Bob Dylan, um grande trovador do seu tempo, faz 78 anos

O livro No Direction Home confirma o quanto Bob Dylan é grande. A estreia, em 1962, revelava um artista de voz nasal totalmente voltado para o folk, que se acompanhava ao violão e usava uma gaita de boca presa numa armação metálica perto do pescoço. Em 1963, o biografado de Robert Shelton já mostrava que veio para ficar, cantando uma canção de protesto que faria história: Blowin’ in the Wind. Os versos continuam belos, a melodia ainda lhe pega na primeira audição, mesmo que o conteúdo tenha ficado para trás. O autor não consegue livrar-se dela, mas sabe que sua eficácia contestatória foi substituída pela melancólica evocação de um tempo que não volta mais.

Robert Allen Zimmerman, 78 anos nesta sexta-feira (24), é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com as duas. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.

Ao se debruçar sobre Dylan no documentário No Direction Home, Martin Scorsese não passou de 1966, convencido de que contaria muito bem a história do artista ficando no passado. É ali que localizamos o essencial, embora tenhamos grandes discos e grandes canções por pelo menos mais uma década. Depois, aconteceu com ele o que ocorreu com todos os seus contemporâneos: hora de fazer a manutenção da carreira, aprimorar a presença no palco, produzir vigorosos registros ao vivo, gravar bons discos de estúdio de vez em quando, escrever as memórias. Dylan fez tudo isto e hoje se divide entre discos crus com sua voz estragada pelo tempo e uma turnê mundial que nunca termina.

Sete discos nos oferecem o melhor Dylan. De The Freewheelin’ (1963) a John Wesley Harding (1968). Entre os dois, temos Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. As questões cruciais do artista e sua obra estão neles. Mas é claro que há muito o que ouvir nos anos seguintes. De New Morning a Desire, de The Basement Tapes a Blood on the Tracks. E o ao vivo Before the Flood, em que divide o palco com o grupo The Band, que o acompanhou muitas vezes em estúdios e turnês. As canções, talvez não seja necessário listá-las. A relação é imensa. As melodias fáceis, as harmonias simples e a força poética das letras fazem o artista atravessar o tempo sem que percamos o amor pelo seu cancioneiro.

Prêmio Nobel de Literatura em 2016, Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.

Top 10 de Bob Dylan é tão difícil quanto top 10 de Chico Buarque

Faço nesta quinta-feira (23) um top 10 de Bob Dylan.

Não porque o Prêmio Camões dado a Chico Buarque remeteu ao Nobel de Literatura dado a Dylan.

O motivo é que o compositor americano faz 78 anos nesta sexta-feira (24).

Não custa lembrar, no entanto, que, pela qualidade do vasto cancioneiro dos dois, a tarefa é difícil tanto para Dylan quanto para Chico.

O top 10 de Dylan que posto hoje reúne somente clássicos do seu songbook.

Blowin’ in the Wind 

It Ain’t Me Babe

Mr. Tambourine Man

Like a Rolling Stone

Highway 61 Revisited

Just Like a Woman

Forever Young

Simple Twist of Fate

Hurricane

Jokerman

O Nobel de Bob Dylan caberia muito bem em Chico Buarque

Chico Buarque venceu a edição 2019 do Prêmio Camões.

O anúncio foi feito nesta terça-feira (21).

O prêmio, um dos mais importantes da língua portuguesa, foi pelo conjunto da obra (literatura, teatro, poesia, canção popular, etc.).

O artista vai receber 100 mil euros.

Premiação justíssima para um dos grandes artistas do Brasil.

Um cara que nos orgulha imensamente, sobretudo com o seu cancioneiro.

Chico é um gigante no seu ofício.

O Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan caberia muito bem nele.

Fecho a coluna com uma letra de Chico.

Mas qual? São tantas letras absolutamente extraordinárias que fica difícil escolher uma.

Mexendo na memória, fico com Rosa-dos-Ventos. É de 1970.

A letra traz palavras proparoxítonas fechando os versos (não todos).

Logo depois, em Construção, uma das suas obras-primas, Chico constrói uma letra genial em que todos os versos terminam com proparoxítonas.

Seria Rosa-dos-Ventos um ensaio para Construção?

Rosa-dos-Ventos

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

Bolsonaro está perdido? Bolsonaro vai cair?

Bolsonaro é um estorvo. 

O melhor serviço que pode fazer ao Brasil é renunciar

Bresser-Pereira

Bolsonaro vai sofrer um impeachment?

Bolsonaro vai renunciar?

Bolsonaro vai dar um autogolpe?

Bolsonaro está contra os generais do governo?

Os generais do governo estão contra Bolsonaro?

O Brasil é um país ingovernável?

Bolsonaristas vão às ruas pedir o fechamento do Congresso?

Bolsonaristas vão às ruas pedir o fechamento do Supremo?

O filho zero um de Bolsonaro está envolvido em corrupção?

A família Bolsonaro está envolvida com milicianos?

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Essas perguntas são feitas a todo momento nos veículos de comunicação e nas redes sociais.

São perguntas muito negativas.

Perguntas sobre um governo que mal começou.

Foi assim com Sarney?

Foi assim com Collor?

Foi assim com Itamar?

Foi assim com FHC?

Foi assim com Lula?

Foi assim com Dilma?

Foi assim com Temer?

Claro que não!

É normal que seja assim?

Claro que não!

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O governo Bolsonaro está nos estertores?

Bolsonaro está perdido?

Bolsonaro vai cair?

Perguntas e mais perguntas.

O Brasil e seus impasses.

Lucy Alves era Vira e Mexe. Lucy, agora só Lucy, é Mexe Mexe

Nesse vídeo, Lucy Alves toca Vira e Mexe.

Vira e Mexe é um número instrumental que está na antologia de Luiz Gonzaga.

Nesse outro vídeo, Lucy, que agora é só Lucy, canta Mexe Mexe.

Traz a total adesão da artista ao pop da moda.

Bolsonaro e Lula e Bush. Quem muito se abaixa, o fundo aparece

Vi Lula contar essa história numa entrevista, pouco antes da sua prisão, e achei muito interessante.

O presidente brasileiro participava de um desses encontros de chefes de Estado.

Lula estava numa mesa com o chanceler Celso Amorim e Kofi Annan, que era secretário geral da ONU.

De repente, houve uma grande movimentação no local.

Claro! Era Bush, o presidente americano, que estava chegando.

Celso Amorim ficou todo empolgado e propôs a Lula:

Vamos lá cumprimentá-lo!

Ao que Lula respondeu:

Calma, Celso! Ele está chegando e vai cumprimentar todos, do mesmo jeito que eu fiz. Não é porque ele é presidente dos Estados Unidos que será diferente. 

Dito e feito. Bush foi de mesa em mesa cumprimentar os chefes de Estado.

E sabem onde ele sentou? Na mesa de Lula.

Menos por Lula, a quem Bush ainda não conhecia, mais por Kofi Annan, pelo cargo que este ocupava na Organização das Nações Unidas.

Nos oito anos em que foi presidente, com Celso Amorim à frente do Ministério das Relações Exteriores, Lula foi respeitado internacionalmente pelo seu carisma, pelo seu talento político, pela política externa adotada pelo governo brasileiro.

Com Bush, a despeito das posturas ideologicamente muito distintas, soube construir uma relação que acabou ultrapassando os limites formais que há entre os presidentes de duas nações amigas.

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Lula, Bolsonaro, Bush, Nova York, Dallas, Brasil/Estados Unidos.

Nos últimos dias, tenho pensado em algo que o povo diz em sua sabedoria, com maior ou menor sutileza.

Aqui na coluna, vai ficar assim:

Quem muito se abaixa, o fundo aparece!

Submissão de Bolsonaro aos Estados Unidos envergonha o Brasil!

Papo rápido.

Quando li, de tão absurdo, achei que era fake.

Depois vi o vídeo.

Na sua fala durante homenagem que recebeu em Dallas, Bolsonaro diz:

“O BRASIL E OS ESTADOS UNIDOS ACIMA DE TUDO”. 

Acaba se atrapalhando na hora do “Deus acima de todos” e repete “o Brasil acima de tudo”.

A submissão do presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos envergonha o Brasil!

Rick Wakeman, o mago dos teclados, faz 70 anos

Rick Wakeman faz 70 anos neste sábado (18).

No começo da década de 1970, tinha pouco mais de 20 anos quando ficou mundialmente conhecido. Ao mesmo tempo, era tecladista do Yes e fazia carreira solo.

Por uns trocados, também gravava acompanhando colegas (Elton John, David Bowie) tão jovens quanto ele.

Havia estudado piano clássico, mas trocara o conservatório pelo rock progressivo. Nos palcos e nos estúdios, exibia grande virtuosismo tanto no piano acústico quanto nos teclados eletrônicos.

No Yes, emprestou seu talento a um dos melhores grupos do rock progressivo. Mas teve seus excessos contidos pelos companheiros de trabalho.

Sozinho, fez do jeito que quis.

Megalômano? Exibicionista? Kitsch? Sim. Tudo isso. Mas por vezes irresistível.

Com o Yes, fez rock progressivo. Ajudou a formatar esse subgênero do rock. Longe do grupo, no qual entrou e saiu várias vezes, fez rock sinfônico.

Quando esteve pela primeira vez no Brasil, em meados dos anos 1970, era um músico muito popular. Quando voltou, no início da década de 1980, já havia sinais de declínio na carreira solo.

Rick Wakeman gravou muito. Dezenas e dezenas de discos. Errou mais do que acertou. Passou a viver menos do presente do que do passado.

Sua mais fiel assinatura? Três discos conceituais que estão muito bem guardados na memória de quem foi contemporâneo dos anos iniciais da carreira desse mago dos teclados.

The Six Wives of Henry VIII

Journey to the Centre of the Earth

The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table

Bolsonaro termina o mandato? FHC falou em impeachment

Em 1974, quando Nixon renunciou à presidência dos Estados Unidos, eu tinha 15 anos.

O escândalo de Watergate foi meu primeiro contato com um processo de impeachment.

Em 1992, quando Collor foi derrubado por um impeachment, eu tinha 33 anos.

Da esquerda à direita, quase todos entenderam que era hora de encerrar a aventura iniciada na eleição de 1989.

Pensei que nunca mais testemunharia outro impeachment no Brasil.

Em 2016, quando Dilma foi derrubada por um impeachment, eu tinha 57 anos.

Um grande acordo político do centro para a direita tirou a presidente do poder.

Golpe parlamentar. Assim foi chamado.

A banalização do impeachment não é saudável para as democracias.

Precisamos eleger presidentes que governem, que cumpram os mandatos para os quais foram eleitos.

É uma regra básica, assim me parece.

Mas também precisamos saber escolher nossos governantes, levando em conta a experiência, a capacidade, o talento político, o programa de governo, etc.

Em 1989, havia indícios de que Collor não daria certo.

Em 2018, era óbvio que Bolsonaro não daria certo.

A sua eleição parece confirmar o que ouvi de Celso Furtado às vésperas da eleição de Collor: que as elites brasileiras são muito atrasadas.

Nesta quarta-feira (15), as ruas começaram a acordar em dezenas de cidades brasileiras.

Em Dallas, o presidente chamou os manifestantes de “idiotas úteis”.

Aqui, foi chamado de “idiota inútil”.

Também nesta quarta-feira, O Antagonista postou uma fala de FHC que chamou minha atenção.

Era sobre impeachment.

O ex-presidente disse:

“Eu, a princípio, não sou favorável. O custo é alto. Mas, às vezes, é inevitável.”

FHC foi senador, ministro, presidente da República.

Aos 87 anos, o sociólogo é um homem de grande experiência política.

FHC não fala de graça.

Bolsonaro faz a gente sentir medo do futuro!

Estamos com medo do futuro. Isso é inédito.

Gilberto Gil

Em 1964, quando a ditadura militar começou, eu tinha cinco anos.

Em 1985, quando terminou, eu estava com 26.

É muito ruim viver numa ditadura.

Hoje, olhando de longe aquele período, faço uma constatação: sob governos de exceção, eu sentia medo do presente, não do futuro.

O futuro traria a redemocratização. Havia essa expectativa. Era praticamente uma certeza.

Agora em 2019, com um governo de extrema direita chancelado por 58 milhões de votos, tenho mais medo do futuro do que do presente.

O presente parece ser o que restou do processo de redemocratização iniciado em 1985 com a volta dos civis à presidência.

Ainda estamos num estado democrático de direito, ainda temos liberdade de expressão, ainda dispomos das conquistas que vieram a partir da Constituição de 1988, etc.

Amanhã, ninguém sabe. Como no velho samba do jovem Chico.

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Vou fazer 60 anos daqui a um mês.

Nessas seis décadas, de JK a Bolsonaro, o Brasil teve 16 presidentes.

Naturalmente, por causa da pouca idade, não lembro nem de JK nem de Jânio nem de Jango.

Creio que à exceção do desastre chamado Collor, nos demais, mesmo nos piores, havia algo que está se perdendo velozmente em Bolsonaro.

Sim. Havia um discurso de construção.

Em Bolsonaro, o que há é um rápido, desordenado e despudorado processo de desconstrução.

Nesta terça-feira (14), vi o ministro Paulo Guedes dizer que a economia está no fundo do poço e tentar jogar a responsabilidade no Congresso.

Também nesta terça-feira, li, de um analista político que não é de esquerda, que, no quinto mês de governo, o presidente já vive a solidão do poder cercado apenas por bajuladores.

Enquanto isso, o Estadão prevê em editorial:

“Um grande fiasco pode marcar o primeiro ano de governo do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é, portanto, conversa de quem está ficando velho:

Bolsonaro de fato faz a gente sentir medo do futuro!