Há algo de Chuck Berry em Jackson do Pandeiro! Mesmo que um não conheça o outro

Há algo de Chuck Berry em Jackson do Pandeiro, que, se estivesse vivo, faria 97 anos nesta quarta-feira (31). Mesmo que um nunca tenha ouvido a música do outro.

Desconfiei da semelhança quando vi, há quase 30 anos, o documentário “Hail! Hail! Rock‘n’Roll”.  

A estupenda riqueza rítmica. O jeito de fazer a divisão no canto. A performance no palco. Alguma coisa que há em Berry, há também no nosso Jackson. Até uma certa semelhança física.

Em 2013, gravei um depoimento de Gilberto Gil para o documentário que Marcus Villar e Cacá Teixeira realizam sobre Jackson do Pandeiro. Não resisti. Falei dessa semelhança. Gil não discordou. E até usou argumentos que reforçam a tese.

Viva Chuck Berry!

Viva Jackson do Pandeiro!

Um viva aos reis do ritmo!

Fiquemos, então, com um pouco de Chuck Berry:

E de Jackson do Pandeiro:

De Collor a Dilma: 24 anos é muito pouco para um novo impeachment!

Para os da minha geração (sou de 1959), o impeachment entrou em nossas vidas durante o caso Watergate, no segundo mandato do presidente americano Richard Nixon, na primeira metade da década de 1970. O desfecho, todos conhecem: Nixon renunciou para não sofrer o impedimento.

Está tudo muito bem contado no filme “Todos os Homens do Presidente”, de Alan Pakula. Boa aula de história contemporânea. Obrigatório para nós, jornalistas.

O impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, trouxe o tema para o nosso lado. O primeiro presidente eleito pela via direta depois do golpe de 64 perdeu as condições de governar e foi retirado do poder numa articulação que ia da esquerda (José Genoíno) à direita (Roberto Campos).

Tudo foi mais rápido e mais simples do que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Collor ficou só, com uma diminuta tropa de choque. Entre a votação na Câmara e o afastamento, se passaram três ou quatro dias. Três meses depois, veio o julgamento final. Na abertura da sessão do Senado, foi lida a carta renúncia do presidente, mas esta não impediu a condenação.

No dia 29 de dezembro de 1992, antes de saber da renúncia de Collor, o Brasil soube do assassinato da jovem atriz Daniella Perez, ocorrido na noite anterior. O crime dividiu os espaços da mídia com o impeachment.

Na noite de 29 de dezembro, enquanto o Senado julgava o presidente, a Rede Globo exibiu o especial com o reencontro de Antônio Carlos Jobim e João Gilberto, que não tocavam juntos desde a Bossa Nova,

Somente 24 anos se passaram e estamos outra vez às voltas com um impeachment.

O intervalo de tempo entre Collor e Dilma, do ponto de vista da História, é muito curto. Mesmo que tenhamos maturidade democrática para o que está ocorrendo, e ainda que se concorde com a saída dela, não é saudável banalizar um instrumento como o que está sendo utilizado para tirar Dilma do poder.

Em 1992, eu tinha 33 anos. Hoje, tenho 57. Nunca pensei que viveria para testemunhar outro impeachment no Brasil.

Sinfônica da Paraíba toca nesta quinta. Concerto para viola é destaque no programa

A Orquestra Sinfônica da Paraíba realiza concerto nesta quinta-feira (01/09).  Será às 20h30 na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, no Espaço Cultural José Lins do Rego.

A OSPB será regida por seu maestro titular, Luiz Carlos Durier, e terá como solista o violista Gabriel Polycarpo.

Luiz Carlos Durier

No concerto desta quinta-feira, a Orquestra Sinfônica da Paraíba executará três preças:

“Romeu e Julieta – Suíte No 2 para Orquestra”, de Sergei Prokofiev.

“Concerto para Viola e Orquestra em Sol Menor”, de Cecil Forsyth. Solista: Gabriel Polycarpo.

“Sinfonia No 1 em Ré Maior”, de Schubert.

Engajamento de Chico Buarque não deve interferir no julgamento da sua arte

O jornalista Reinaldo Azevedo, blogueiro da Veja, disse que a figura mais patética da sessão desta segunda-feira (29) no Senado não era a presidente Dilma, nem o ex-presidente Lula. Era Chico Buarque. O artigo desrespeita o direito do artista ao engajamento político.

A presença de Chico no Senado faz pensar na figura do artista engajado que ele sempre foi.

Quem acompanha de perto a sua trajetória sabe muito bem que o tempo todo ele esteve alinhado às lutas da esquerda brasileira. Chico se comporta como um homem de partido (não me refiro ao PT), fiel a escolhas ideológicas e a projetos.

A ida ao Senado, no momento em que a presidente Dilma se defende das acusações que lhe são feitas, é expressão legítima do seu engajamento. Não traz nenhuma surpresa. E merece todo o respeito.

Chico Buarque no Senado me faz pensar não só no quanto é legítimo o engajamento dos artistas. Mas também no quanto essa postura não deve interferir no julgamento que se faz da sua arte.

Chico é um dos grandes compositores populares do Brasil. Seu cancioneiro, maior do que as atitudes do artista engajado que ele tem o direito de ser, sobreviverá ao nosso tempo.

Chico é grande pelas canções que compõe. Não importa se você aprova o apoio dele a Dilma.

Arte é arte. Engajamento de artista é outro negócio. É direito do cidadão livre. Não misturo as duas coisas.

A Beatlemania acabou há 50 anos. Os Beatles, não!

Nesta segunda-feira (29), faz 50 anos que os Beatles abandonaram as turnês. O último show deles foi também numa segunda-feira, 29 de agosto de 1966, no Candlestick Park, em São Francisco, na Califórnia.

Beatles final concert

Ao dizer que a Beatlemania acabou há 50 anos, refiro-me, claro, ao fenômeno de massa marcado pela histeria coletiva, pelos jovens que se rasgavam pelos quatro integrantes do grupo, pela fase mais ingênua do trabalho deles. Por um negócio que se consolidou sobretudo a partir de fevereiro de 1964, quando os Beatles conquistaram a América e, por consequência, o mundo.

O fim das turnês foi provocado por um esgotamento do formato adotado no momento em que os Beatles chegaram ao topo das paradas, mas também, e principalmente, pela evolução da música deles e a dificuldade que passaram a ter de executá-la ao vivo.

Quando se apresentaram no Candlestick Park, os Beatles tinham acabado de lançar o LP “Revolver”. Estavam a menos de um ano do “Sgt. Pepper”. A música deles nunca mais seria a mesma.

Recorro à Ultimate Beatles Encyclopedia, organizada por Bill Harry, para pequenos registros sobre o show de 29 de agosto de 1966:

O Candlestick Park é um campo de baseball.

A segurança do local foi feita por 200 policiais.

O mestre de cerimônias foi o DJ Gene Nelson.

Tony Barrow gravou o concerto usando um gravador Philips.

Os Beatles abriram o show às 9:27 com “Rock and Roll Music”.

Encerraram às 10:00 com “Long Tall Sally”.

O concerto foi assistido por cerca de 25 mil pessoas.

Jim Marshall atuou como fotógrafo oficial do evento.

No voo após o show, George Harrison pronunciou uma frase que resume tudo:

“Bem, é isso. Eu não sou mais um Beatle!”.

“O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”

Dilma

A frase do título não é minha.

Foi o que, numa entrevista à TV Cabo Branco, o senador paraibano Antônio Mariz me disse, ao telefone, quando escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor. Era início de outubro de 1992, Collor acabara de ser afastado após a votação na Câmara e, antes do final daquele ano, não seria mais presidente.

Lembro das palavras de Mariz nesta segunda-feira (29), o dia em que a presidente afastada Dilma Rousseff vai ao Senado, a um ou dois dias da votação que deverá retirá-la, em definitivo, da presidência da república.

Lembro como reflexão sobre o instante grave que o Brasil vive.

As palavras de Mariz soam, aos meus ouvidos, como uma espécie de antídoto à banalização de todas as coisas.

Sim! “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”. Não importa se você é contra ou a favor.

Para mim, o fim do atual ciclo petista é o retrato do fracasso de um projeto da esquerda brasileira. E isso é melancólico.

Filho de comunista, cresci sob governos de exceção num ambiente em que se sonhava com ideias generosas. Mais tarde, a chegada de Lula ao poder era um acontecimento extraordinário. Com ele, vieram as conquistas sociais que testemunhamos, num país que já passou da hora de reequacionar a questão da distribuição de renda.

A constatação de que, nos piores quesitos, o PT acabou por se revelar igual ao demais, põe por terra os sonhos de muitos de nós que crescemos sob a ditadura iniciada no golpe de 64.

Volto ao senador Antônio Mariz: “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”.

Tanto faz se você é contra ou a favor. Não há o que comemorar!

Sem os velhos, o novo seria uma impossibilidade, me disse Egberto Gismonti

No post anterior, falei do dia em que deixei de conversar com a única brasileira que gravou com os Beatles para levar minha avó Stella ao camarim de Egberto Gismonti. Agora, conto a segunda parte da história, mais ou menos como registrei no meu livro “Meio Bossa Nova, Meio Rock’n’Roll”: 

O Pixinguinha 1979 aconteceu no Cine Santo Antônio, em Jaguaribe, adaptado para receber o elenco do projeto. Lizzie Bravo nos conduziu ao camarim, adaptado nos fundos do cinema, por trás da tela. A conversa foi rápida, mas suficiente para que Gismonti ouvisse da minha avó que ali, naquele show, ela tivera a mais intensa experiência musical da sua longa vida.

Egberto pareceu profundamente tocado com o que ouvira, sobretudo porque as palavras – creio – eram pronunciadas por uma pessoa cuja idade (80 anos), em tese, dificultaria a compreensão daquele tipo de trabalho. Eu próprio, que conhecia o gosto musical da minha avó, fiquei surpreso ao vê-la fascinada por Gismonti.

O show de Egberto Gismonti era extraordinário. No velho cinema, a poucos metros de casa, todas as noites, durante uma semana inteira, podíamos ver de perto a melhor música instrumental que se produzia no Brasil. Olívia Byngton e Marlui Miranda também estavam no palco, com vozes expressivas, mas o principal era Gismonti e o trio Academia de Danças.

Egberto produzia sons de um Brasil profundo, no momento em que largara os instrumentos eletrônicos e voltara a uma formação acústica. As improvisações eram jazzísticas. O músico, um virtuose. Por trás da contemporaneidade e do olhar para o futuro, estava o passado. De um lado, Villa-Lobos; do outro, as valsas que o avô escrevia em Carmo, a cidade onde nasceu.

O que encantara minha avó no som tão contemporâneo de Egberto Gismonti?

A demonstração inequívoca de que estávamos diante de um grande músico?

Ou a presença da tradição por trás (ou por dentro) da modernidade do que fazia?

As duas coisas, talvez. Ou uma outra: que, no fundo, não há barreiras para se ouvir música.

O fato é que, naquele encontro por trás da tela do Cine Santo Antônio, nasceu uma relação de amizade viabilizada pela sensibilidade musical.

Quando minha avó morreu, cinco anos mais tarde, guardei as cartas que ela recebeu de Gismonti, bem como o registro, feito pela câmera sensível do fotógrafo paraibano Gustavo Moura, do último encontro dos dois, na casa dela, em setembro de 1983.

Stella e Gismonti

Muitos anos depois, ouvi de Egberto que a relação com os velhos mudou a sua vida. Logo ele, que trouxe tanta coisa nova para a música do Brasil. Sim, justamente ele, que sabe que, sem a presença dos velhos, o novo seria uma impossibilidade.

 

Estive com a brasileira que gravou com os Beatles e não conversei com ela

Estive com a única brasileira que gravou com os Beatles, cara a cara, e não pude conversar com ela. É Lizzie Bravo. Vocês conhecem a história dela?

Lizzie

Lizzie foi para Londres no início de 1967, com pouco mais de 15 anos. Com uma amiga que já estava lá, passou a dar plantão em frente ao estúdio dos Beatles. A histeria da Beatlemania havia passado, e não havia mais garotas se rasgando por eles nas ruas.

Lizzie passou a ver os Beatles chegando e saindo do estúdio. Cumprimentava, tirava fotos, conversava.

Um ano mais tarde, no começo de 1968, foi abordada por Paul McCartney. “Você é capaz de dar uma nota aguda?”, perguntou Paul. Ou algo assim.

Lizzie e outra garota terminaram no estúdio fazendo vocais na gravação de “Across the Universe”, canção de John Lennon que os Beatles estavam gravando para um projeto do Unicef.

É tudo verdade.

Se formos à “Ultimate Beatles Encyclopedia”, organizada por Bill Harry, a história está lá. “Bravo, Lizzie” é um dos verbetes. A gravação foi no dia quatro de fevereiro de 1968.

Se consultarmos “The Complete Beatles Chronicle”, de Mark Lewison, também temos o registro da participação de Lizzie Bravo em “Across the Universe”.

Voltando ao começo. Estive com Lizzie Bravo, frente a frente, e não pude conversar com ela.

Foi em 1979. Egberto Gismonti fazia show no Projeto Pixinguinha, em João Pessoa. No último dia da temporada, levei minha avó Stella, então com 80 anos, para conhecer Egberto. Ela ficara encantada com a música dele.

Na porta do camarim, fomos recebidos por Lizzie, que era da trupe de Gismonti. Reconheci na hora. Olhei pra ela e disse: “Você é Lizzie, a garota que gravou com os Beatles!”. Ela confirmou e perguntou como eu sabia. Eu respondi: “Ora, sou louco pelos Beatles!”.

Mas não deu para continuar a conversa. A prioridade era levar minha avó para ver Egberto Gismonti.

Valeu a pena. Naquele encontro, nasceu uma belíssima amizade. Mas isso já é uma outra história.

Se “Aquarius” é o melhor, deve mesmo ser o Brasil no Oscar! Por que não?

“Aquarius”, o novo filme de Kleber Mendonça Filho, terá lançamento nacional na próxima quinta-feira (01/09). Já chega cercado por algumas polêmicas.

Em Cannes, o filme virou notícia porque Kleber e equipe fizeram um protesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Não é preciso concordar, mas a manifestação é legítima, sim!

Depois, veio a questão da classificação. A produção almejava 16 anos. O Ministério da Justiça deu 18 anos. Retaliação? Se foi, é simples, depõe contra o governo Temer.

Agora, o Oscar. “Aquarius” será o representante do Brasil na disputa do melhor filme estrangeiro? O governo brasileiro atuará politicamente para evitar que isso aconteça? Dois filmes (“Boi Neon” e “Mãe Só Há Uma”) já se retiraram em favor de “Aquarius”.

Minha opinião: se “Aquarius” é mesmo o melhor filme brasileiro da temporada (vamos conferir!), deve ser o nosso representante no Oscar. O receio do governo Temer de que Kleber Mendonça Filho comande um protesto durante a cerimônia revela o quanto são atrasadas e mesquinhas as nossas relações políticas.

Antes de “Aquarius”, Kleber Mendonça Filho realizou “O Som ao Redor”. Um grande filme, no nível do que se faz de melhor no mundo inteiro.

O cinema de Kleber Mendonça Filho engrandece o Brasil!

Deixem o cineasta se manifestar livremente!

A livre manifestação dele também nos engrandece!

Divulgar números seria marketing contrário, diz presidente da Academia de Cinema

O presidente da Academia Paraibana de Cinema, Moacir Barbosa, explicou porque a comissão eleitoral decidiu não divulgar os números da eleição realizada nesta quinta-feira (25) para preencher a cadeira que ficou vaga com a morte do cineasta Linduarte Noronha.

Moacir me disse ao telefone que divulgar os números seria fazer marketing contrário.

Podemos, então, concluir que o problema foi o reduzido número de votantes (12 num universo de 50)?

Recapitulando: ontem, no início da noite, um dos integrantes da comissão eleitoral me disse que o vencedor foi Cláudio Marzo Cavalcanti de Brito, mas que os números não seriam divulgados.

Registrei aqui na coluna e questionei a decisão, absolutamente incompatível com a transparência que exigimos de todos.

Hoje cedo, o vice-presidente da entidade, Wills Leal, forneceu os números e afirmou que discorda da decisão de não divulgá-los.

O resumo: no quesito eleição, a Academia Paraibana de Cinema tirou zero!