Hermeto, bruxo de Alagoas, faz 80 anos

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Um dos grandes músicos do Brasil, o alagoano Hermeto Pascoal, que faz 80 anos nesta quarta-feira (22), nem sempre é lembrado como deveria por atuar numa faixa muito restrita do mercado. É um virtuose no nível dos melhores instrumentistas do mundo e tem um senso de improvisação que o coloca em pé de igualdade com os maiores nomes do jazz. Em Hermeto, tudo é música. Todos os sons que ele produz, seja em instrumentos como o piano, o sax ou a flauta, seja em chaleiras, bacias ou canos. Até em animais, como os porcos que já levou para estúdios e palcos.

Se quisermos escolher alguns discos para conhecer a música de Hermeto Pascoal, poderemos começar pelo “Quarteto Novo”, único LP gravado pelo grupo que levou este nome. É primoroso, mas o Hermeto que se ouve ali ainda não é o músico que ficou conhecido, um pouco depois, por suas ousadias.

Há um intervalo entre o disco do Quarteto Novo e “A Música Livre de Hermeto Pascoal”, gravado na primeira metade da década de 1970. Entre um e outro, o músico foi para os Estados Unidos e, lá, tocou com Miles Davis, um dos gênios do jazz. Melhor: esteve com Miles no momento em que este promoveu a fusão entre o jazz e o rock. Esta fusão não é exatamente o que vamos encontrar nos discos de Hermeto a partir dos anos 1970, mas é certo que ele trouxe para o seu trabalho a liberdade de criação que encontrou no período em que conviveu, tocou e gravou com Miles Davis.

Entre os discos de Hermeto, prefiro os que gravou durante os anos 1970. Primeiro, “A Música Livre de Hermeto Pascoal”, seguido do americano “Slave Mass” e do brasileiríssimo “Zabumbê Bum-Á”. Eles sintetizam o espírito da sua música. Da beleza dos temas que compõe ao virtuosismo revelado nas improvisações, do uso das convenções da música nordestina ao mais arrojado experimentalismo. Há um pouco de tudo isto em cada um daqueles discos. Eles nos põem em contato com um artista que o Brasil conhece pouco, mas que estarrece as plateias mais exigentes que o ouvem pelo mundo.

E há o álbum-duplo de 1979 que traz a sua apresentação no Festival de Jazz de Montreux. Tem alguns temas compostos por ele e muita música feita de improviso, no nível do melhor jazz produzido pelos americanos. Os ritmos nordestinos predominam, mas o formato é totalmente jazzístico – tema e improvisação. E muita experimentação: ruídos, instrumentos quebrados, “letras” feitas na hora, diálogos improváveis entre sax e aplauso. E um samba choro executado numa escaleta que cala qualquer plateia do planeta.

O disco de Montreux sugere que Hermeto é bom mesmo para ser ouvido ao vivo. Como os grandes músicos do jazz. No palco, ele nos arrebata com seu virtuosismo, mas também com suas invenções. Uma delas: transformar uma chaleira com água num instrumento. E usá-la para executar um clássico do repertório jazzístico, “Round Midnight”. Thelonious Monk e Miles Davis bateriam palmas.

Na foto (de André Cananéa), entrevisto Hermeto no Fenart de 2010.