A música e Tacy de Campos são o melhor de “Cássia Eller, o Musical”

O público de João Pessoa está vendo “Cássia Eller, o Musical” neste final de semana (29, 30 e 31) no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural José Lins do Rego.

É mais um espetáculo (depois de Tim Maia, Cazuza, Elis Regina) que mistura teatro e música para contar a história de um grande nome da canção popular do Brasil.

Por coincidência, na madrugada deste domingo, vi o ator Ney Latorraca, no programa “Altas Horas”, se queixar, mesmo que sutilmente, do excesso de comédias em pé e musicais biográficos na atual cena teatral brasileira, em detrimento de uma dramaturgia mais clássica e vigorosa.

O comentário dele talvez aponte para soluções narrativas e dramáticas que, aos olhos do consumidor mais exigente de teatro, estão fartamente presentes e comprometem espetáculos como este que conta a vida de Cássia Eller.

De todo modo, na outra ponta, há algo de muito positivo nesses musicais, na medida em que eles cumprem o papel de mexer com a memória e a emoção do público, trabalhando num universo tão rico e expressivo quanto o da nossa canção popular.

“Cássia Eller, o Musical” tem uma estrutura simples. Uma eficiente banda no fundo do palco e um pequeno elenco que encena, em ordem cronológica, alguns episódios da vida de Cássia Eller, grande intérprete da cena musical dos anos 1990.

As questões da sexualidade, os excessos que podem ter levado à morte prematura aos 39 anos, a opção por se manter à margem a despeito do êxito comercial – o musical trata abertamente desses temas.

Mas o principal (e o melhor mesmo!) é a música. As canções vão se incorporando à narrativa para também contar a história. E, no conjunto, oferecem um retrato dessa artista tão extraordinariamente talentosa do Brasil de apenas duas décadas atrás.

Muito mais cantora do que atriz, Tacy de Campos brilha intensamente e engrandece o espetáculo. Impressiona, convence, arrebata. E, por vezes, nos dá a sensação de que Cássia Eller está ali no palco, a poucos metros de nós, que estamos na plateia.

Woody Allen jamais fará filmes como Ingmar Bergman ou Federico Fellini

Na abertura, “Manhattan” mostra Nova York retratada por Woody Allen ao som de George Gershwin. Imagens em preto & branco, a tela tomada pelo cinemascope, música erudita inspirada no jazz, texto lido pelo cineasta.

“Meia-Noite em Paris” começa com um retrato de Paris ao som de Sidney Bechet. Imagens em cores sem o impacto do scope, jazz, nenhum texto.

O primeiro retrato é inquieto, nervoso, jovem. O segundo é sereno, contemplativo. Os dois filmes não se parecem, mas uma abertura remete à outra.

Woody Allen é repetitivo.

Os mesmos tipos, as mesmas indagações, o mesmo humor – a fórmula que Allen repete a cada novo filme não depende do lugar onde suas histórias são ambientadas.

A repetição empobrece o seu cinema? Às vezes, sim. Outras, não. Há casos em que ele consegue ser brilhante, como se estivesse de volta à sua fase mais criativa, entre a segunda metade dos anos 1970 e a primeira da década de 1980.

John Ford e Alfred Hitchcock filmavam muito, mas nunca davam a impressão de que estavam fazendo o mesmo filme. Talvez porque, neles, que não escreviam os roteiros, o traço autoral estava no estilo.

Woody Allen, que também filma muito, além de diretor, é autor dos roteiros. Ele cria cada diálogo, cada situação. Talvez venha daí a sensação de que se tornou repetitivo em demasia.

Mas há algo atraente num cineasta de filmografia extensa como Allen. A quantidade se mistura com a qualidade, entre altos e baixos, formando um conjunto que, ao final, carrega de tal modo as marcas pessoais que é possível enxergá-las em todos os momentos. Mesmo naqueles trabalhos que consideramos menores.

Revi “Meia-Noite em Paris”. É um dos bons filmes de Woody Allen. Os encontros de Gil com Porter, Fitzgerald, Hemingway, Picasso, Dali, Buñuel, são todos muito charmosos. O texto é irresistivelmente engraçado e inteligente. As caracterizações são muito boas. A passagem da realidade para a fantasia deixa o espectador tão excitado com a situação quanto o próprio personagem.

O filme chamará a atenção dos que defendem a tese de que o passado é sempre melhor do que o presente. Para Gil, que vive no século XXI, bom é viver na Paris da década de 1920. Para Adriana, que é amante de Picasso e foge com Hemingway, melhor era a Belle Époque.

Gil é Allen. Insatisfeito com o que faz, sonhando com o que nunca vai conseguir fazer. Uma inquietação que o acompanha dentro e fora das telas. Os comentários de Gertrude Stein não transformarão o roteirista Gil num grande escritor. Apesar dos méritos que ostenta e do brilho intenso de “Annie Hall” e “Zelig”, Woody Allen jamais fará filmes como Ingmar Bergman ou Federico Fellini.

Jaguaribe Carne volta às canções. Músicos da banda falam sobre o show

O Jaguaribe Carne deixou o experimentalismo de lado (pelo menos por um tempo) e está de volta às canções. O grupo formado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró vai abrir o show de Tom Zé, no dia 13 de agosto, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa.
Em seu perfil no Facebook, o Jaguaribe Carne divulgou um vídeo no qual os músicos que vão acompanhar Pedro Osmar e Paulo Ró falam sobre o grupo e sobre a experiência de tocar com os dois irmãos.

Sou contemporâneo do surgimento do Jaguaribe Carne. Conheci de perto Pedro Osmar e Paulo Ró antes da formação do grupo. Tenho intimidade com as canções de Pedro desde o início dos anos 1970 e, a despeito de compreender e respeitar o experimentalismo adotado durante tanto tempo, sempre sinto falta delas.
O experimentalismo do Jaguaribe Carne tem mais a ver com o Pedro Osmar da guerrilha cultural, das posturas extremadas, até de uma certa intolerância que agora ele revela nas redes sociais. As canções são do artista inspirado, do homem voltado para versos e melodias.
Para fazer uma analogia que Pedro entenderá bem, porque ouvimos Beatles juntos, o experimentalismo remete ao Lennon de “Revolution 9”. As canções, ao Harrison em busca dos sons da Índia.
Paulo Ró sempre me pareceu diferente do irmão. Embora parceiro no experimentalismo, creio que ele está mais vinculado ao artesanato das canções.
Será bom reouvir o Jaguaribe Carne de volta às canções. Os fãs delas venceram!

Cássia Eller: sugestões para ouvir antes de ver o musical sobre a cantora

“Cássia Eller, o Musical” está em cartaz em João Pessoa. De sexta-feira (29) a domingo (31) no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural. Que tal ouvir Cássia Eller antes de assistir ao espetáculo?Para mim, esses são os melhores discos dela:

CÁSSIA ELLER

De 1994. Terceiro disco de Cássia Eller. Consolida a artista como uma grande intérprete. Cantora de rock que se volta, quando quer, para outras coisas. Da soul music de Otis Redding ao samba de Ataulfo Alves. “Malandragem”, de Cazuza, é o grande sucesso.

VENENO ANTIMONOTONIA

De 1997. Cássia Eller se debruça sobre o repertório de Cazuza, grande nome do rock brasileiro da década de 1980. Faz uma releitura apaixonada e atualiza as canções, retirando delas a sonoridade pasteurizada de alguns registros originais.

Cássia Eller CDs

COM VOCÊ, MEU MUNDO FICARIA COMPLETO

De 1999. Último disco de estúdio gravado por Cássia Eller. Aqui, ela é produzida por Nando Reis, o amigo titã de quem gravou tantas canções. É do rock e da MPB, madura, totalmente consolidada como uma das mais expressivas intérpretes da sua geração.

ACÚSTICO MTV

De 2001. Edith Piaf, Beatles, Chico Buarque, Cazuza, Mutantes. Ao vivo, desplugada, Cássia Eller mostra que se sai bem em tudo o que canta. Sai em excursão pelo país para confirmar o sucesso e, na volta, tem o enfarte fulminante que lhe tira a vida.

Eddie Vedder, do Pearl Jam, grava Magical Mystery Tour, dos Beatles, para série da Netflix

Eddie Vedder, do Pearl Jam, gravou “Magical Mystery Tour”, dos Beatles, para a série “Beat Bugs”, da Netflix.

A série, uma animação destinada ao público infantil, terá outras músicas dos Beatles gravadas por intérpretes contemporâneos. A estreia será no início de agosto.

A canção gravada por Eddie Vedder foi composta em 1967 por Paul McCartney. Deu título ao filme que, naquele ano, os Beatles realizaram para a televisão britânica.

Semelhança: Raul Seixas conhecia “I’ll Be All Right” quando fez “Ave Maria da Rua”?

No post anterior, falei da acusação de plágio feita aos músicos Jimmy Page e Robert Plant, ex-Led Zeppelin.

Semelhanças entre duas melodias, nós, meros ouvintes, sabemos identificar.

Se é plágio, se não é, esse julgamento não é nosso.

Algumas semelhanças chamam nossa atenção. Como no exemplo que vou dar aqui: “Ave Maria da Rua”, de Raul Seixas, e “I’ll Be All Right”, um tradicional americano regravado há pouco por Eric Clapton.

Será que Raul conhecia a melodia de “I’ll Be All Right” quando fez sua “Ave Maria da Rua”? Nunca saberemos.

Ouçam e comparem.

Led Zeppelin plagiou Spirit em “Stairway to Heaven”? Acusação volta à Justiça

Plágio, um tema que de vez em quando frequenta a mídia. Sobretudo no universo da música popular.

Recentemente, os músicos Jimmy Page e Robert Plant, ex-Led Zeppelin, foram acusados de plágio. “Stairway to Heaven”, um dos maiores sucessos da banda, seria plágio de “Taurus”, do grupo Spirit.

Page e Plant foram inocentados num tribunal de Los Angeles, mas um pedido de apelação da sentença trouxe o assunto de volta ao noticiário. Eles vão ter que provar de novo que a melodia de “Stairway to Heaven” é de fato um original do Led Zeppelin.

“Taurus” é de 1967. “Stairway to Heaven” é de 1971.

Ouçam e façam suas comparações:

O Grande Encontro está de volta, mas sem Zé Ramalho

O Grande Encontro está de volta. Mas incompleto. Um trio, não um quarteto. Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo. Muito bom, claro! Mas Zé Ramalho fará falta!

Os quatro se juntaram em 1996. Shows pelo país e um disco ao vivo. Uma versão mais pop da Cantoria que, na década anterior, reunira Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai.

No Grande Encontro 2 (um disco de estúdio), Alceu estava de fora. Também no Grande Encontro 3 (disco e DVD ao vivo).

Na versão 2016 do Grande Encontro, a formação de trio se repete. Sai Zé. Entra Alceu. Uma pena. Bom mesmo era o quarteto!

Discurso de Michelle Obama resume uma longa caminhada da América

Fui menino nos anos 1960 e lembro bem das lutas contra o racismo nos Estados Unidos.

A chegada de Obama à Casa Branca tem uma força simbólica extraordinária. E, quase oito anos mais tarde, creio que ele não decepcionou, a despeito de todas as dificuldades que enfrentou, dos erros que possa ter cometido e das promessas que não cumpriu.

O presidente Obama é um dos poucos que ainda nos fazem crer nas relações políticas.

E há Michelle ao seu lado. Sua fala na convenção do Partido Democrata diz muito sobre o significado da presença desse casal na cena política da América.

O trecho em que ela fala sobre acordar todos os dias numa casa construída por escravos e ver as filhas negras no jardim é comovente. Resume uma longa caminhada.

Que os americanos tenham o bom senso de não colocar Donald Trump na Casa Branca!

 

De João Para João. A Paraíba ainda se divide entre liberais e perrepistas

No dia (26/07) do aniversário de morte do presidente João Pessoa, uma postagem do teatrólogo Tarcísio Pereira no Facebook chama minha atenção. Ele diz que, apesar dos convites, não quis apresentar nesta data o espetáculo “De João Para João”.

As razões do autor e ator: fez um espetáculo com um compromisso artístico e não em função de data; e o respeito a familiares e admiradores do ex-presidente. Muito digno.

Outra postura digna a mencionar: dias atrás, o jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras Abelardo Jurema, que é sobrinho-neto de João Pessoa, escreveu sobre a peça. Discordou, criticou, mas o fez com absoluto respeito ao trabalho do teatrólogo. Postura, aliás, compatível com o perfil de Abelardo.

Tarcísio Pereira, por sua vez, respondeu às críticas do jornalista, mas recomendou a leitura do artigo de Abelardo Jurema.

Tolerância é algo que chama minha atenção. Sobretudo quando o assunto é João Pessoa. Sim, porque a Paraíba ainda tem traços marcantes da velha divisão entre liberais e perrepistas.

Quando fui editor de A UNIÃO, em 2010, não enxerguei, no governo, nenhum grande desejo de marcar os 80 anos do assassinato de João Pessoa. E vi a divisão dentro do próprio jornal: o superintendente (Nelson Coelho) era perrepista, e o diretor técnico (Wellington Aguiar), liberal.

Ariano Suassuna – claro – era perrepista. Nos anos 1980, o filme “Parahyba, Mulher Macho” desencadeou uma onda perrepista. O debate sobre a mudança do nome da capital volta sempre embalado pelo perrepismo.

Os liberais, há muito, me parecem em desvantagem. Como se as conquistas de 30 de nada tivessem valido.