem a frase famosa (amar é jamais ter que pedir perdão), além dos temas musicais de Francis Lai. E tem os atores, jovens e belos, Ryan O’Neal e Ali MacGraw.

Baseado no livro de Erich Segal, “Love Story” levou multidões aos cinemas. Nas grandes salas daquele tempo, a última meia hora do filme era de um silêncio compungido. Um fenômeno que mereceu uma provocativa crônica de Nelson Rodrigues.

Lembro de um único crítico que elogiou “Love Story”. Paulo Perdigão, provavelmente. Enxergou aspectos além da história de amor. Uma crônica sobre a aristocracia em Harvard – algo assim.

De todo modo, vendo de longe, fica a impressão de que o filme não é tão ruim, nem tão piegas, como diziam na época os seus detratores.

A lua como inspiração, dos clássicos aos populares

A lua é cheia nesta quinta-feira (18). Uma leitora sugere uma lista de músicas que tenham a lua como inspiração. Essas escolhas são sempre incompletas e insatisfatórias. Mas faço uma, que amanhã já pode ser outra.

Começando pelos eruditos, há a Sonata ao Luar, de Beethoven, e Clair de Lune, de Debussy. A lua a inspirar um gênio absoluto, que passou pelo clássico e pelo romântico, e um impressionista.

No grande cancioneiro popular americano do século XX, é imediata a lembrança de Blue Moon e Fly Me To The Moon. A primeira, com Ella Fitzgerald. A segunda, com Frank Sinatra. Embora tenha recebido letra, é como tema instrumental que Moonlight Serenade foi imortalizada pela orquestra de Glenn Miller.

Nos Beatles, George Harrison fez Here Comes The Sun. Sozinho, compôs Here Comes The Moon. Paul McCartney fez C Moon. Os Rolling Stones, Moonlight Mile.

E na música popular do Brasil? A lista é extensa.

Desde o Catulo da Paixão Cearense de Luar do Sertão. Ou a Chiquinha Gonzaga de Lua Branca. Ou o Sílvio Caldas de Noite Cheia de Estrelas. “Lua, manda a tua luz prateada despertar a minha amada”.

O original é italiano, mas foi na voz de Celly Campello que Banho de Lua incorporou-se ao nosso cancioneiro, nos primórdios do rock nacional. E o “eu vou perguntar, se na lua há um broto legal pra me namorar”? É o jovem Roberto Carlos.

Caetano Veloso é logo lembrado por Lua de São Jorge. Mas ele também fez Lua, Lua, Lua, Lua. E Shy Moon. E Canto do Povo de um Lugar. “Quando a noite, a lua mansa, e a gente dança venerando a noite”.

E o Gilberto Gil de Lunik 9? A conquista espacial a ameaçar os poetas, os seresteiros, os sonhos dos namorados. “É chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”. Muito mais tarde, Gil diria que “a gente precisa ver o luar”.

Tem o nosso Cassiano, soul man, com A Lua e Eu. Tem o Milton Nascimento de A Lua Girou. O Chico Buarque de Mar e Lua. “Uma andava tonta, grávida de lua, e outra andava nua, ávida de mar”, verso de beleza infinita.

A lista já passa de 20 títulos. Está bom. Pelo menos para a lua cheia de hoje!

 

 

 

Ligia Amadio rege Sinfônica da Paraíba nesta quinta

A Orquestra Sinfônica da Paraíba se apresenta nesta quinta-feira (18), às 20h30, na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, do Espaço Cultural, em João Pessoa. A regência será da maestrina paulista Ligia Amadio.

Ligia Amadio

Neste concerto, que faz parte do projeto “Mulheres Regentes”, a OSPB executará a abertura da ópera “Fosca”, de Carlos Gomes, o Concerto Para Flauta e Orquestra, Op. 238, de Carl Reinecke, e a Sinfonia No 1 em Dó Menor, de Brahms.

O flautista Vítor Diniz será o solista do concerto.

Os ingressos custam R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia).

 

O dia em que Gilberto Gil comparou Campina Grande com Nova York

Nesta quarta-feira (17), o Jornal da Paraíba online está sendo apresentado em Campina Grande, durante um café da manhã.

O meu afeto pela cidade nasceu na infância. Cresci ouvindo as histórias contadas por minha mãe, que foi professora do Colégio das Damas no início dos anos 1950.

Mas quero, eu mesmo, contar uma história que envolve Campina Grande, da qual fui testemunha.

Maio de 1988.

Gilberto Gil estava em João Pessoa para fazer uma conferência sobre racismo no campus da UFPb. Depois do evento, foi à TV Cabo Branco gravar o programa “A Palavra É Sua”. Eu e Rômulo Azevedo atuamos como entrevistadores.

Gil conversou sobre música, política, respondeu às perguntas que gravamos com alguns telespectadores. Naquele ano, pretendia ser candidato a prefeito de Salvador, projeto que acabou não dando certo.

Terminada a gravação, Rômulo Azevedo disse a Gil que estava preparando um especial sobre Jackson do Pandeiro para a série “A Paraíba e Seus Artistas” e que gostaria de ter um depoimento dele.

Gil, sempre muito solícito, disse que sim e começou a falar sobre Jackson, por quem tem grande admiração. Foi aí que, ao lembrar de Jackson, lembrou de Campina e do seu espírito cosmopolita.

E fez a comparação que tanto envaidece os campinenses: