João Bosco faz 70 anos como um dos grandes da música brasileira

“Responderei não!”. Bradava João Bosco no final de “Agnus Sei”, tal como o ouvimos pela primeira vez, 42 anos atrás.

O cantor/compositor/violonista, mineiro que foi para o Rio, entrava em cena num compacto simples de bolso do Pasquim (no outro lado, Tom Jobim e sua novíssima “Águas de Março”). Voz e violão num registro que impressionava, que provocava impacto: pelo canto, pela melodia, pelo domínio do instrumento, pelos versos do parceiro, Aldir Blanc.

Quase quatro décadas e meia se foram, e agora Bosco chega aos 70 anos (nesta quarta, 13) como um dos grandes nomes da música popular do Brasil. Domingo passado, cantou na Brazilian Night do Festival de Jazz de Montreux.

O melhor de João Bosco, para mim, é o que ele produziu ao lado de Aldir Blanc. Seus discos da década de 1970 são primorosos. Naquela época, como Ivan Lins e Vítor Martins e também como Gonzaguinha, Bosco e Blanc eram vozes engajadas nas lutas da sociedade civil contra a ditadura.

O engajamento às vezes limita o artista, o associa de tal modo a um momento histórico que sua produção logo se torna datada. João Bosco e Aldir Blanc correram este risco, mas a musicalidade do primeiro e o talento poético do segundo permitiram que as músicas que compuseram resistissem ao tempo. E, após a redemocratização, funcionassem como evocação daquelas lutas.

Bosco e Blanc tiveram uma intérprete extraordinária. Algumas das suas canções ganharam registros definitivos na voz de Elis Regina. Do samba “Bala com Bala” ao bolero “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”. Da crônica amarga de Blanc em “Bodas de Prata” ao hino da anistia, “O Bêbado e a Equilibrista”.

A técnica e a emoção de Elis foram colocadas a serviço da produção da dupla ao longo da década de 1970. Ela os gravou várias vezes nos grandes discos que fez sob a batuta de César Camargo Mariano a partir de 1972, justamente o ano em que Bosco apareceu no disquinho do Pasquim com “Agnus Sei”.

Nos 70 anos de João Bosco, volto a “Agnus Sei” num registro de quatro anos atrás (está no disco “40 Anos Depois”). A música ganha como adornos os falsetes de Milton Nascimento.

O “responderei não!” de agora soa mais brando. Curioso: serve como comentário sobre o presente. “Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã”. Será?

O verso de Blanc, retido na memória, continua belo. Como as melodias de Bosco.