Em tempos de Intercept, 10 filmes sobre jornalismo investigativo

Recebi do advogado e cinéfilo Antônio Barreto uma lista (muito bem) comentada de filmes sobre jornalismo investigativo.

Não posso deixar de registrar que Antônio Barreto é filho do grande crítico de cinema Antônio Barreto Neto.

Nesta segunda-feira (15), a coluna é dele.

10 FILMES SOBRE JORNALISMO INVESTIGATIVO

Antônio Barreto

Em tempos de acaloradas discussões sobre a atuação do jornalista Glenn Greenwald e do seu site, “The Intercept”, listamos 10 filmes que retratam os trabalhos dos jornalistas investigativos e suas repercussões em vários âmbitos sociais (jurídico, político, no próprio jornalismo e até no aspecto pessoal). Segue:

  1. TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (Alan J. Pakula, 1976) – A pedra fundamental. O cinema já havia retratado jornalistas e jornalismo (Cidadão Kane e A Montanha dos Sete Abutres, por exemplo). Mas Pakula inovou ao trazer, para o primeiro plano, a importância do trabalho da base da profissão (a reportagem). A apuração sobre o escândalo de Watergate resultou na queda do então presidente Nixon. Onde ver no Streaming? Looke
  2. O POVO CONTRA LARRY FLINT (Milos Forman, 1996) – Antes do X-Vídeos (e congêneres) a pornografia era consumida, principalmente, através de revistas. E nada se comparava, em depravação, à Hustler, de Larry Flint (Woody Harrelson). Mas Flint pegava pesado também nas reportagens, desmanchando mitos (sim, desde sempre existiu isso) e não dando trégua ao falso moralismo de clérigos e políticos. Em tempo: apesar de viver da pornografia, Flint jamais apresentou cenas de Golden Shower ao alcance de todos. Onde ver no Streaming? Circulou por todos os canais de TV e serviços de streaming. Mas encontra-se fora dos catálogos.
  3. BEM-VINDO A SARAJEVO (Michael Winterbottom, 1997) – O diretor britânico mostra o trabalho dos correspondentes da guerra da Bósnia e escancara o dilacerante dilema entre apenas noticiar e também interferir no cenário da barbárie. Onde ver no streaming? Fora de catálogo.
  4. O INFORMANTE (Michael Mann, 1999) – Narra o trabalho da equipe do tradicional programa ”60 Minutes”, da rede americana CBS, para desmascarar as mentiras da indústria do cigarro. Mann passou a carreira retratando homens obcecados por suas atividades laborais e aqui conta com Russell Crowe (o delator da indústria) e Al Pacino (o produtor do programa). Não podia dar errado. Onde ver no streaming? Telecine Play
  5. A VIDA DE DAVID GALE (Alan Parker, 2003) – Kate Winslet é a repórter que tem faro suficiente para suspeitar que há mais do que estupro e assassinato no caso do condenado David Gale (Kevin Space, bem antes de ser um pária). Só é repórter quem entende que nem tudo é o que parece. Onde ver no Streaming? Fora de catálogo
  6. BOA NOITE E BOA SORTE (George Clooney, 2005) – Nos EUA dos anos 50, desafiar o senador Joseph McCarthy e sua caça aos comunistas era coisa de quem não queria boa vida. Mas foi isso que fez o âncora de TV Edward R. Morrow (David Strathairn, soberbo). A inteligência e a elegância intelectual são o melhor antídoto contra o delírio institucionalizado, diz Clooney. Onde ver no Streaming? Fora de catálogo
  7. ZODÍACO (David Fincher, 2007) – Fincher reconstitui o medo que dominou a população da Califórnia, entre 1968 e 1970, quando o serial killer que nomeia o filme apavorou o Estado, não só pelos crimes em si, mas pela obsessão em se ver como assunto midiático (à época, o rádio e o jornal San Francisco Chronicle). Mas mostra, principalmente, que nenhum apuro jornalístico, mesmo que não se chegue ao resultado desejável, é descartável. Onde ver no Streaming? Netflix
  8. FROST/NIXON (Ron Howard, 2008) – Assista a qualquer entrevista conduzida pela nova referência nacional em questionar autoridades, o apresentador Ratinho. Depois assista a este filme meio esquecido do artesão Ron Howard. Será fácil separar jornalismo de relações públicas. Onde ver no Streaming? Looke
  9. SPOTLIGHT (Thomas McCarthy, 2017) – Grande ode moderna ao jornalismo investigativo e um pedido para que este não morra. O tour de force de uma equipe do Boston Globe para revelar a pedofilia na igreja católica. Onde ver no Streaming? Fora de catálogo
  10. THE POST (Steven Spielberg, 2018) – Um Spielberg na versão adulta conta com Meryl Streep (como a dona do Washington Post) para mostrar que uma elite digna do nome não é feita apenas de dinheiro e posição social mas, sobretudo, de coragem. Onde ver no streaming? Telecine Play  

Lá vem o Brasil descendo a ladeira não cabe com sentido negativo

Lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Nas redes sociais, tenho visto com frequência a frase (na verdade, o verso de Moraes Moreira) usada como comentário sobre o atual momento brasileiro.

É um equívoco.

Lá vem o Brasil descendo a ladeira é o título do álbum que Moraes lançou em 1979 e da música que puxa o disco.

A letra do samba é afirmativa.

Seus versos não são negativos.

Não cabem, portanto, como ilustração sobre o Brasil de Bolsonaro.

Reza a lenda que essa música surgiu de um comentário feito por João Gilberto sobre uma bela mulher que João e Moraes viram descendo uma ladeira.

E, aí, “deu samba”:

Enquanto a mulata em pleno movimento
Com tanta cadência descia a ladeira
A todos mostrava naquele momento
A força que tem a mulher brasileira

Jornalistas, governos e a morte de Paulo Henrique Amorim

O jornalista ocupava cargo de chefia no governo estadual. O governador perdeu a eleição. O jornalista foi exonerado quando o governador eleito tomou posse.

Pode não ser republicano, mas é a regra.

Desempregado, o jornalista ofereceu sua força de trabalho ao secretário de Comunicação. Não precisava ser em cargo de chefia.

Ouviu, como resposta, que não teria qualquer espaço no novo governo.

Ouviu também que poderia ficar tranquilo porque ele, o secretário, não impediria a sua contratação pela iniciativa privada.

Entendeu que era o método em vigor.

E lamentou que fosse.

*****

Lembrei da história nesta quarta-feira (10) quando soube da morte de Paulo Henrique Amorim.

O debate sobre como os governos – de direita ou de esquerda – perseguem os jornalistas é permanente.

Por anos, Paulo Henrique Amorim foi repórter na Rede Globo.

Mais na frente, já na Record, apresentava o programa noturno dos domingos.

Paralelamente, fazendo web jornalismo, Paulo Henrique não tinha papas na língua.

Dizia o que pensava.

*****

Desde que o presidente Jair Bolsonaro tomou posse, muitos dizem que a Record está alinhada ao governo.

Semanas atrás, a Record tirou Paulo Henrique Amorim da apresentação do Domingo Espetacular.

Foi para agradar o governo ou para atender a um pedido do governo?

A morte de PHA amplia esse debate.

João Gilberto em dois retratos tirados por Caetano e Gil

Caetano Veloso e Gilberto Gil estão entre os artistas mais fortemente influenciados pelas lições de João Gilberto.

Em 1968, aos 26 anos, Caetano fez – e gravou ao vivo com Os Mutantes – Saudosismo.

A letra fala da Bossa Nova, da quarta-feira de cinzas que se abateu sobre o Brasil e, naturalmente, de João, a quem sempre chamou de mestre supremo.

Em 2014, aos 72 anos, Gil lançou Gilbertos Samba, um disco no qual se debruça sobre o repertório de João Gilberto.

Em Gilbertos, faixa que fecha o repertório, Gil trata João como um mestre da canção, desses que aparecem a cada 100 anos.

Seguem letras e áudios de Saudosismo e Gilbertos.

Vamos ouvir?

*****

SAUDOSISMO, Caetano Veloso (1968)

Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar tentamos inventar
Tentamos inventar tentamos

A felicidade a felicidade
A felicidade a felicidade
Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões

Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser

Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade
Chega de saudade

GILBERTOS, Gilberto Gil (2014)

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um mestre da canção num país
Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz

Foi Dorival Caymmi que nos deu
A noção da canção como Liceu
A cada cem anos um verdadeiro mestre aparece entre nós
E entre nós alguns que o seguirão
Ampliando-lhe a voz e o violão

É assim que aparece mestre João
E aprendizes professando-lhe a fé
Um Francisco, um Caetano, algum Roberto
E a canção foi mais feliz

Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz
Aparece a cada cem anos um
E a cada vinte e cinco um aprendiz

Talquei? O presidente Bolsonaro prefere MC Reaça a João Gilberto?

Mais que anti-JK, Bolsonaro é o antipresidente bossa nova, o retrato da fissura no destino brasileiro, o vácuo apontado contra os indígenas, os negros, os gays, os professores, as florestas, os rios.

Claudio Leal, na Folha

Tom Jobim, o maior compositor popular do Brasil, morreu no dia oito de dezembro de 1994.

O presidente Itamar Franco se pronunciou oficialmente em nome dos brasileiros e da presidência da República.

João Gilberto, o músico que criou a Bossa Nova e, como Tom, projetou o Brasil internacionalmente, morreu no sábado (06) passado.

Li em O Globo que, de saída para um evento, o presidente Jair Bolsonaro foi abordado por jornalistas e assim se manifestou:

“Uma pessoa conhecida, lamento. Nossos sentimentos à família, talquei?”.

Semanas atrás, Tales Volpi, o MC Reaça, se matou depois de bater na namorada.

Numa rede social, Bolsonaro disse o seguinte:

“Tales Volpi nos deixou no dia de ontem. Tinha o sonho de mudar o país e apostou em meu nome por meio de seu grande talento. Será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil. Que Deus o conforte juntamente com seus familiares e amigos”. 

É claro que, aos 88 anos e com a saúde fragilizada, João Gilberto não voltaria a gravar e fazer shows. A gigantesca contribuição que, com sua arte, ele deu ao Brasil já estava sedimentada há muito tempo. Sob essa perspectiva, embora nos entristeça, a morte de João, naturalíssima, segue o curso normal da vida. Mas é preciso reconhecer que há algo de fortemente simbólico no fato de que o artista nos deixa num instante em que o país parece mergulhar numa era de tanta ignorância.

A comparação entre o laconismo do presidente Bolsonaro na morte de João Gilberto e a homenagem na do MC Reaça é de uma eloquência assustadora como comentário sobre o atual momento brasileiro.

O Brasil de João Gilberto não deixa nunca de ser uma promessa de vida nos nossos corações.

João Gilberto é o bruxo de Juazeiro da letra de Caetano Veloso

O CD Abraçaço, que Caetano Veloso lançou em 2012, começa com uma música chamada A Bossa Nova É Foda.

A faixa, com a pegada rocker da banda Cê e uma breve passagem bossanovista, traz uma bela homenagem à Bossa Nova, vista de longe pelo extraordinário letrista que Caetano é.

É delicioso decifrar seus versos.

O bruxo de Juazeiro, por exemplo, é João Gilberto.

O louro francês é André Midani.

O Lyra de Carlos Lyra é mencionado através da lira, “o magno instrumento grego antigo”.

“O tom de tudo comanda as ondas do mar” é uma alusão a Tom Jobim, descrito como “homem cruel, destruidor, de brilho intenso, monumental”.

Vinícius de Moraes é o poeta a quem Jobim deu a chave da casa de munição. “O velho transformou o mito das raças tristes”.

Já o bardo judeu romântico de Minnesota é Bob Dylan, que, em algum momento, também se inspirou na contenção vocal de João Gilberto.

“Lá fora, o mundo ainda se torce para encarar a equação” – assegura Caetano Veloso.

Ouçamos.

As belezas e os mistérios de João Gilberto estão em três discos

A síntese da arte de João Gilberto, que morreu sábado (06) aos 88 anos, está em três discos lançados entre o final dos anos 1950 e o início da década de 1960.

Eles estão fora de catálogo por causa de problemas judiciais entre o cantor e a gravadora EMI, mas são encontrados fora do Brasil em edições não oficiais.

O primeiro LP de João Gilberto, Chega de Saudade, de 1959, é o disco mais importante da Bossa Nova. A música popular brasileira era uma e passou a ser outra depois dele. Suas 12 faixas nos apresentam à revolução estética promovida, principalmente, por João Gilberto e Antônio Carlos Jobim. O disco é do primeiro, mas não existiria sem o segundo, suas canções e seus arranjos.

A batida do violão, ouvida antes acompanhando Elizeth Cardoso em Canção do Amor Demais, e o canto contido de João redimensionaram o samba e projetaram a música do Brasil num cenário que seria transformado por ela. O que ouvimos naquele disco está presente em muito do que os artistas brasileiros produziram nas décadas seguintes. Influência que se estendeu pelo mundo, na Europa, Japão e, sobretudo, no jazz americano.

O repertório de Chega de Saudade reúne músicas de Tom Jobim e seus parceiros (Vinícius de Moraes na faixa que dá título ao disco, Newton Mendonça em Desafinado), mas também de autores que ficaram conhecidos através da Bossa Nova, como o Carlos Lyra de Maria Ninguém e o Roberto Menescal de Lobo Bobo. Compositor bissexto, João Gilberto assina Oba-lalá e o baião minimalista Bim Bom e relê duas fontes: o Ary Barroso de É Luxo Só e o Dorival Caymmi de Rosa Morena.

Ao LP Chega de Saudade, seguiram-se mais dois discos: O Amor, o Sorriso e a Flor, de 1960, e João Gilberto, de 1961. Os três me parecem suficientes como tradução do que foi a Bossa Nova. Seminais, formam um conjunto de excepcional beleza e grande unidade.

São tão indissociáveis quanto a fusão da voz de João Gilberto com a batida do seu violão.

JOÃO GILBERTO ESTÁ MORTO

João Gilberto morreu neste sábado (06) no Rio de Janeiro.

O inventor da Bossa Nova tinha 88 anos.

Ele morreu em casa.

João Gilberto (em caricatura de William Medeiros) ouviu Orlando Silva, os sambistas do Rio de Janeiro e os sambas de Dorival Caymmi. Ouviu também Chet Baker, estrela do cool jazz, artista de canto intimista que, para os americanos, está longe de ser tão importante quanto João é para nós, brasileiros. No início, muito antes da Bossa Nova, sua voz era como a dos cantores antigos, dizem os que o ouviram.

Em 1958, na gravação de Chega de Saudade, registro inaugural da bossa, está transformada: já tem a contenção que adotaria dali por diante, junto à originalíssima batida do violão. E tem o diálogo entre os dois elementos. Voz e violão, em avanços e recuos que embutiam uma revolução. A música brasileira depois de João atesta. O mundo todo reconhece.

Há um intervalo entre o período em que João integrava um grupo vocal de samba e o instante em que participa, em duas faixas, do disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso. Naquele intervalo, inventou a batida da bossa e adotou um jeito de cantar diferente de tudo o que se fazia no Brasil.

Com Elizeth, acompanha a intérprete, ao violão, em Chega de Saudade e Outra Vez. Mas falta a voz. E o casamento dela com o instrumento. É o que ouvimos, pouco depois, no 78 rpm que traz Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, arranjada por Tom. A voz e o violão de João, elementos indissociáveis. Uma gravação de dois minutos. Um corte: o antes e o depois daquele disco.

Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Milton Nascimento, Roberto Carlos. Todos (e muitos outros) dirão onde estavam quando ouviram Chega de Saudade pela primeira vez. E falarão sobre o efeito devastador que aquela gravação teve na vida e na música deles.

A essência da invenção de João Gilberto está nos três discos que gravou na velha Odeon entre o final da década de 1950 e o início da de 1960. A releitura dos sambas anteriores à bossa, um pouco de Dorival Caymmi, algo de Ary Barroso e muito dos seus contemporâneos, sobretudo Antônio Carlos Jobim – é o que se ouve naqueles LPs, que não estão oficialmente disponíveis em CD por causa da briga judicial entre o artista e a gravadora.

Violonista de formação erudita, Turíbio Santos conta que uma vez tentou tocar como João Gilberto, pensando que era fácil. Não conseguiu. A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico.

A execução ilude o ouvinte e até o músico: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Os três primeiros discos na Odeon, o encontro com o saxofonista Stan Getz (em Getz/Gilberto), o LP de capa branca, que começa com uma versão inigualável de Águas de Março, e Amoroso são os melhores registros da sua arte sofisticada, retratos de um país com que sonhamos e não do Brasil que temos.

Numa conversa com Caetano Veloso, pedi que falasse de Tom Jobim e João Gilberto. Ele disse que a invenção deste deflagrou uma possibilidade que o talento daquele estivera até ali esperando e que o resultado faz da gente um povo com muitas responsabilidades. Pena que tantos ainda não compreendam o som e o silêncio produzidos por João Gilberto.

Ringo Starr cantou muito pouco nos discos dos Beatles

Pensando em Ringo Starr.

Neste domingo (07), ele faz 79 anos.

Nascido em 1940, é o mais velho dos quatro Beatles.

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A persona pública de Ringo Starr tem muito a ver com o modo como o cineasta Richard Lester o retratou nos filmes A Hard Day’s Night e Help!.

O intermezzo protagonizado por ele no primeiro filme motivou, no segundo, a construção de uma trama que se desenrolou toda em torno da sua simpática figura de baterista do quarteto.

Nos discos dos Beatles, no entanto, não houve protagonismo para Ringo.

Ele – claro – tocou bateria com sua assinatura marcante, mas cantou pouco e praticamente não teve espaço para as canções de sua autoria.

Ringo cantou Boys no Please Please Me. I Wann Be Your Man no With The Beatles. Honey Don’t no Beatles For Sale. Act Naturally no Help!. What Goes On no Rubber Soul. Yellow Submarine no Revolver. With a Little Help From My Friends no Sgt. Pepper.

É sua também a voz que se ouve em Matchbox, lançada em compacto.

Somente em 1968, já no White Album, os Beatles gravaram uma música – Don’t Pass My By – totalmente composta por Ringo. Ali, ele cantou ainda Good Night, de Lennon.

Em Abbey Road, de 1969, há outra canção de sua autoria: Octopus’s Garden.

O A Hard Day’s Night, o Magical Mystery Tour e o Let It Be não têm solo vocal de Ringo.

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Longe dos Beatles, It Don’t Come Easy parece ter sido seu maior sucesso.

Ao longo dos anos, muitas vezes dividiu estúdios e palcos com os antigos companheiros de grupo.

Em suas aparições públicas, até hoje, está sempre com o dedo em V.

Peace and love.

Ringo Starr permanece fiel às ideias generosas da sua geração.

Meninos e meninas, conversei com Cazuza 30 anos atrás!

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro

Transformam o país inteiro num puteiro

Pois assim se ganha mais dinheiro

Todo início de julho, lembro muito de Cazuza.

É que o aniversário de morte dele é no dia sete. Agora em 2019, já são 29 anos.

Lembro do quanto foi significativa, ainda que rápida, a sua passagem pela música popular do Brasil.

Lembro também que suas letras (sobretudo elas!) continuam aí, resistindo à ação do tempo.

Estamos, meu bem, por um triz

Pro dia nascer feliz

Pro dia nascer feliz

Estive com Cazuza uma única vez, quando ele cantou em João Pessoa no verão de 1989. Lá se vão três décadas.

Percorria o país com o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado também em disco ao vivo (O Tempo Não Pára).

Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira que era portador do HIV.

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa A Palavra É Sua, que era exibido nos domingos pela manhã na TV Cabo Branco. Costumávamos fazer em estúdio, mas, naquela semana, claro que abrimos uma exceção.

Assumi com a produção do artista o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que, naquele momento, a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável.

Cazuza estava na piscina (ao lado do amigo Ezequiel Neves, seu parceiro e produtor) e gravou comigo numa mesa próxima. De sunga, camiseta sem mangas e boné.

Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, as diferenças entre poesia e letra de música, rock e MPB – estes foram os temas da nossa conversa.

Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo “passado da música popular” (usou essa expressão) lhe servira de parâmetro.

A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes numa conversa sobre o rock brasileiro da década de 1980: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Era Gil me convencendo de que o rock brasileiro dos 80 era muito melhor do que eu imaginava!

Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou.

Mas fiquei triste no dia em que o entrevistei. O resultado jornalisticamente positivo do que gravamos não tinha importância alguma diante do quadro que vi: um artista jovem e talentoso consumido por uma doença devastadora.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza assumiu que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha.

Sua agonia se estendeu até aquele sábado, sete de julho de 1990.

Quando morreu, tinha 32 anos.

Hoje, se estivesse vivo, teria 61.