O que temos sob Bolsonaro não é normal. A quem crê, digo: oremos!

O post de hoje surgiu numa conversa de redação.

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Nasci em 1959. O presidente era JK.

Tinha pouco mais de um ano quando Jânio foi eleito.

Pouco mais de dois quando renunciou.

Meu avô materno tinha um santinho da campanha de Jânio na parede. Ficou lá por muitos anos. Jânio e a vassoura com a qual prometera varrer a bandalheira. Antecipava, em quase 30 anos, a conversa de Collor sobre a guerra aos marajás. E, em quase 60, o discurso de Bolsonaro contra a “velha política”.

Eu ia fazer cinco anos quando os militares depuseram Jango. Lembro vagamente.

Sobre JK, Jânio e Jango, o que tenho arquivado na memória foi construído mais tarde.

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Castelo Branco

Um dia, meu pai disse à minha mãe que era bobagem acreditar que ele devolveria o poder aos civis e que logo teríamos gente como Brizola e Lacerda disputando as eleições presidenciais.

Costa e Silva

Teve a turbulência de 68, o AI-5, o golpe dentro do golpe, a junta militar que assumiu o poder.

Médici

Na escola, a professora repreendeu o aluno que chamou o presidente de “Garrafa Azul”. Teve o “milagre econômico”, o ame-o ou deixe-o e a frase que nunca deletei: “O país vai bem, mas o povo vai mal”.

Geisel

Teve o início da abertura lenta e gradual. E Golbery, que Glauber Rocha chamou de “gênio da raça”. Teve também Herzog e o murro na mesa quando o general Frota tentou depor o presidente.

Figueiredo

Ao cheiro do povo, preferia o cheiro dos cavalos. Disse que prenderia e arrebentaria os que se opusessem à abertura. Foi o último presidente do ciclo militar.

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Tancredo

Uma tragédia nacional.

Sarney

Na juventude, era da bossa nova da UDN. Depois, homem de confiança da ditadura. Rompeu para ser vice de Tancredo. Foi o primeiro presidente civil depois de 64 e o último eleito pela via indireta. Teve o Plano Cruzado e – lembram? – os “cinco anos para Sarney”.

Collor

Tipicamente, uma aventura brasileira. Era óbvio, para os que não votaram nele, que não daria certo. “As elites brasileiras são tão atrasadas que não aceitam nem Dr. Ulysses” – ouvi de Celso Furtado pouco antes da eleição.

Itamar

Mais um vice na presidência. Não era um Temer.

FHC

Teve a estabilidade da moeda, iniciada por Itamar no Plano Real. A esquerda não gosta dele, mas há que se reconhecer o seu papel na reconstrução da democracia brasileira.

Lula

Não sairíamos de Sarney para Brizola, mas saímos de FHC para Lula – um notável avanço no nosso processo civilizatório. Os erros do PT não apagarão o que houve de importante no seu governo.

Dilma

Não era para ser Dilma. Inviabilizou-se e foi inviabilizada.

Temer

Um desastre. O “tem que manter isso aí” não o derrubou, mas acabou o governo muito antes do fim.

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Bolsonaro

Jânio, Collor, Bolsonaro.

Mais uma aventura brasileira.

Quem quiser que ache o contrário, mas o que já vimos em três meses de governo não é normal.

Aos que creem, eu diria: “Oremos!”.

Domingos de Oliveira morre aos 83 anos

Domingos de Oliveira morreu neste sábado (23) aos 83 anos.

Estava em casa, no Rio de Janeiro, escrevendo quando passou mal.

Domingos de Oliveira era um artista múltiplo.

Ator e diretor. Sobretudo diretor.

Fez cinema, teatro e televisão.

Planejando a futura programação, já era da Globo quando a Globo ainda nem existia.

Realizou cinema de autor com textos muitíssimo inteligentes.

O filme de Domingos de Oliveira que me é mais caro?

Todas as Mulheres do Mundo, naturalmente.

É um dos grandes momentos do cinema brasileiro.

Domingos de Oliveira tinha 83 anos, mas continuava trabalhando.

A morte de gente como Domingos me faz pensar em como essas pessoas fazem falta nesse Brasil em que tantos, hoje, exaltam a ignorância.

De volta ao Brasil, McCartney já foi tratado como lixo pop

Paul McCartney está de volta ao Brasil.

Na semana que vem, fará shows terça (26) e quarta (27) em São Paulo e sábado (30) em Curitiba, onde esteve pela última vez em dezembro de 1993.

Às vésperas de completar 77 anos, faz tempo que Paul é uma unanimidade no mundo do pop/rock.

Mas nem sempre foi assim.

Ele já foi considerado um verdadeiro lixo pop.

Precisou até de um livro – Many Years From Now – para tentar desfazer essa imagem.

Perrepistas e liberais.

Estados Unidos e União Soviética.

Flamengo e Vasco.

Sabem aquelas forças antagônicas?

Tipo Beatles e Rolling Stones?

Pois é. Um dia houve também John Lennon e Paul McCartney.

No início dos anos 1970, ou você era John Lennon ou era Paul McCartney.

Muito raramente havia espaço para os dois na mesma discoteca.

John Lennon era o gênio politizado.

Paul McCartney era o tolo que fazia muzak.

Uma bobagem sem tamanho que, em alguns, perdurou até a década de 1990!

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Nunca gostei dessa conversa.

Sempre amei imensamente os dois. Compreendendo que um era diferente do outro. Por isso, se completavam enquanto beatles.

John Lennon fez John Lennon/Plastic Ono Band. E Imagine.

Paul McCartney fez Band on the Run. E Venus and Mars.

E ainda teve George Harrison que fez All Things Must Pass. E Living in the Material World.

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Desde 2010, o relançamento dos discos de Paul McCartney, em caprichadas edições, propicia um feliz reencontro com o seu cancioneiro solo.

Já são 12 volumes remasterizados e com material inédito.

Agora mesmo, temos mais dois no mercado: Wild Life e Red Rose Speedway, da época do grupo Wings.

Foram execrados por críticos e ouvintes na primeira metade dos anos 1970.

Padeciam de um comercialismo vulgar – diziam os que detratavam Paul.

Hoje, são adoráveis. Reúnem rocks e baladas com a inconfundível e competentíssima assinatura do autor.

Não têm nada de lixo pop.

É pop/rock de primeira qualidade.

Reouço velho grito de paz quando muitos ainda querem guerra

Encontro um CD raro entre os usados expostos numa loja.

Live Peace in Toronto.

Traz o show de John Lennon, Yoko Ono e a Plastic Ono Band num festival realizado em 1969.

Minha reaudição coincide com a data (20 de março) em que faz 50 anos do casamento de John e Yoko.

Live Peace in Toronto foi gravado e lançado antes da separação dos Beatles.

No lado A, há seis números com Lennon.

No lado B, dois com Yoko.

Os números de Yoko talvez possam ser classificados como rock de vanguarda. Ela grita em cima de uma base de rock.

Falo um pouco sobre as faixas de Lennon.

John e a Plastic Ono Band tocaram praticamente sem ensaio em Toronto.

Muitos desejariam uma banda como aquela: Eric Clapton na guitarra, Klaus Voorman no baixo, Alan White na bateria.

Das seis músicas, três são clássicos do rock’n’ roll: Blue Suede Shoes, Money e Dizzy Miss Lizzy.

As outras três têm a assinatura de Lennon: Yer Blues (gravada pelos Beatles em 1968) e, do início da fase solo, Cold Turkey e Give Peace a Chance.

O som é áspero.

É rock básico sem nenhum adorno nem muita conversa.

Por isso mesmo, é vigoroso. E visceral.

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É de 1995 a edição que ouço agora, oficial da Apple, lançada pela Capitol no mercado americano.

A captação original foi remasterizada e remixada.

A remixagem mudou sem mudar, se é que me faço entender.

Até a nota errada que Clapton dava na introdução de Dizzy Miss Lizzy desapareceu sem ser apagada (!!).

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Live Peace in Toronto 1969 é um estridente grito de paz.

John Lennon e Yoko Ono fizeram sexo num disco experimental

Nesta quarta-feira (20), faz 50 anos do casamento de John Lennon e Yoko Ono.

A cerimônia civil foi em Gibraltar.

Ele passou a se chamar John Ono Lennon. Ela, Yoko Ono Lennon.

Um disco experimental daquele momento traz John e Yoko fazendo sexo.

O disco se chama Wedding Album.

Álbum de Casamento.

Nunca foi lançado no Brasil.

No início dos anos 1970, ouvíamos numa edição importada.

Era sensacional!

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Jimi Hendrix, no palco, usava a guitarra para simular o ato sexual.

Janis Joplin também fazia a simulação no meio de Try.

Push on, hold on, move on – dizia Joplin, entre gemidos.

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Com John e Yoko, era sexo mesmo.

O lado inteiro de um LP.

Batidas de coração que vão ficando mais rápidas.

Ele a dizer “Yoko!”. Ela a dizer “John!”.

Vozes que vão ficando mais intensas até o ponto alto da transa.

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Wedding Album tem 50 anos.

Penso que ouvíamos o disco do casal Lennon num tempo em que as pessoas eram menos caretas.

“Depois que ‘TÁ RUIM’ chegou, nunca mais melhorou…!”

Faz escuro, mas eu canto.

Era o nome do show que Sérgio Ricardo e Thiago de Mello faziam no Brasil dos anos 1970.

Faz escuro, mas eu canto.

Traduz bem aquele tempo e a presença de alguns artistas nas lutas da sociedade civil pela redemocratização.

O conjunto vocal MPB4 estava entre esses artistas.

Cinco CDs inéditos, acondicionados num pequeno box chamado Barra Pesada, mostram agora como eram os shows do quarteto entre 1973 e 1976.

São preciosos registros.

Conheci o MPB4 em 1967.

O Magro, Aquiles, Ruy e Miltinho acompanhando Chico Buarque em Roda Viva.

Belíssima canção de Chico. Eficientíssimo arranjo vocal do Magro.

O conjunto ficou associado a Chico porque esteve muitas vezes ao seu lado em estúdios e palcos. Mas a carreira desses quatro caras é admirável em discos e shows.

Os anos 1970 foram intensos para eles. Pude vê-los ao vivo em algumas oportunidades, entre João Pessoa e o Recife.

Lembro bem de Canto dos Homens – grande show! – em duas noites inesquecíveis no Teatro Santa Roza.

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O box Barra Pesada está dividido assim:

Disco 1: República do Peru.

Disco 2: Rua República do Peru.

Disco 3: República de Ugunga.

Disco 4: Recital.

Disco 5: MPB4 no Safari.

São cinco shows gravados ao vivo entre 1973 e 1976.

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Nos Estados Unidos, velhas gravações inéditas ao vivo quando transformadas em discos costumam ter uma qualidade técnica surpreendente. Vejam, por exemplo, os discos de Miles Davis da série bootlegs.

No Brasil, não é a mesma coisa. Mesmo os lançamentos oficiais de 40, 50 anos atrás não tinham a qualidade dos álbuns ao vivo daquela época nos Estados Unidos ou no Reino Unido.

Como é, então, o box do MPB4 no quesito qualidade de áudio?

Está longe de ser bom, mas é audível.

E tem uma importância histórica que valoriza muito o produto.

São registros de espetáculos nos quais o quarteto enfrentou os censores para subir ao palco. E nem sempre conseguiu.

Para quem admira o MPB4, o alto nível do repertório e a beleza das performances se sobrepõem a qualquer limitação técnica.

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“Depois que ‘TÁ RUIM’ chegou, nunca mais melhorou…!” é o que canta o MPB4 no show República do Peru.

Verso atualíssimo.

“Enfie o ministério no…” disse o guru Olavo ao ministro Vélez

Olavo de Carvalho, o guru do governo Bolsonaro, mandou o ministro Vélez Rodríguez enfiar o Ministério da Educação no cu.

Não no título, mas, aqui no texto, escrevi cu sem reticências porque foi assim mesmo que li na grande imprensa.

Os velhos manuais de redação vão se modernizando para que os veículos de comunicação sejam fiéis à realidade (um dia desses, li um palavrão num título da Folha).

Fiquei estarrecido com a “gentileza” de Olavo a Vélez?

Não.

Não fiquei.

Afinal, esse é o estilo do “filósofo” de extrema direita a quem são atribuídas as indicações dos atuais ministros da Educação e das Relações Exteriores.

Li também que Olavo e Bolsonaro iriam se encontrar pela primeira vez nessa viagem do presidente aos Estados Unidos.

Embora um seja guru do governo do outro, até este domingo (17) os dois ainda não se conheciam pessoalmente.

No sábado (16), depois de ser homenageado em Washington, o “filósofo” disse que o governo Bolsonaro vai mal.

Teme até que acabe em seis meses.

Trataria desse assunto no encontro com o presidente? – foi perguntado.

“Não. Vou lá pra comer” – respondeu.

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A avaliação que Olavo de Carvalho fez do governo Bolsonaro:

“Se continuar como está, já está mal. Não precisa mudar nada para ficar mal. Mais seis meses, acabou”.

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A Secretaria de Educação Básica do MEC será comandada por Iolene Lima.

Ela defende uma educação baseada na palavra de Deus.

Vi/li uma entrevista dela e, de tão absurda, achei que era fake.

Mas a repercussão em espaços jornalisticamente críveis mostra que é tudo verdade.

Muito grave também para quem vai cuidar da educação básica:

Iolene não sabe a diferença entre sobre e sob.

Dom José nasceu há 100 anos

Se estivesse vivo, o arcebispo emérito da Paraíba Dom José Maria Pires faria 100 anos nesta sexta-feira (15).

Ele morreu em 2017, aos 98.

Há uma controvérsia sobre o ano do seu nascimento (seria 1918), mas vou considerar 1919, como ele fazia nos seus 30 anos de Paraíba.

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Com Dom José Maria Pires, foi amor à primeira vista!

Minha mãe me levou para a avenida João da Mata, onde o novo bispo passou em carro aberto. Sorridente, acenando para as pessoas nas calçadas.

Fiquei encantado, com o meu olhar infantil, por aquela figura.

Era março de 1966. Dom José começava o seu longo período de 30 anos à frente do rebanho católico da Paraíba.

“Para meu amiguinho Sílvio, com o abraço de José Maria”.

Essa foto, com dedicatória e data de 24 de maio de 1966, ele me deu depois de uma audiência pública na visita pastoral que fez à Igreja do Rosário, em Jaguaribe.

Minha mãe era católica, havia sido freira na juventude. Meu pai era comunista e ateu. Os dois, por motivos distintos, foram atraídos pela figura de Dom José. Posso dizer que fui junto com eles.

Trocávamos cartões, cartas. Até que um dia ele disse que queria ir à minha casa. O ano era 1968.

Chegou lá dirigindo um fusca, num sábado à tarde. Foi recebido por um coral infantil que meu pai e minha mãe formaram e ensaiaram com os meninos da vizinhança, meus amigos.

Dom José, sentado numa velha cadeira de balanço restaurada para recebê-lo e toda pintada de vermelho, conversou mais com as crianças do que com os adultos. Comportou-se como se fosse uma delas, só que dizendo coisas de gente grande.

O que guardo dele na minha memória afetiva não cabe num texto. Mas posso mencionar algumas coisas:

O sermão das sete palavras da sexta-feira santa de um ano qualquer, na Catedral Metropolitana. O arcebispo parecia dar novo significado ao texto evangélico.

O apoio aos estudantes que foram às ruas em 1968. Dom José foi ao encontro deles no centro da cidade.

A criação de um centro de defesa dos direitos humanos, que funcionava ali na Almirante Barroso, sob o comando do advogado Wanderley Caixe.

A luta pela terra em Alagamar. Entre as ligas camponesas e o MST.

A noite de Natal em que transferiu a missa da Catedral para a Praça João Pessoa e lá celebrou ao lado dos agricultores acampados.

A recusa de receber o título de Cidadão Paraibano quando entendeu que seu discurso passaria por uma censura prévia da Assembleia Legislativa.

A presença na Missa dos Quilombos, no Recife, ao lado de Dom Hélder, Dom Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento.

A fala na estreia da Cantata Para Alagamar – trabalho que, como lembrou, reunia três homens de nome José. Um pastor católico (ele próprio), um judeu (José Alberto Kaplan) e um ateu que não acreditava nem na existência histórica de Cristo (Waldemar José Solha).

Essa fala resume muita coisa daqueles tempos difíceis. Mas contém, sobretudo, uma grande lição de tolerância. A tolerância que anda tão escassa no Brasil.

Dom José Maria Pires foi firme e corajoso como pastor de uma igreja comprometida com os pobres, mas nunca perdeu a capacidade de dialogar. Com o sorriso que oferecia aos estudantes ou aos agricultores, se apresentava aos militares do Grupamento de Engenharia ou ao governador de plantão no Palácio da Redenção.

A voz era de uma beleza que parecia música. Quase sempre mansa, sem perder a firmeza.

Tenho a alegria de ter sido contemporâneo da sua passagem pela Paraíba.

Conheci poucos homens tão especiais quanto Dom José, Dom Pelé, Dom Zumbi!

O Brasil não quer mais saber de Glauber, que hoje faria 80 anos

Se estivesse vivo, o cineasta Glauber Rocha faria 80 anos nesta quinta-feira (14).

Ele morreu aos 42 anos, em agosto de 1981.

Em 1964, aos 25 anos, estarreceu o mundo do cinema com Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Em 2019, o Brasil não quer mais saber de Glauber Rocha, seu mais importante cineasta.

Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!

A fala do personagem de Jardel Filho ecoa há mais de 50 anos!

Para mim, o nosso maior e mais instigante filme político é Terra em Transe.

O Brasil continua muito parecido com o Eldorado de Glauber Rocha.

Unidos em Glauber, o gênio do construtor e o mito do demolidor gestaram um filme que fala das nossas questões cruciais. Falava em 1967. Continua falando agora, mais de meio século depois.

Esquerda, direita, populismo, messianismo, o papel dos intelectuais, o povo, a desigualdade, o autoritarismo, o nosso destino enquanto Nação.

Terra em Transe, se tudo isso fosse pouco, ainda é absolutamente devastador como delírio estético.

A questão é que, para muitos, o filme de Glauber Rocha é tosco. Hermético. Incompreensível.

Quase ninguém quer enfrentá-lo.

Mas o problema pode ser o empobrecimento intelectual das nossas plateias. A ausência de uma crítica como a que se tinha na época em que o filme foi lançado. A falta de um ambiente propício a esse tipo de cinema.

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Lembro que, no dia seguinte à morte de Glauber, o Jornal do Brasil circulou com textos assinados pelos críticos Ely Azeredo e José Carlos Avellar.

Um deles mencionava o gênio do construtor, o cineasta que levou o cinema brasileiro a obter grande prestígio internacional com os filmes que realizou, sobretudo Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.

O outro artigo falava do mito do demolidor, a figura de opiniões polêmicas e discurso muitas vezes incompreendido, principalmente quando enxergava nos militares que tomaram o poder em 1964 um caminho que levaria o país à redemocratização.

Lembro das duas imagens registradas por Azeredo e Avellar porque temo que, ao longo dos anos, o mito do demolidor tenha se sobreposto ao gênio do construtor. O que, se é verdade, representa uma profunda injustiça com um cineasta do tamanho de Glauber.

O homem que fez Deus e o Diabo na Terra do Sol com 25 anos e estarreceu os europeus com seu filme não pode ser lembrado só pelas falas desesperadas dos últimos anos de sua vida curta. O realizador que retratou o Brasil no país imaginário de Terra em Transe não pode ser avaliado como se ainda nos guiássemos só pelos confrontos entre esquerda e direita.

Prefiro a percepção que, de longe, Martin Scorsese tem do significado de Glauber Rocha. Cineasta e pensador do cinema, o americano de origem italiana vê e revê os filmes de Glauber e os apresenta aos seus atores.

É um contraponto  aos cinéfilos e homens de cinema que, entre nós, detratam Glauber, subdimensionam a sua obra e reforçam a tese de que, nele, o mito do demolidor é mesmo muito maior do que o gênio do construtor.

Melhor fundir os dois, enxergando em Glauber um cinema que nasceu da sua profunda inquietação criativa e da combinação desses elementos. O construtor e o demolidor, ambos movidos por uma grande ambição e um extraordinário desejo.

Nas imagens e nos sons que trazem Ford, Kurosawa e Villa-Lobos para o Sertão da Bahia em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Nas questões cruciais ainda não superadas pelo Brasil nessas mais de cinco décadas que nos separam de Terra em Transe.

No delírio de A Idade da Terra, síntese do seu desespero e também da sua ousadia estética.

A ambição e o desejo de Glauber falam do cinema brasileiro e do nosso destino como Nação