Mistérios envolvem cotação de deputado paraibano para ministério de Temer

Deputado André Amaral Filho, do PMDB (Foto: andreamaral.com.br)

Quando retornar de um giro-fuga-da-crise por Rússia e Noruega, Michel Temer deve nomear no Dia de São João, 24 deste mês, alguém para ministro da Cultura. Por maior proximidade com o santo, talvez por ser nordestino e paraibano, o jovem deputado federal paraibano André Amaral Filho (PMDB) pode vir a ser o nomeado, ganhando a parada para sua colega de Câmara Laura Carneiro, do PMDB do Rio de Janeiro.

Fora isso e a indicação do seu partido para vê-lo no esvaziado MinC, persistem envoltas em mistério as razões pelas quais o noviço André Filho é um dos cotados pelo Planalto para se transformar no quarto Ministro da Cultura do curto e já tão complicado e fragilizado e denunciado governo Temer. Até por que, vamos combinar, o rapaz parece não ter perfil nem para o cargo nem – muito menos – para fazer parte da equipe do atual exercente da Presidência da República. Vamos, primeiro, à possível falta de predicados do paraibano para ser nomeado.

Até onde se sabe, André Amaral não foi mencionado em qualquer delação premiada da Lava Jato por qualquer motivo seu, como diria o poeta. Não se tem conhecimento ainda de que ele tenha pedido dinheiro a Joesley Batista ou a Marcelo Odebrecht. Ninguém ouviu falar que tenha reformado casa de sogra – se é que tem uma – com dinheiro de suposta propina. O noviço também não tem contas na Suíça, dinheiro escondido em paraíso fiscal e – nem pensar! – jamais foi visto ou filmado carregando mala com um semanão de meio milhão de reais para o ‘chefe’.

Quanto aos pendores e atributos pessoais e profissionais para dirigir o indirigível Ministério, aí é que o mistério aumenta. Nada, absolutamente nada, na vida política ou parlamentar de André Filho indica ser ele portador de alguma afinidade ou identidade com objetivos e atividades de um órgão como o Ministério da Cultural. Uma visita ao portal da Câmara para conferir o desempenho legislativo do deputado mostra que o candidato a ministro não tem, por exemplo, uma única propositura em favor ou desfavor de política, promoção ou produção cultural em qualquer nível, período, evento ou cidade do seu estado natal.

Suplente de seis mil e poucos votos que ascendeu ao mandato titular por renúncia de Manoel Júnior para ser vice-prefeito da Capital, o pessoense André Augusto Castro do Amaral Filho, 26 anos, é autor ou coautor de projetos no mínimo curiosos, digamos, como o que institui “premiação aos técnicos de desporto individual e coletivo em cerimônias dessa natureza (?)” ou “incentivo fiscal para produtos sem glúten”.

Outras propostas, contudo, aparentam ter serventia para valorização ou defesa de determinados segmentos. É dele um projeto de lei que institui a “Política Nacional de Desfazimento e Recondicionamento de Equipamentos Eletroeletrônicos”, de outro que dispõe sobre a atendimento policial especializado ao idoso e um terceiro que trata da aplicação de recursos do fundo partidário para criação e manutenção de programas de promoção e difusão da participação política dos jovens.

Tem mais. Tem um bastante oportuno, especialmente para o momento que vivemos e o Parlamento que temos. André Filho quer alterar o Regimento Interno da Câmara “para impedir candidaturas a cargo da Mesa de Deputados que estejam respondendo a processo criminal no Supremo Tribunal Federal pelos crimes de corrupção ativa ou passiva”. Olha aí… Acrescente-se outro, na linha do interessante e útil, projeto do deputado que muda uma lei de 1973 para “autorizar o enteado ou a enteada a adotar o nome da família do padrasto ou da madrasta, independentemente de autorização judicial”.

É bom deixar claro que nenhuma proposição de autoria do deputado foi transformada até agora em norma jurídica. Significa, como diriam no popular, que nenhuma proposta do ex-suplente de Manoel Júnior virou lei até agora. Mas a sua disposição de participar, de contribuir, pelo visto não pode ser desprezada nem menosprezada.

Resta esperar, então, pelo impossível: André Filho recusar o cargo, por entender que possivelmente esteja sendo escolhido por exclusão (Marta Suplicy e outros menos cotados já disseram não a convites de Temer) para comandar uma pasta que há dois meses teve 43% do seu orçamento cortado e gere um Fundo Nacional de Cultura que já teve R$ 500 milhões no governo anterior e hoje tem zero verba.

Tudo isso conforme informou na saída o cineasta João Batista de Andrade, que pediu demissão do cargo na sexta-feira (16) e “pegou descendo”, como diria o teatrólogo João Costa. O terceiro demissionário do MinC em pouco mais de um ano pode ter optado por sair ao se perceber num governo que a cada dia cada vez mais justifica quem o compara a um pau de galinheiro. Mas, mesmo assim, ainda encontra quem – por deslumbramento juvenil ou vaidade – queira se melar.

2 Comente Mistérios envolvem cotação de deputado paraibano para ministério de Temer

  1. José Tarcízio Fernandes Disse:

    Rubens, o texto está ótimo, mas no orçamento ficaram ainda 67%. Nada desprezível.

  2. João Memória Boa Disse:

    Texto excelente!!!

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