Woody Allen jamais fará filmes como Ingmar Bergman ou Federico Fellini

Na abertura, “Manhattan” mostra Nova York retratada por Woody Allen ao som de George Gershwin. Imagens em preto & branco, a tela tomada pelo cinemascope, música erudita inspirada no jazz, texto lido pelo cineasta.

“Meia-Noite em Paris” começa com um retrato de Paris ao som de Sidney Bechet. Imagens em cores sem o impacto do scope, jazz, nenhum texto.

O primeiro retrato é inquieto, nervoso, jovem. O segundo é sereno, contemplativo. Os dois filmes não se parecem, mas uma abertura remete à outra.

Woody Allen é repetitivo.

Os mesmos tipos, as mesmas indagações, o mesmo humor – a fórmula que Allen repete a cada novo filme não depende do lugar onde suas histórias são ambientadas.

A repetição empobrece o seu cinema? Às vezes, sim. Outras, não. Há casos em que ele consegue ser brilhante, como se estivesse de volta à sua fase mais criativa, entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira da década de 1980.

John Ford e Alfred Hitchcock filmavam muito, mas nunca davam a impressão de que estavam fazendo o mesmo filme. Talvez porque, neles, que não escreviam os roteiros, o traço autoral estava no estilo.

Woody Allen, que também filma muito, além de diretor, é autor dos roteiros. Ele cria cada diálogo, cada situação. Talvez venha daí a sensação de que se tornou repetitivo em demasia.

Mas há algo atraente num cineasta de filmografia extensa como Allen. A quantidade se mistura com a qualidade, entre altos e baixos, formando um conjunto que, ao final, carrega de tal modo as marcas pessoais que é possível enxergá-las em todos os momentos. Mesmo naqueles trabalhos que consideramos menores.

Revi “Meia-Noite em Paris”. É um dos bons filmes de Woody Allen. Os encontros de Gil com Porter, Fitzgerald, Hemingway, Picasso, Dali, Buñuel, são todos muito charmosos. O texto é irresistivelmente engraçado e inteligente. As caracterizações são muito boas. A passagem da realidade para a fantasia deixa o espectador tão excitado com a situação quanto o próprio personagem.

O filme chamará a atenção dos que defendem a tese de que o passado é sempre melhor do que o presente. Para Gil, que vive no século XXI, bom é viver na Paris da década de 1920. Para Adriana, que é amante de Picasso e foge com Hemingway, melhor era a Belle Époque.

Gil é Allen. Insatisfeito com o que faz, sonhando com o que nunca vai conseguir fazer. Uma inquietação que o acompanha dentro e fora das telas. Os comentários de Gertrude Stein não transformarão o roteirista Gil num grande escritor. Apesar dos méritos que ostenta e do brilho intenso de “Annie Hall” e “Zelig”, Woody Allen jamais fará filmes como Ingmar Bergman ou Federico Fellini.