TEMER NÃO SERVE MAIS

Temer e Cunha (Foto: Portal Formosa)

  • Por Flávio Lúcio Vieira

Escutei mais de uma vez ontem a seguinte indagação: como os historiadores do futuro irão descrever os acontecimentos que abalaram o país desde que foram revelados pelo jornalista das Organizações Globo, Lauro Jardim – novamente através de um vazamento ilegal, diga-se, − diálogos no mínimo comprometedores envolvendo Michel Temer e um dos donos do grupo JBS, em plena residência oficial?

A busca por uma resposta levou-me a fazer uma analogia histórica: a inevitável queda de Temer com a queda de Fernando Collor de Mello, ocorrida 25 anos atrás.

Comecemos pelas diferenças entre os dois casos, a começar pela maneira como os dois chegaram à Presidência. Se Collor chegou à Presidência de forma legítima, pelo voto, Temer o conquistou através de uma ampla conspiração que acabou por ganhar a forma de um golpe parlamentar, nos mesmos moldes dos que ocorreram em Honduras e no Paraguai.

Collor era, e ainda é, um político cuja ascensão em Alagoas ele deve à influência familística, oligárquica. Assim como os coronéis eletrônicos José Sarney, no Maranhão, e o finado Antônio Carlos Magalhães, na Bahia, Collor tinha como suporte um verdadeiro império de comunicação em Alagoas.

Temer, por seu turno, ascendeu como congressista agindo no submundo da política, negociando com o peso das bancadas do PMDB no Congresso apoios à “governabilidade” em troca de apoios a governos, recebendo em troca ministérios e a ocupação de espaços estratégicos em estatais e nos cargos menos celebrados do Executivo, mas não menos relevantes para a arrecadação de fundos.

Ambos, Collor e Temer, receberam amplo apoio da grande mídia e foram festejados como “reformadores” ao assumirem seus respectivos governos. As reformas que pretendiam fazer para agradar ao andar de cima e justificar o apoio recebido, entretanto, esbarraram no desgaste político e na impopularidade dos mandatários, o que acabou por inviabilizar as reformar pretendidas.

Fernando Collor perdeu logo apoio em razão do desastre econômico que foi o Plano Collor, que começou com o confisco da caderneta de poupança (lembram?). Temer, por uma mistura de ilegitimidade e falta de apoio popular produzida por um programa de reformas que só atendia aos interesses dos mais ricos. Além, é claro, da corrupção, que hoje se esvai por todos os poros de um governo cuja base principal é uma aliança multifacetada de interesses, mas articulada pelo interesse de servir ao andar de cima.

Por base principal entenda-se o PMDB de Temer e José Maranhão com o PSDB de Aécio Neves e Cássio Cunha Lima, além do PSD de Gilberto Kassab e Luciano Cartaxo, do DEM de Rodrigo Maia e Efraim Moraes, do PPS de Roberto Freire e de Nonato Bandeira, do PP de Aguinaldo Ribeiro, do PTB de Wilson Filho e do Solidariedade de Paulinho da Força e de Benjamin Maranhão, entre outros.

Como Collor, Temer cairá porque não se mostra mais capaz de entregar a encomenda das “reformas”, tarefa prioritária para a qual assumiu o lugar da presidenta eleita, Dilma Rousseff. A queda de Temer tornou-se necessária para tentar repetir a história se seguiu à queda de Collor e que a levou FHC à Presidência, para, aí sim, concluir o trabalho que Collor apenas havia começado (privatizações, reforma do Estado, abertura econômica, autonomia informal do Banco Central etc., etc.)

Na inevitável queda de Temer o mesmo script está em curso, só que sem a “paciência” que se demonstrou ter à época de Collor com um governo de transição, como foi o de Itamar Franco. Ao contrário de 1992, tem-se pressa, hoje, certamente porque se observa a impossibilidade de que a combinação de fatores que existe atualmente possa se repetir no curto ou médio prazos.

O que se quer no pós-Temer é um governo que toque as reformas, as mesmas que, diga-se, foram rejeitadas nas urnas em quatro eleições seguidas (2002, 2006, 2010 e 2014).

A saída projetada começaria se possível com a renúncia de Temer, isso para não prolongar o desgaste do condomínio que avalizou o governo atual desde o começo, ainda com Dilma na Presidência (mídia, grande empresariado, parte do judiciário, parte do Ministério Público, Congresso).

Derrubado Temer, uma rápida eleição indireta de um presidente – ou presidenta – se seguiria. O principal atributo a ser exigido do/a “eleito/a” será o compromisso deste/a de assumir o mesmo programa de “reformas” de Temer e dar-lhe continuidade.

Uma eleição em que o povo ficará de fora. Dela só participarão deputados e senadores, a maioria formada por envolvidos em todo tipo de falcatrua, a maioria formada por Eduardo Cunha, os mesmos que protagonizaram aquele espetáculo canhestro que derrubou Dilma e entronizou Temer na Presidência.

Não por acaso, a solução da antecipação das eleições presidenciais, a única que poderia abrir caminho para a superação do impasse que paralisa o país atualmente, sequer é discutida na grande mídia.

Mas se trata de prolongar o sofrimento, apenas. Enquanto o povo não se tornar o árbitro que decida em definitivo o caminho que o Brasil deve seguir, continuaremos mergulhados na crise. E sem solução à vista.

A não ser que o objetivo seja mesmo uma ditadura.

  • Flávio Lúcio Vieira é analista político convidado do  Blog do Rubão

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  1. Newton Mota Disse:

    É corrupto e cínico. É farinha do mesmo saco. É igual a Lula e a Dilma.
    Não renuncia, porque sabe que o tempo a ser percorrido mediante processo judicial, será o tempo que falta para o término do mandato. Está provado que o presidencialismo não nos serve. Os países mais ricos do mundo são parlamentaristas. Nossa constituição é absurdamente híbrida. Então, Constituinte já. Parlamentarismo já ! Diretas já !

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