Moacir Santos faria 90 anos nesta terça. A Paraíba lhe deve uma homenagem

Se fosse vivo, Moacir Santos faria 90 anos nesta terça-feira (26). A despeito de ter sido um dos nossos maiores músicos, ele permanece praticamente desconhecido. Tenho a tentação de dizer: coisas do Brasil, mas não gosto da expressão usada assim. Prefiro a lembrança dele e da sua música.

Moacir Santos nasceu em Pernambuco, mas se fez homem e músico na Paraíba. Tocando em João Pessoa, na banda da Polícia Militar e na Rádio Tabajara. Entra governo, sai governo, ninguém lembra disso. A banda Ouro Negro nunca foi chamada para tocar aqui. Já tocou no Recife.

Quando foi para o Rio, Moacir se consolidou como arranjador, compositor e professor de músicos. Ensinou música a quase todos os grandes nomes que fizeram a Bossa Nova. Sérgio Mendes, João Donato, Baden Powell, muitos foram seus alunos. Sivuca foi seu aluno!

Ele escreveu um conjunto de peças sem nome e as chamou de “coisas”. Como na música erudita, deu número a cada uma delas. O resultado é o disco “Coisas”, um dos mais importantes da música instrumental que os brasileiros produziram. Um legado que Moacir nos deixou antes de ir para os Estados Unidos.

Foi e não voltou. Fixou-se na Califórnia, onde morreu há uma década. Os americanos o chamaram “The Maestro”, nome de um dos discos que gravou por lá.

Voltava para ver amigos. Tive a alegria de ser um deles. Ficava numa casa simples no bairro de Jaguaribe, aqui em João Pessoa. Conversava horas e horas sobre música e teosofia. Era um ser especialíssimo. Se há homens iluminados, Moacir era um deles!

Talvez o Brasil não o compreenda porque ele era um músico de músicos. Para músicos. A África das matrizes, o Brasil dos sambas e a América do jazz se fundem na arte refinadíssima que produziu.

Vou resumir com uma pequena história. No ano passado, no Recife, cumprimentei Wynton Marsalis no Museu do Passo. Após um “Mr. Marsalis”, mostrei uma foto de Moacir Santos no celular. O americano exclamou, prontamente: “Ah! Moacir Santos!”. Como quem diz: sim, esse aí eu conheço, esse aí eu sei quem é.

E, diante daquele gigante do jazz, eu não resisti: “he was my friend, he was my brother!”.

Salve Moacir Santos! Salve sua Nanã!

Nunca houve um Tarzan como Johnny Weissmuller

Vários atores fizeram no cinema o papel de James Bond, mas, para uma legião de cinéfilos, ninguém tem o charme de Sean Connery em seus seis filmes (há um sétimo fora da franquia) como o agente 007.

O mesmo vale para Tarzan. Há diversos: de Elmo Lincoln (o primeiro) a Alexander Skarsgard (o atual), passando por Lex Barker, Gordon Scott, Ron Ely e Christopher Lambert.

Mas nunca houve um Tarzan como Johnny Weissmuller, que viveu o personagem em seis filmes da Metro (os mais importantes) e mais seis na RKO. Isto, entre 1932 e 1948.

Antes de ser Tarzan, Weissmuller foi campeão olímpico de natação na década de 1920. O primeiro filme foi “Tarzan, o Filho da Selva”, de 1932. Também é o primeiro dos seis em que contracenaria com Maureen O’Sullivan no papel de Jane, sua companheira.

Johnny Weissmuller, que também foi Jim das Selvas antes de se transformar num astro em declínio, certamente não era um grande ator. Nem precisava. Basta que ele seja lembrado como o homem que, na tela grande dos cinemas, deu vida ao personagem criado pelo escritor Edgar Rice Burroughs.

E ainda havia o inigualável grito de Tarzan:

Cássia Eller não era só do rock. Nunca é tarde para ouvir sua voz

Depois de “Elis, a Musical”, o público de João Pessoa vai ver “Cássia Eller, o Musical”. O espetáculo fica em cartaz sexta (29), sábado (30) e domingo (31) no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural.

Cássia Eller entrou em cena quando o rock brasileiro dos 1980 começava a sair. Marisa Monte lançava seus primeiros discos e oferecia um modelo de ecletismo que os ouvintes da MPB talvez não enxergassem em Cássia Eller porque o negócio desta parecia ser só o rock. Não era. Ela, de fato, tinha uma “pegada” rock’n’ roll predominante em boa parte do que gravou, mas seus discos estão cheios de registros que apontam para várias direções.

De Ataulfo Alves a Itamar Assumpção, de Chico Buarque a Arrigo Barnabé, de Edith Piaf a Otis Redding, de Caetano Veloso a Djavan, de Riachão a Gilberto Gil. Com a vantagem de que, nela, a diversidade soa mais espontânea, muito menos planejada.

Nos anos 1990, Cássia Eller gravou muito rock brasileiro da década anterior. Dedicou um disco inteiro a Cazuza (“Veneno AntiMonotonia”), interpretou Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Titãs. Atualizou o repertório deles, recriou, tirou a “pasteurização” que marcou tão negativamente as gravações da década de 1980.

Através da sua voz, em versões fortes e personalíssimas, o rock dos 1980 ficou em evidência quando a onda já havia passado. Ganhou uma outra sonoridade. “Malandragem” foi um grande hit após a morte do seu autor, no registro desta cantora que interpretava Cazuza e Renato Russo como se os olhasse a distância, com jeito de fã, embora tivesse quase a mesma idade deles.

Gosto muito do que Cássia Eller canta em Inglês. Ela foi felicíssima ao gravar Beatles. Incorporou seu toque, não repetiu, foi criativa – do McCartney de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” ao Lennon de “Julia”, do Paul de “Get Back” ao John de “Come Together”. Ou da balada feminista “Woman Is the Nigger of the World”.

Também gravou Jimi Hendrix (“If Six Was Nine”, “Hear My Train a Coming”, “Little Wing”) e Otis Redding (“Try a Little Tenderness”). Quando foi para o Francês, surpreendeu seu público cantando Edith Piaf. É “Non, Je Ne Regrete Rien” que abre o “Acústico MTV”, o último disco que gravou. Com a formação unplugged, percorreu o país em 2001, na derradeira excursão que realizou.

Com Cássia Eller, “Oriente”, de Gilberto Gil, virou um blues. “Saudade Fez um Samba”, de Carlos Lyra, é bossa mesmo. Não são fonogramas da discografia oficial. Estão em songbooks. São bons porque apontam para outros caminhos fora do rock. Como “Partido Alto”, de Chico Buarque, que está no disco acústico, e “Gatas Extraordinárias”, de Caetano Veloso, que aparece em “Com Você, Meu Mundo Ficaria Completo”, seu último disco de estúdio.

Nunca é tarde para ouvir (e reouvir) Cássia Eller.

Os Rolling Stones caíram no samba com Gilberto Gil e Moacir Santos

Moacir Santos contava, se provocado, que um dia tocara com os Rolling Stones em Los Angeles. Não sabia direito como. Mencionava que havia um prato em suas mãos durante a execução de algo que lembrava um samba. Não lhe parecia relevante.

Gilberto Gil conta que tocou com os Rolling Stones junto com Moacir Santos e outros brasileiros. Com um tamborim nas mãos, caiu no samba no último número do show. Era “Sympathy for the Devil”, que Mick Jagger e Keith Richards compuseram em 1968, depois de umas férias no Brasil.

Som e imagem estavam guardados no cofre dos Rolling Stones e agora podem ser vistos num dos volumes da série “From the Vault”. No combo “L.A. Forum”, com dois CDs e um DVD, temos a íntegra de dois shows gravados em julho de 1975, época em que o guitarrista Mick Taylor fora substituído por Ronnie Wood. Na performance que está no DVD, “Sympathy for the Devil” se aproxima do samba por causa da presença dos músicos brasileiros.

São imagens inusitadas. Enquanto os Stones estão em cena, executando a música que eles acreditam ser um samba, um grupo de pessoas dança e toca instrumentos de percussão por trás do palco. No escuro, é difícil identificá-las. Até que Mick Jagger vai a elas e as puxa para a frente, formando uma espécie de “trenzinho”. Lá estão Gilberto Gil, de branco, com um tamborim, e Moacir Santos, sorridente, com uma camisa de cores fortes e um prato nas mãos.

Claro que o episódio não acrescenta nada à trajetória dos Rolling Stones, nem à música de Gil e de Moacir. Mas chama a atenção de quem admira os três. E nos traz a lembrança do músico extraordinário e da figura humana especialíssima que foi Moacir Santos. “The Maestro”, que preferia o jazz ao rock e justificava: aquele tem células musicais mais desenvolvidas do que este.

Se estivesse vivo, Moacir Santos faria 90 anos nesta terça-feira (26).

O vídeo é longo. Os brasileiros aparecem depois dos seis minutos.

Amy morreu há cinco anos. “Back to Black” é seu legado

Neste sábado (23), cinco anos da morte de Amy Winehouse.

A branca que tenta cantar como os negros, a carreira curta, a discografia mínima, os excessos, a morte aos 27. Muito nela remete a Janis Joplin.

A soul music está nas duas, mas não há em Amy os blues de Janis. Nem em Janis o jazz de Amy.

Os tempos são muito diferentes. Janis era mais “diamante em estado bruto”, uma espontaneidade que se perdeu. Amy passa por uma produção impecável que resulta em “Back to Black”, a rigor, o único disco que fica como legado.

“Frank” esboça as coisas. É como se fosse um rascunho. Sugere a cantora que ouviríamos mais tarde. “Back to Black” traz a artista que conquistou dimensão internacional.

E é um álbum excepcionalmente bem produzido. Soul music com a sonoridade do século XXI e jeito de coisa velha. Não se perde uma faixa!

Grande voz, grande banda, arranjos muito bem feitos, canções irresistíveis.

Está naquele livro sobre os 1001 discos que a gente tem que ouvir antes de morrer: a Amy de verdade é, para a música, a salvadora do soul.

Morte de Lidoka faz lembrar do “solte suas feras” das Frenéticas

Morreu Lidoka, uma das seis integrantes da formação original do grupo As Frenéticas. Tinha 66 anos e lutava contra um câncer.

O grupo lançou poucos discos e teve vida curta, mas marcou o Brasil do final da década de 1970 com sua alegria.

A morte de Lidoka remete ao tempo das Frenéticas.

Por trás delas, está Nelson Motta. Ele e sua discoteca, a Frenetic Dancin’ Days.

Por trás de tudo, está um país que se debatia para reconquistar o estado de direito, guiado por um processo de abertura lento e gradual.

A música, no meio desse cenário. As patrulhas ideológicas, também. Os que só viam contestação à ditadura naquilo que tinha uma espécie de selo. O que não tinha, não valia.

Mas como valia!

No “solte suas feras” da letra de Nelsinho Motta. No “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” da canção de Caetano. No salario mínimo de cintilância proposto por Gil em “Realce”. Na Banda do Zé Pretinho comandada pelo Jorge que ainda não era Benjor.

“Sei que eu sou bonita e gostosa/sei que você me ama e me quer”. Quando As Frenéticas cantaram “Perigosa” (novamente Nelsinho + Rita Lee e Roberto de Carvalho), até Drummond não resistiu.

Os que caíram na gandaia também cantaram por (e sonharam com) um Brasil melhor!

 

Erialdo Pereira e suas lições

Erialdo

Morreu Erialdo Pereira.

O amigo, conheci em 1978. Um colega de escola me disse: “você, que vai fazer jornalismo, precisa conhecer meu irmão”.

Era Erialdo. Estava voltando do Rio, anos no Jornal do Brasil, recomeçando a vida em João Pessoa. Tinha o cabelo black power, a barba fechada e a ideia de fazer um filme sobre nosso poeta Caixa D´Água. Tomávamos cerveja e comíamos pipoca num lugar chamado La Cave, ali na Padre Meira.

O profissional, conheci na TV Cabo Branco. Foram 18 anos de convivência e muito aprendizado. Ele, na editoria geral. Eu, na chefia de redação.

Quando olho, de longe, para aquele tempo, me vem o ensinamento: “nunca devemos ser açodados”. Sempre que sou, na vida ou no trabalho, fico profundamente arrependido.

Erialdo formou equipes. Mais do que isso: formou profissionais. E desempenhou papel fundamental na consolidação do jornalismo das TVs Cabo Branco e Paraíba. Sempre guiado – e a nos guiar – por valores e conceitos permanentes, mas cada vez mais escassos.

O gosto pelo bom texto. A informação correta. O esforço contínuo contra o erro. O senso ético. A ponderação. O debate permanente sobre os conteúdos produzidos.

E a frase que sempre voltava nas conversas, a voz por vezes quase inaudível: “nunca devemos ser açodados”.

Tínhamos uma brincadeira: um dizia que faria o necrológio do outro. Estou eu aqui tentando fazer o dele. Mas as palavras não são suficientes.

 

Cátia de França faz show em João Pessoa para lançar seu novo disco

Hoje (22/07) é dia de rever Cátia de França ao vivo em João Pessoa. A compositora se apresenta às 20h00 na sala de concertos José Siqueira, no Espaço Cultural.

Ela está lançando seu novo disco, “Hóspede da Natureza”. O show terá as participações de Totonho e Seu Pereira.

Cátia de França é uma das artistas mais talentosas da música popular produzida pelos paraibanos.

Ela vem de longe. Despontou no final dos anos 1960, ainda na era dos festivais e, mais tarde, conquistou dimensão nacional quando gravou os discos “20 Palavras ao Redor do Sol” (1979) e “Estilhaços” (1980).

A discografia de Cátia não está à altura do seu trabalho. Infelizmente, ela gravou muito menos do que merecia. Por isso, festejemos o fato de que está de disco novo.

 

Chico César diz que está recebendo ameaças dos ruralistas depois de cantar em Fátima Bernardes

Hoje (21/07) cedo, no meu post anterior, comparei dois vídeos: “The Sweetest Thing”, do U2, e “Mama África”, de Chico César. Como a música do U2 é de 1987, e a de Chico, de meados dos anos 1990, sempre achei que o vídeo de “The Sweetest Thing” pudesse ter inspirado o de “Mama África”, já que os dois são muito parecidos.

Mas um colega de redação me alertou: o vídeo do U2 foi feito 11 anos depois da música (em 1998) para um relançamento. Então, se um inspirou o outro, foi o U2 que tomou como parâmetro o nosso Chico César.

O post acabou provocando uma conversa minha com Chico César através do Facebook. E, aí, entrou em cena um outro tema: a canção “Reis do Agronegócio” (letra de Carlos Rennó).

Estou impressionado com a força e a beleza da música, que é uma autêntica protest song e remete, naturalmente, ao jovem Bob Dylan. Na extensão da letra, no acompanhamento ao violão e em algumas inflexões da voz.

Chico cantou a música no programa de Fátima Bernardes e anda recebendo ameaças dos ruralistas, me contou na conversa no Facebook, que reproduzo aqui para dividir com os fãs do artista:

Francisco César Gonçalves Querido Sílvio Osias, na verdade eu e Anna Muylaert (a diretora do clipe) nos inspiramos num documentário sobre a primeira visita que um bailarino e músico africano de sobrenome Keita faz a sua aldeia depois de conquistar êxito na carreira na Europa. Eu só vim conhecer esse belo clipe do U2 depois mas deixo a palavra com Anna, muito mais ligada na cena rock do que eu na época. É muito boa a comparação. Eu gosto. Abraços.

Sílvio Osias
Sílvio Osias Beleza, Chico! Como disse, gosto muito dos dois vídeos. E dessa coisa de um poder ter inspirado o outro. Abraços. 
Sílvio Osias
Sílvio Osias Chico, a música do U2 é de 1987, mas o vídeo só foi feito em 1998 para um relançamento, me avisa um colega de redação. Portanto, um pouco depois de Mama África. Então, Muylaert não se inspirou no U2. Será que foi o contrário? O mundo é pequeno! De todo modo, as semelhanças existem e é bacana compara-las. 
Sílvio Osias
Sílvio Osias Outra coisa. Estou muito impressionado com a força e a beleza de Reis do Agronegocio. Uma autêntica canção de protesto nos tempos atuais. Com as suas marcas autorais e com traços que nos levam a melhor protest song do jovem Dylan. Até na extensão dos versos. Também no violão que acompanha e em algumas inflexões da voz. Muito bonito! 
Francisco Cesar Goncalves
Francisco Cesar GoncalvesObrigado,  Sílvio. Os ruralistas não gostaram nada que eu tenha cantado um trecho dela no Encontro com Fátima Bernardes. Estão me xingando e ameaçando pelas redes sociais, inclusive as minhas de artista – que são abertas. Dylan foi mesmo a inspiração para encarar esse belo poema de Carlos Rennó. Eu tinha escutado falar que o clipe do U2 era posterior ao nosso mas não tinha certeza. A gravadora usou o nosso clipe em uma convenção internacional na época, nos EUA. E os canais de wolrd music também o divulgaram bastante pelo mundo todo.

Quando Chico César e o U2 são parecidos. Veja os vídeos e compare

Você sabe quando Chico César e o U2 ficam muito parecidos?

A resposta é simples: é só comparar os vídeos de “The Sweetest Thing” e “Mama África”.

A ideia é praticamente a mesma. Do uso do plano sequência aos elementos que vão entrando para compor a cena na medida em que a música se desenvolve. O resultado de ambos é muito bom.

A música do U2 é de 1987. O vídeo, dirigido por Kevin Godley, é de 1998.

O de Chico César, dirigido por Anna Muylaert, foi realizado um pouco antes.