Os Beatles do “Álbum Branco” são os Beatles de 1968

O Álbum Branco dos Beatles está fazendo 50 anos.

O aniversário é no dia 22 de novembro, data em que o álbum duplo foi lançado no Reino Unido em 1968.

Mas a festa começou no dia nove de novembro, quando chegaram às lojas as edições comemorativas do cinquentenário do White Album.

O maestro e produtor George Martin, o quinto beatle, considerava o álbum excessivo.

Dois discos! 30 faixas! Era muito! – dizia Martin.

Paul McCartney nunca gostou dessa conversa.

É o Álbum Branco dos Beatles! Ponto final! – respondia Paul.

Fico com Paul.

O White Album é o oposto do Sgt. Pepper, o disco que os Beatles fizeram um ano antes.

O Pepper tem unidade, a despeito da diversidade que há nas canções. É uma suíte pop com começo, meio e fim para ser ouvida integralmente. Traz uma sonoridade inovadora para o universo do pop/rock.

O Álbum Branco não tem essa unidade. É desigual. Uma extensa coleção de canções díspares.

Há excesso de elementos na capa do Pepper.

A do Álbum Branco é toda branca.

O título do Pepper é quilométrico: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

O Álbum Branco nem título tem. Apenas o nome da banda: The Beatles.

Muitos dizem que o disco flagra o inicio dos estertores dos Beatles.

O próprio Lennon disse, certa vez, que era “John e a banda, Paul e a banda, George e a banda, Ringo e a banda”.

Ele devia estar com a razão. Mas, paradoxalmente, isso não faz com que o álbum seja menos Beatles. Eles estão no auge da criatividade e oferecem um repertório irresistível que vai da ingenuidade de Ob-la-di Ob-la-da, de Paul, à radical experiência de John (e Yoko) com música concreta em Revolution #9.

São extremos.

Entre eles, tudo é possível.

Helter Skelter, de Paul, antecipa o metal.

Julia, de John, é apenas uma terna canção de amor filial.

Em While My Guitar Gently Weeps, George leva Eric Clapton, um deus da guitarra, para tocar com os Beatles.

Em Blackbird, Paul canta pelos direitos civis.

Em Yer Blues, John cita Dylan.

Em Honey Pie, Paul faz a música do tempo em que seu pai atuava como músico amador.

Em Revolution, John responde aos manifestantes divididos entre a violência e a não violência.

Há um rock que mistura Berry com os Beach Boys para dialogar com os soviéticos.

Há um “parabéns pra você” criado coletivamente após uma alegre sessão de cinema.

Há um “boa noite, durma bem”.

Há um convite ao sexo: “por que não fazemos aqui mesmo na estrada?”.

Há crítica social com porquinhos inspirada em Orwell.

Há até uma canção de amor dedicada a uma sheepdog de nome Martha.

Há tantas outras coisas.

Algumas, há meio século, provocavam uma certa estranheza. Hoje, não mais. Ou será que sim?

O ano de 1968 foi marcante.

Os Beatles do Álbum Branco são os Beatles de 1968.

“Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!”

A Versátil acaba de repor no mercado cinco filmes da Coleção Glauber Rocha que haviam sido lançados na década passada.

São eles:

Barravento 

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Terra em Transe

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

A Idade da Terra

Os cinco DVDs duplos estão disponíveis para venda avulsa. À exceção de Deus e o Diabo na Terra do Sol, os outros quatro também foram disponibilizados num box.

Se o Brasil fosse um país justo com seus construtores (Glauber é um dos nossos construtores), seria importantíssimo esse relançamento.

Vou me ater um pouco a Terra em Transe, cada vez mais oportuno.

Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!

A fala do personagem de Jardel Filho ecoa desde 1967.

Para mim, Terra em Transe é o nosso maior e mais instigante filme político.

O Brasil continua muito parecido com o Eldorado de Glauber Rocha.

Unidos em Glauber, o gênio do construtor e o mito do demolidor gestaram um filme que fala das nossas questões cruciais.

Falava em 1967.

Continua falando agora.

Esquerda, direita, populismo, messianismo, o papel dos intelectuais, o povo, a desigualdade, o autoritarismo, o nosso destino enquanto Nação.

Terra em Transe, se tudo isso fosse pouco, ainda é absolutamente devastador como exercício formal, como delírio estético.

Não é à toa que tem a admiração de Martin Scorsese.

A questão é que, para muitos, o filme de Glauber Rocha é tosco.

Hermético.

Incompreensível.

Quase ninguém quer enfrentá-lo.

Mas o problema pode ser o empobrecimento intelectual das nossas plateias.

A ausência de uma crítica como a que se tinha na época em que o filme foi lançado.

A falta de um ambiente propício a esse tipo de cinema.

Vejam o trailer.

 

Martin Scorsese é homem que pensa o cinema e realiza filmes

Martin Scorsese não é somente um diretor de filmes. É um homem que pensa o cinema. Também não está circunscrito à produção dos Estados Unidos, o país onde nasceu. A sua origem italiana o levou logo cedo a ver e amar a cinematografia de outros povos.

Além de realizador, é um cinéfilo dividido entre os grandes filmes americanos e os não americanos. Uma paixão não exclui a outra. Seu coração e sua mente têm lugar para os dois amores. Eles enriquecem o seu trabalho, o influenciam, fornecem elementos que vamos identificar nos filmes que realizou. Características que fazem de Scorsese um diretor de cinema diferente dos outros. Talvez o único assim entre todos os seus contemporâneos.

Um pé na América, outro fora dela. Duas viagens transformadas em documentários traduzem o que estou dizendo. Um, sobre o cinema americano. O outro, sobre o italiano. O mesmo artista a contemplar dois países e dois modos distintos de realizar filmes. As diferenças o interessam, vão acabar direcionadas ao que ele faz.

Na prática, aliás, Scorsese é um diretor dividido entre duas linguagens: a da ficção e a do documentário – mais uma das suas marcas de originalidade. O melhor é que domina muito bem as duas formas de expressão cinematográfica. Embora famoso pelos filmes de ficção, nos documentários está livre da pressão dos estúdios. E esta liberdade o conduz a resultados de fato excepcionais.

O amor de Scorsese pela música está presente em seu cinema. Não apenas em documentários como O Último Concerto de Rock ou Shine a Light, No Direction Home ou Living in the Material World. Seus filmes de ficção têm sequências concebidas a partir da música. O compasso define o ritmo da montagem.

As cenas de luta de Touro Indomável tomam como parâmetro os critérios de edição que adotou em O Último Concerto de Rock. O uso de trilhas preexistentes serve como comentários sobre uma determinada cena ou complementa a fala de um personagem. Martin Scorsese cresceu entre o cinema e a música. Aprendeu a amar os dois. E escolheu um para que fosse seu ofício.

Tudo isto está em Conversas com Scorsese, de Richard Schickel. Schickel e Scorsese conversam sobre a infância pobre em Nova York e a formação do cineasta, cada um dos seus filmes e temas ligados à sua produção. Falam da família, das obsessões, da fé, da passagem do tempo, da morte. Vida e arte se confundem, se misturam numa leitura para cinéfilos.

O livro, que andei relendo, confirmou muito do que eu já sabia de Marty. Robusteceu as razões da minha admiração por ele. E me surpreendeu: o tornou mais homem, menos mito. Como se ele não fosse Martin Scorsese, mas um cara com quem a gente senta para conversar sobre cinema. E acompanha sua luta para fazer o próximo filme.

John Lennon está no céu ou no inferno?

Há um vídeo sobre Imagine circulando nas redes sociais.

Recebi também no privado.

Parece mostrar um pastor interpretando a canção de John Lennon. Não o conheço.

O beatle não era um homem religioso. Acho inútil ler suas canções à luz das religiões.

O vídeo e as reações a ele me levaram a um livro que comprei há 35 anos.

A Balada de John e Yoko trata da música e da performance pública do casal Lennon. Foi editado nos Estados Unidos pela revista Rolling Stone e lançado entre nós pela Editora Abril.

Assinado por Stephen Holden, o capítulo Dá-me um pouco de verdade tenta traduzir a música de Lennon.

Transcrevo um pequeno trecho dedicado à canção Imagine:

“Mas a obra-prima do disco é Imagine, a mais completa declaração artística e filosófica feita por Lennon como artista-solo. Imagine é uma perfeita mistura de aforismo e pop, além de um competente exercício de estratégia artística conceitual. Ao pedir às pessoas que vislumbrem um mundo utópico, sem lutas religiosas, políticas ou materiais, Lennon leva o ouvinte a participar com ele de uma prece comunal. Este convite onírico flutua na mais sedutora composição de Lennon, uma borboleta etérea que a produção ornamentou com cordas e ondulantes frases de teclados. Porém, em última análise, a tristeza subjacente da música implica na dúvida de Lennon quanto à possível realização deste sonho tão antigo”.

Vaia em cenas gays do filme sobre o Queen. Que chato ir ao cinema!

Leio que brasileiros vaiam as cenas gays (estão chamando assim) do filme Bohemian Rhapsody, que conta a história de Freddie Mercury e do Queen, uma das grandes bandas do rock.

Vou contar o que testemunhei.

Há uma cena em que, de volta de uma turnê, Freddie Mercury tem uma conversa difícil com sua mulher, Mary Austin. Ela diz que algo está errado na relação e pede que ele se abra, seja verdadeiro. Ele diz que andou pensando muito e que chegou à conclusão de que é bissexual. Mary traduz melhor: “Não, Freddie, você é gay”.

A conversa marca o fim do casamento e o começo de uma amizade profunda que se estendeu até a morte do artista. É um diálogo sério. É uma cena triste.

Pois bem, na fila onde estou, duas garotas caem na risada depois que Mary diz que Freddie não é bissexual, mas gay.

E não há nada de engraçado na cena.

A reação das meninas na sala escura do cinema de shopping talvez dê conta do conflito entre os avanços civilizatórios e essa onda neoconservadora que se ergue sobre nossas praias.

*****

Mas vamos ao filme.

Bohemian Rhapsody é somente mediano. Como outras cinebiografias realizadas nos últimos anos, inclusive no Brasil. Mediano, mas necessário. Do mesmo modo que esses musicais que a gente tem visto nos teatros (Elis, Cássia Eller, Cartola, etc.).

Filmes assim são necessários porque cumprem um papel positivo quando o assunto é a preservação da memória. Ou a manutenção do que produziram os artistas populares.

O tempo está passando (o Queen é dos anos 1970, Freddie Mercury morreu há quase três décadas), e lá estamos nós indo ao cinema ver um filme que conta a história da banda e do seu líder. Cá estamos nós falando do Queen – da música que eles criaram, dos dramas pessoais que os integrantes do grupo viveram. Da intensidade das suas canções, da beleza dos seus discos, da força das suas performances ao vivo.

Bohemian Rhapsody tem tudo isso. Tem boas caracterizações, embora tenha imprecisões cronológicas. Tem ótimos números musicais, mesmo que se exceda um pouco no melodrama.

Mas não faz mal. É bom de ver. Dá vontade de voltar para casa e ouvir os discos. De cantar as baladas. De fazer “air guitar” ouvindo os rocks pesados.

A sequência final é irresistível. 100 mil pessoas espremidas em Wembley no show do Live Aid. Uma performance histórica recriada para que, na tela grande, com os recursos tecnológicos de hoje, a gente imagine como foi.

Não há do que rir. Não tem porque vaiar.

Quando Freddie Mercury morreu, um amigo meu mandou celebrar uma missa de sétimo dia na Igreja do Carmo, aqui em João Pessoa, e justificou:

“Puxa, o cantor me deu tantas alegrias!”.

Tadeu Mathias está cada vez melhor

Tadeu Mathias surgiu na cena musical paraibana na segunda metade dos anos 1970.

Dividia o palco com a ainda pouco conhecida Elba Ramalho no show Baião de Dois.

Aos 18 anos, ele deixou Campina Grande e veio morar em João Pessoa. Causou impacto.

Já era um artista completo. Fazia tudo muito bem. Compunha, cantava, tocava violão e dominava o palco.

Lembro do que ouvi do pianista de jazz Fernando Aranha ao término de um show coletivo no velho auditório da Reitoria, ali na Lagoa. Tadeu foi o melhor da noite, ele é o que tem maior domínio do que faz – me disse Fernando. Estávamos em 1978.

Tadeu mora no Rio há muitos anos e continua dedicado à música. Ao que fazia na juventude, incorporou o trabalho com técnica vocal, dá aulas de canto.

É um amigo querido que vejo raramente. Passo anos sem vê-lo.

Neste domingo (04), a comemoração dos 60 anos da fotógrafa Germana Bronzeado me proporcionou um reencontro com Tadeu Mathias.

Com o auxílio luxuosíssimo do violino de André Correia, seu pocket show (que acabou não sendo tão pocket assim) foi um verdadeiro deleite para os convidados da aniversariante em acolhedor ambiente na Ladeira da Borborema.

No pequeno palco, lá estava Tadeu com seu violão. Fazendo o que ama fazer. Ama tanto que, para a alegria do público, anuncia a saideira e não consegue sair. Ainda tem vários números até acabar o show.

O artista completo da juventude é um artista muito mais completo hoje. As composições, a voz, o violão, o domínio do palco – tudo foi aprimorado pelo exercício continuado, pela experiência, pela passagem do tempo.

Fiz um pedido, e ele atendeu: Every Time We Say Goodbye. Cole Porter. Uma das canções mais lindas do mundo.

A performance de Tadeu foi sublime. Superb, como dizem os americanos. Domínio total da interpretação de um grande standard. Utilização perfeita dos recursos vocais a serviço do que a canção pede.

Uma vez, anos atrás, escrevi algo que reproduzo agora:

A relação de Tadeu Mathias com a música, e a arte de um modo geral, surgiu dentro de casa. Os discos que todos ouviam, os programas de rádio, a irmã que o levava ao cinema e ao teatro. Aos 18, quando chegou por aqui, já tinha um gosto definido e refinado. O artista que surgia só era possível por causa do ouvinte atento e dedicado. Tadeu e eu temos a mesma idade. E nos orgulhamos porque somos de uma geração que foi contemporânea de um tempo especialíssimo para a nossa música popular. O novo a que fomos apresentados na infância e na adolescência acabou conduzindo aos grandes nomes do passado. E assim consolidamos o nosso gosto e o amor pela música.

Depois do show de domingo, dei um abraço e um beijo no amigo e disse ao seu ouvido que ele está cada vez melhor.

Tadeu Mathias de fato é um artista que orgulha a nossa geração.

*****

Nesta quarta-feira (07), as nove e meia da manhã, tem um workshop de técnica vocal com Tadeu Mathias no Centro Cultural Casa da Pólvora, em João Pessoa. A entrada é gratuita, e a inscrições serão feitas na hora.

O Queen em cinco discos

Bohemian Rhapsody está em cartaz nos cinemas brasileiros desde quinta-feira (01) passada.

Conta a história do Queen, uma das grandes bandas do rock, e, naturalmente, de Freddie Mercury, o líder do grupo.

Ainda não vi, mas li que é um dramalhão mexicano com um final apoteótico. Vou conferir.

Para mim, em discos, o melhor do Queen está nos anos 1970. E o pior, nos anos 1980. Às vezes, penso que são duas bandas diferentes.

A assinatura da banda é o que ouvimos até The Game. Os melhores rocks, as melhores baladas, os vocais arrojados, os excessos, os pastiches, a cafonice – sim, o Queen é tudo isso. E é irresistível sendo tudo isso.

Nos anos 1980, o grupo foi contaminado pela pasteurização daquela década infeliz. E, em seguida, enfrentou a doença que levou Mercury à morte em 1991.

Se eu tivesse que escolher apenas cinco discos do Queen, seriam esses aí:

A NIGHT AT THE OPERA

A DAY AT THE RACES 

NEWS OF THE WORLD

JAZZ

THE GAME

A morte que vemos no cinema também é muito perturbadora

Sexta-feira (02) é Dia de Finados.

Lembrei da morte que vemos no cinema. Mais do que isso: lembrei de filmes que tratam da morte.

Escolhi sete:

Começo com a imagem do cavaleiro que volta das cruzadas e joga xadrez com a morte.

O Sétimo Selo, obra-prima de Ingmar Bergman.

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Uma casa cheia de tons vermelhos. Uma mulher moribunda e uma criada que cuida dela.

A morte com dor e muito sofrimento em Gritos e Sussurros, outro Bergman impressionante.

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Um casal homoafetivo mata um amigo. O corpo é escondido numa arca transformada em mesa. Os convidados vão jantar sobre ela.

Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, é teatro filmado em extensos planos-sequência.

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A morte como escolha. A despedida, os amigos, o tempo, a vida.

As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand.

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De Olhos Bem Fechados. A morte passa por perto do médico interpretado por Tom Cruise.

Há algo de premonitório? Stanley Kubrick morreu antes que o filme estivesse totalmente pronto!

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Um paramédico atormentado vê nas ruas de Nova York os pacientes que ele não salvou.

Vivendo no Limite, filme perturbador de Martin Scorsese.

vivendo-no-limite

Um rapaz louco pela morte. Uma velhinha louca pela vida. O amor dos dois.

Ensina-me a Viver, de Hal Ashby.

ensina-me-a-viver

Fellini não contava histórias. O que ele fazia era poesia

Nesta quarta-feira (31), faz 25 anos que Federico Fellini morreu.

Um jovem leitor me diz que quer ver A Doce Vida e pergunta como é a história do filme.

Respondo que não há história no sentido tradicional da palavra, com começo, meio e fim.

Não? E o que há? – ele quer saber.

Respondo: Há quadros, episódios mais ou menos soltos. Todos relacionados há um personagem, o personagem de Marcello Mastroianni.

Os filmes de Fellini são assim. A assinatura felliniana é assim. Quando ainda há muito do Neorrealismo no seu cinema e depois, quando suas “narrativas” passam a ser muito delirantes e fantasiosas.

Federico Fellini, um dos mestres absolutos do cinema, não contava histórias. O que ele fazia nos seus filmes era poesia. Ele é um dos poucos realizadores que merecem essa classificação. Não é força de expressão. Fellini era um poeta fazendo filmes.

Meus cinco filmes preferidos de Fellini?

São esses.

Vamos ver?

A DOCE VIDA

OITO E MEIO

AMARCORD

NOITES DE CABÍRIA

OS BOAS-VIDAS