Arte de Chico está acima de partidos, da esquerda, da direita!

Conheço pessoas que passaram a ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Conheço pessoas que deixaram de ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Acho parecidas as duas posturas.

São reducionistas.

Circunscrevem o grande artista e sua arte à intolerância do atual debate político e ideológico travado no Brasil.

Estou tocando no assunto por causa de uma postagem de Chico cantando Tanto Mar que fiz, no 25 de abril, a propósito do aniversário da Revolução dos Cravos. Recebi mensagens muito reveladoras, tanto de amor quanto de ódio.

Tento respondê-las nesse texto.

Começo com o óbvio. Chico Buarque é um artista extraordinário. Um dos maiores da nossa canção popular em qualquer tempo.

Sempre foi um homem de esquerda. Isso é absolutamente legítimo. A rigor, nem engrandece nem diminui sua arte. O que o fez (faz!) um gigante da música produzida pelos brasileiros foi (é!) o absoluto domínio que tem do artesanato da canção. Música e letra, uma nascida para a outra, uma indissociável da outra. Como um segredo que não se revela. Como um mistério que não se desvenda. Só se contempla. Só se admira.

Chico é assim. Muitas belezas reunidas num cancioneiro. Quando fala do individual, quando se debruça sobre o coletivo. Desde a juventude, tempo dos clássicos instantâneos. Até a maturidade (agora, a velhice), de canções mais refinadas, de assimilação mais lenta e difícil.

Não é justo que a sua música só seja ouvida por causa de uma circunstância política. Ou que, na outra ponta, por isso seja execrada. Os atuais impasses serão superados, substituídos por outros, mas arte como a de Chico atravessa o tempo. Tem permanência.

Encanta, fascina, alegra, entristece, humaniza.

Fecho, então, com o Caetano de Festa Imodesta, um samba que Chico gravou:

E acima da razão a rima

E acima da rima a nota da canção

Bemol, natural, sustenida no ar

Viva aquele que se presta a esta ocupação

Salve o compositor popular!

Morre o jornalista Carlos Chagas

Luto no jornalismo brasileiro.

Carlos Chagas morreu nesta quarta-feira (26) aos 79 anos. Ele teve um aneurisma.

Chagas começou a atuar nas redações no final dos anos 1950. Trabalhou em O Globo e no Estadão. Foi secretário de imprensa do presidente Costa e Silva, cuja agonia acompanhou de perto. Fez comentários políticos na TV Manchete. Era advogado, professor de jornalismo, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras.

Um homem culto e respeitado no meio. Desses que fazem muita falta.

Morre Jonathan Demme. “O Silêncio dos Inocentes” é maior legado

Morreu aos 73 anos o cineasta americano Jonathan Demme.

Ele tinha câncer no esôfago. Problemas cardíacos, decorrentes da doença, levaram à morte.

Demme trabalhou com Roger Corman, mestre dos filmes B. Levou astros da música para a tela (Talking Heads, Neil Young, Justin Timberlake). Realizou um filme sobre a AIDS (Filadélfia) quando a doença ainda era uma sentença de morte.

Seu maior legado é O Silêncio dos Inocentes. A produção, de 1991, conquistou o Oscar de melhor filme e deu a estatueta de melhor direção a Demme.

Um grande filme, extremamente bem resolvido, que se destaca entre o melhor cinema da década de 1990.

O Silêncio dos Inocentes provoca medo, mas vai muito além.

Seria pouco dizer que a história construída em torno da relação do canibal atrás das grades (Anthony Hopkins) com a jovem agente federal (Jodie Foster) é apenas assustadora. Ela tem elementos que perturbam e inquietam de verdade o espectador.

Roberto e Erasmo entram bem no mapa da nossa canção

Os dois volumes de A Canção no Tempo oferecem precioso mapeamento da música popular que os brasileiros produziram entre 1901 e 1985. Os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello comentam as canções que marcaram cada ano. De Parei na Contramão a Caminhoneiro, Roberto Carlos aparece várias vezes.

REBELDIA

O registro inicial que o livro faz de Roberto Carlos é de 1963: Parei na Contramão, citado como um dos primeiros grandes sucessos de autoria brasileira na área do rock. “O espírito de rebeldia e o impulso dançante do jovem estão presentes nesta gravação, marcada pela guitarra, contrabaixo e a voz anasalada do maior ídolo da mocidade brasileira nos anos seguintes”, comentam os autores. No texto sobre Quero que Vá Tudo pro Inferno (1965), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello chamam atenção para o fato de que “tal como Orlando Silva, que foi o primeiro ídolo de massa criado pelo rádio no Brasil, Roberto Carlos seria o primeiro criado pela televisão”. Quero que Vá Tudo pro Inferno, dizem eles, “é a canção que marca o início desse reinado”.

BOATO

Namoradinha de um Amigo Meu (1966), por ser assinada só por Roberto, favoreceu “um boato, negado pelo cantor, de que a composição referia-se a um caso realmente vivido por ele e que envolvia um casal em evidência na época”. Já Negro Gato, também de 1966, é de Getúlio Cortes, “um dos raros artistas negros ligados à Jovem Guarda”. O autor nega que a música tenha uma conotação de protesto identificada com os conflitos raciais tão em evidência àquela época.

METÁFORA

Para Severiano e Zuza, As Curvas da Estrada de Santos, de 1969, “é mais ou menos uma reedição do rebelde de Quero que Vá Tudo pro Inferno com um carro mais veloz”. Sentado à Beira do Caminho (1969), sucesso na voz de Erasmo, “é uma metáfora que expõe o desengano dele ante o fim da Jovem Guarda e o que isso representa para a sua carreira”. Do disco que Roberto Carlos lançou em 1970, A Canção no Tempo destaca Jesus Cristo, de certa forma inspirada no sucesso de Jesus Christ Superstar. O livro a classifica como “um rock-hino cantado com respeitoso entusiasmo por Roberto”.

PROTESTO

Três músicas do disco de 1971 são comentadas em A Canção no Tempo. Composta por Caetano Veloso, Como Dois e Dois “é uma canção de protesto, deixando transparecer em seus versos ambíguos referências à ditadura e ao drama do exílio”. Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos é uma homenagem de Roberto a Caetano, depois que o visitou no exílio londrino. E Detalhes atesta “o alto nível de interpretação alcançado por RC, um dos maiores cantores românticos de nossa música popular”. Severiano e Zuza consideram Detalhes uma das melhores canções da parceria Roberto & Erasmo.

AMIZADE

Os pesquisadores seguem comentando as músicas da dupla com Amigo, de 1977, classificada como “um verdadeiro hino à amizade”, que ultrapassou a homenagem a Erasmo Carlos, “aplicando-se a amigos do mundo inteiro”. Falam também de Café da Manhã (1978), “balada romântica temperada por boa porção de sensualidade”, Força Estranha (1978), que Caetano Veloso escreveu como “uma homenagem à figura do cantor” e Outra vez (ainda 1978), de Isolda, “uma das raras músicas não compostas por Roberto e Erasmo que podem ser consideradas clássicos de seu repertório”.

NOSTALGIA

Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello enquadram Amante à Moda Antiga (1980) na categoria das canções nostálgicas e confessionais, destacando a elegância de sua melodia. Quando comentam Emoções (1981), fazem menção à sua bela melodia e ao competente arranjo de big-band e lembram que a música reproduz o clima romântico e nostálgico de outros foxes de Roberto & Erasmo. De Fera Ferida (1982), dizem que é uma das melhores canções da obra de Roberto e Erasmo Carlos. “Composta à época em que se desfazia o casamento de Roberto e Nice, a canção parece refletir o fato nas entrelinhas”.

PARCERIA

No texto sobre Caminhoneiro (1984), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello aproveitam para falar um pouco da dupla Roberto & Erasmo: “Em atividade desde o início dos anos sessenta, Roberto Carlos e Erasmo Carlos são recordistas de sucessos no período 1963/1985, tendo Roberto setenta e cinco composições relacionadas neste livro (setenta em parceria com Erasmo), das quais, treze são comentadas como destaques. Uma particularidade no trabalho da dupla: há uma participação maior de Roberto na criação das canções mais românticas e de Erasmo nas mais roqueiras”.

Chico, Tanto Mar, Revolução dos Cravos

Nesta terça-feira (25), 43 anos da Revolução dos Cravos.

Aquele 25 de abril de 1974 marcou o fim do Salazarismo em Portugal.

E encheu de esperança muitos brasileiros.

Tanto Mar, de Chico Buarque, ficou como evocação musical e eco da Revolução dos Cravos no Brasil.

 

Ella e Sinatra num dueto incrível!

Música para homenagear o centenário de Ella Fitzgerald!

The Lady Is a Tramp.

Ella e Frank Sinatra num dueto incrível!

Vamos ouvir? São apenas quatro minutos!

 

Ella Fitzgerald nasceu há 100 anos

Nesta terça-feira (25), faz 100 anos que nasceu Ella Fitzgerald.

Quando penso em cantoras de jazz, sempre me ocorrem dois nomes: Billie Holiday e Ella Fitzgerald. São as maiores. Às vezes, fico com Billie. Às vezes, fico com Ella. É um dilema sem solução.

Mas o assunto de hoje é Ella.

Superb! Como dizem os americanos.

Técnica absurda! Emoção à flor da pele! A voz como um instrumento! Raro domínio do scat e, naturalmente, da improvisação jazzística!

Grandes discos de estúdio! Grandes discos ao vivo! Memoráveis parcerias com outros gigantes do jazz (Ellington, Armstrong, Peterson)!

E, como se não bastasse, ainda tem a série de songbooks gerada pela sensibilidade do produtor Norman Granz. Os maiores compositores americanos (Gershwin, Porter, Ellington, etc.) na voz de Ella, com orquestrações impecáveis!

Ella Fitzgerald fazendo o songbook de Cole Porter! É como um limite de qualidade para a música popular! Difícil ultrapassá-lo!

Seguem cinco indicações para ouvir Ella.

Começo por Ella Fitzgerald Sings The Cole Porter Songbook.

Ella & Louis. Afeto, emoção, rara beleza no encontro com Armstrong.

Porgy & Bess. A ópera de George Gershwin transportada para o universo do jazz. Novamente, Ella e Louis.

Mack the Knife – Ella in Berlin. Ella ao vivo em Berlim. Uma voz, um quarteto, uma performance avassaladora!

Ella Abraça Jobim. Muita gente não gosta. Há quem diga que o próprio homenageado não gostava. Mas é Ella cantando Tom!

Nomes dão vida à bandinha de jazz

Para Márcio Roberto

Meu irmão tinha uma bandinha de jazz em cima da estante. Cinco figuras esculpidas provavelmente na China, algo impensável nos tempos do velho Mao. Um quarteto a acompanhar uma cantora. Piano, contrabaixo, bateria e sax. O jeito de caricatura dos músicos era nítido. O caráter kitsch, indisfarçável. Mas havia algo charmoso. Sempre os quis para colocar junto dos meus discos.

Quando vi a bandinha pela primeira vez, imaginei que a cantora era Ella Fitzgerald. Olhei para aquela figura com uns quinze centímetros de altura, vestido cor de goiaba, anel luminoso no dedo, e pensei em Ella numa arrebatadora performance ao vivo. Como no disco gravado em Berlim. A voz que tinha um traço infantil, a extraordinária capacidade de improvisar sobre a melodia das canções, um domínio raro do canto. Gosto dela incondicionalmente. Seja nos clássicos songbooks, nos discos de estúdio com as mais diversas formações ou nos registros ao vivo. Tudo na sua trajetória a coloca no topo, junto das melhores cantoras do mundo.

Para mim, o pianista da bandinha não poderia ser outro. Era Oscar Peterson. Os dedos mágicos correndo sobre as teclas do piano em velozes e inacreditáveis improvisações. Piano, contrabaixo e bateria. Um trio, nada mais. Do jeito que ouvi na adolescência, nas sessões dominicais na Praça da Pedra, quando fui apresentado ao jazz. Ou na casa de Fernando Aranha, que se inspirava em Peterson para tocar na noite pessoense, na primeira metade da década de 1970. Estrela de primeiríssima grandeza, o canadense Oscar Peterson também atuava como acompanhante. E é assim que vamos encontrá-lo em inúmeros discos, antológicos e indispensáveis, que Norman Granz produziu na Verve.

Se, na minha imaginação, era Oscar Peterson que acompanhava Ella Fitzgerald na bandinha, pensei que o contrabaixista e o baterista poderiam ser os músicos com os quais formou o trio que ouvimos em discos como “Night Train” ou “We Get Requests”. Ou, ainda, “West Side Story”, com a recriação das melodias fantásticas escritas por Leonard Bernstein. Ray Brown no contrabaixo e Ed Thigpen na bateria. Soberbos, precisos, parceiros perfeitos para o pianista. Também é incondicional meu amor por Peterson. Na Verve, mais tarde na Pablo, em carreira solo ou como acompanhante (mas não mero) de grandes estrelas do jazz. Até a despedida, numa noite inesquecível em Viena.

Faltou o saxofonista. Me vieram à cabeça dois nomes: Coleman Hawkins e Ben Webster. Achei que caberiam bem na bandinha. E que estariam à vontade ao lado de Peterson, Brown e Thigpen na tarefa de acompanhar Ella. Engraçado. Não quis escolher músicos revolucionários. Nem Charlie Parker, muito menos John Coltrane. Hawkins ou Webster – não cheguei a definir. Os dois produziriam sons que não nos privariam de ouvir os ruídos do próprio sopro.

Jairo morreu em setembro de 2007. Em junho, no dia do meu aniversário, fui visitá-lo no hospital. Ele me disse que tinha um presente: a bandinha de jazz. Fiquei embaraçado, tentei convencê-lo de que não era o caso, mas cedi à sua insistência. Aceitei o presente certo de que meu irmão já tinha a consciência da morte.

Show vai comemorar os 40 anos de “Refavela”

Um show vai comemorar os 40 anos do LP Refavela. Lançado em 1977, é um dos melhores discos de Gilberto Gil.

O projeto está sendo preparado por Bem, filho de Gil. O show reunirá músicos da geração de Bem e terá a participação do homenageado.

As apresentações deverão ocorrer no segundo semestre no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

 

Jerry Adriani era do bem. Como a sua música

Na infância, vi Jerry Adriani na televisão, ouvi no rádio. E fui ao cinema pelo menos duas vezes para vê-lo naqueles filmes que aproveitavam o sucesso dos astros da música popular. Essa Gatinha É Minha e A Grande Parada. Lembram? Um deles, se não estou enganado, era dirigido pelo ator Jece Valadão.

Na minha memória afetiva, o paulistano Jerry Adriani, que morreu neste domingo (23) aos 70 anos, evoca aquela época, a segunda metade da década de 1960. A ingenuidade e a vitalidade da Jovem Guarda e do que estava ao seu redor em contraponto ao Brasil mergulhado numa longa noite.

(Pausa para a foto: Jerry com Bethânia, Nara e Danuza)

Jerry, mesmo na juventude, soava como um cantor antigo. Era um astro do rock, mas tinha a voz empostada de tenor, como os cantores românticos da Itália. Como o próprio Elvis Presley, um dos seus ídolos. Batizado Jair, seu nome artístico traduzia a mistura: Jerry dos americanos, Adriani dos italianos.

Seu momento de maior êxito está ali, nos primeiros anos da carreira. Mas seu nome está ligado a uma figura fundamental do rock brasileiro que só se consolidaria nos anos 1970: Raul Seixas, que o acompanhou quando ainda era Raulzito. Jerry gravou Raul e foi produzido por este na velha CBS. Se quisermos ir mais longe, seu jeito de cantar ecoou no rock brasileiro da década de 1980, na grande semelhança que havia entre a sua voz e a de Renato Russo.

O sucesso avassalador passou, mas Jerry Adriani se manteve ativo e com um público fiel até o fim da vida. Amadureceu e envelheceu cantando bem. E, acertadamente, flertou com algumas coisas que não tinham nada a ver com o repertório que cantou nos anos 1960.

Estive com ele duas ou três vezes em conversas muito agradáveis. Um cara cordial, simples, que parecia despido de traços tão comuns no mundo da fama. Como costumam dizer, era do bem. Como a música que produziu para alegrar seus fãs. Dentro ou fora do estrelato.