As opções de Luciano Cartaxo

Por Flávio Lúcio Vieira

Nas oportunidade em que sou instado a opinar sobre a sucessão estadual de 2018, tenho repetido que considero Luciano Cartaxo a única liderança paraibana da atualidade capaz de ameaçar a continuidade do “projeto” político-administrativo do governador Ricardo Coutinho.

E não apenas porque Cartaxo ocupa hoje a cadeira de prefeito da maior cidade paraibana, tendo sido reeleito, em primeiro turno, com uma expressiva vitória sobre a candidata do PSB, o que o torna um postulante natural à sucessão de Ricardo Coutinho.

Ou também porque, caso seja mesmo candidato, o será de uma poderosa articulação que reunirá no mesmo palanque lideranças do naipe dos dois ex-governadores Cássio Cunhe Lima e José Maranhão, que representam forças políticas de grande tradição, espalhadas por todo o Estado.

Tudo isso é importante, mas as duas últimas eleições demonstraram que, por si só, esse aparato não é suficiente para se vencer eleição na Paraíba. Maranhão e Cássio, respectivamente, foram derrotados por RC mesmo apoiados por poderosas máquinas eleitorais.

Sem entrar no conteúdo político-ideológico de Cartaxo, considero que o principal atributo eleitoral do prefeito pessoense nessa possível disputa – o que certamente Ricardo Coutinho mais teme – é ser o prefeito de João Pessoa uma liderança da nova geração, da qual o próprio RC faz parte.

Nessa trajetória tem alguns significados que, acredito, o eleitor valoriza cada vez mais no Nordeste, onde o tradicionalismo político perde cada vez mais espaço. Primeiro, a ascensão de Cartaxo na política paraibana não se deve à família, como foi o caso de Maranhão e Cássio, e da maioria dos políticos que ocupam cargos eletivos na Paraíba, herdeiros que são do espólio político familiar.

O segundo aspecto, que decorre do primeiro: Cartaxo provém da classe média urbana e sua entrada na política vem de sua inserção como liderança, primeiro no movimento estudantil da UFPB, depois no de sua categoria, a dos farmacêuticos de João Pessoa, coincidentemente, a mesma a que pertence Ricardo Coutinho.

Terceiro e último, ambos se elegeram e iniciaram sua carreira política no PT, tendo, portanto, uma formação de esquerda, o que os identifica com uma tradição histórica construída depois dos anos 1980, de contestação às chamadas oligarquias políticas que governaram na Paraíba até 2010, e aqui estabeleceram e consolidaram formas familísticas e patrimonialistas.

Ao longo das últimas décadas, essas práticas foram finalmente ganhando a oposição da população e se tornando cada vez mais incompatíveis com a nova mentalidade de um eleitorado cada vez mais urbano e com acesso à informação, sobretudo após o advento da Internet.

Apesar das incompreensões comuns desse processo, resultado de uma certa dificuldade de entender as transformações de mais longo alcance na sociedade nordestina – digamos, estruturais, − que continuam a produzir análises que ainda se fundam em aspectos circunstanciais, continuo a acreditar que o fator decisivo que decidiu as duas últimas eleições na Paraíba: a rejeição majoritária a um perfil político identificado com, vamos chamar assim, o tradicionalismo político.

Pois bem, Cartaxo não se encaixa nesse perfil e, caso seja candidato, RC e o seu/sua candidato/a terão dificuldades de tornar esse o tema mais importante da campanha, como aconteceu em 2010 e 2014.

E aí entra o segundo aspecto desta análise: caso consiga ancorar sua candidatura numa aliança com PSDB e PMDB, Cartaxo projeta-se como um candidato com apelo de favorito, o que não significa uma antecipação de vitória, claro.

Além de dispor de um forte aparato no maior colégio eleitoral do Estado, João Pessoa, o suporte que lhe dará a aliança com Cássio e Maranhão em Campina e nos principais colégios eleitorais da Paraíba pode ser decisivo em 2018, uma eleição que tende a repetir a divisão eleitoral dos últimos pleitos, com diferenças de votos apertadas.

E esse certamente será um dos maiores dilemas de Cartaxo na hora de decidir se será ou não candidato: apostar tudo numa disputa que pode lhe render a cadeira de governador, mas que também, em razão de ser mais essa uma disputa acirrada, leve-o a uma derrota e à perda, para ele a para seu grupo, da Prefeitura de João Pessoa, que ficará nas mãos de Manoel Jr., até bem pouco tempo um desafeto de Cartaxo.

Sobre o autor

Analista político convidado pelo Blog, Flávio Lúcio Vieira é Professor Associado do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba, Graduado em História e Mestre em Sociologia pela mesma instituição e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Trabalha com temas vinculados ao Nordeste brasileiro, desenvolvimento regional, desenvolvimento sustentável, desenvolvimento local e combate à pobreza.

Comente As opções de Luciano Cartaxo

  1. Vanuza Trigueiro Disse:

    Cartaxo tem um poder grande pelo seu carisma, tomara que continue sendo essa pessoa simples, trabalhadora é que tem no seu maior poder ser uma pessoa família.

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