Com Usain Bolt no Brasil, dá vontade de ouvir reggae!

O velocista jamaicano Usain Bolt me motiva a reouvir o reggae. Claro que a partir de Bob Marley!

Não é de Marley, contudo, a primeira lembrança da Jamaica e da sua música. E sim das imagens e dos sons de “Dr. No”, o filme que, em 1962, inaugurou a série do agente 007. Ainda não é reggae o que ouvimos na aventura de James Bond, são algumas das suas fontes.

Reggae mesmo, ouvi quando o single “Vietnam”, de Jimmy Cliff, se incorporou à minha discoteca, por volta de 1970. E já ouvira, sem saber do que se tratava, em 1968, ano em que os Beatles gravaram “Ob-la-di Ob-la-da”. Uma versão branca do ritmo que Marley mostrou ao mundo.

A gravação dos Beatles não tem a “pegada” dos originais jamaicanos. Falta molho. Aponta, porém, para a força do fenômeno. E inaugura o que se consolidaria na década de 1970: a inequívoca adesão dos brancos à invenção que veio da Jamaica.

Paul Simon, Paul McCartney, Rolling Stones, Eric Clapton, Elton John, Led Zeppelin, Bob Dylan. Todos gravaram o reggae.

Numa entrevista que me deu há uns 25 anos, Cliff fez duras críticas à versão branca do reggae, mas não custa reconhecer que os grandes nomes do pop/rock internacional ajudaram a popularizar ainda mais a música criada pelos negros jamaicanos.

O melhor do reggae está em Marley, nos discos que gravou durante a década de 1970. Eles sintetizam a força do ritmo que os jamaicanos ofertaram ao mundo da música popular, exercendo uma influência notável sobre muito do que foi produzido depois por negros e brancos.

Cliff pode até ter razão na crítica ao que os astros brancos do pop/rock fizeram com o reggae. Pode estar certo ao afirmar que ninguém faz tão bem quanto os negros, que criaram e têm o domínio total da fórmula. Mas é necessário admitir que a adesão de artistas como Clapton e Dylan, Beatles e Stones, deu uma projeção internacional ao ritmo jamaicano que não pode ser desconsiderada.

O primeiro artista brasileiro a colocar a palavra reggae na letra de uma canção foi Caetano Veloso. Em “Nine Out of Ten”, composta e gravada no exílio londrino. Está no LP “Transa”, de 1972. A descoberta, no entanto, não foi dele, e sim de Gilberto Gil em suas andanças pela Londres da virada dos anos 1960 para os 1970.

Mais tarde, Gil verteria para o Português “No Woman No Cry”, do repertório de Bob Marley, que, em 1979, nos extertores da ditadura brasileira, transformou-se num dos hinos da anistia. Foi ele que apresentou o reggae a Dominguinhos, durante a turnê “Refazenda”, e ouviu do sanfoneiro uma definição tão simples quanto verdadeira: “É um xotezinho safado”.

O comentário de Dominguinhos remete a uma semelhança fácil de ser constatada. E antecipa o que ocorreria muito tempo depois. No início dos anos 2000, Gil gravou dois tributos: um a Luiz Gonzaga, o outro a Bob Marley. Um deu sequência ao outro. Mais do que isto: em algumas versões das músicas de Marley, Gil inseriu elementos da música nordestina. No ritmo, na melodia, até no uso da sanfona.

Mesmo que muitos cantem e toquem reggae no Brasil, é de Gilberto Gil o mérito de tê-lo difundido entre nós. Sua versão de “No Woman No Cry” acabou por incorporar-se ao seu repertório como se a canção tivesse sido escrita por ele.