O ladrão educado do Geisel

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(Ilustração: Foto Google)

Ele existe. E é chamado assim mesmo por quem dele ouviu falar ou por ele deixou-se abordar em rua de pouco movimento no Geisel, bairro da Capital onde atuaria com frequência. Quem atende ao seu chamado quase sempre acredita que “o rapaz parou para perguntar algum endereço”. Afinal, ele estaciona a moto rente à calçada, não desce, não tira o capacete, mas diz um “Senhora, por favor” em tom de quase súplica, de quem realmente vai pedir favor. Aí, a pessoa se aproxima e

“Por favor, senhora, me passe a bolsa ou o celular que é melhor pra senhora”, diz o assaltante, que as vítimas identificam como jovem, magro, de estatura média pra alta e um detalhe que chamou a atenção das mulheres assaltadas: por trás da viseira do capacete, dá para ver uma barba ralinha, daquelas de bigodete, a costeleta emendada ao cavanhaque, bem riscada, bem cuidada. No mais, um discreto cheiro de colônia barata, mas agradável, exala do jovem bandido ‘batizado’ de “O ladrão educado do Geisel”.

Queixas à Polícia? “Difícil, meu caro. Quem diabo presta queixa hoje de roubo de celular? Eu, pelo menos, não me dou ao trabalho. E não conheço ninguém que saia do seu canto para procurar uma delegacia e fazer B.O. por causa de celular roubado. E olha que coisa muita gente e quase todo mundo já perdeu celular para ladrão”, disse-me hoje (15) a Professora Valquíria (vamos chamá-la assim), que ensina em escola pública de João Pessoa.

Tomou conhecimento da existência do ‘ladrão educado’ esta semana, quando foi ao Geisel visitar uma amiga, também professora. Desceu do ônibus numa parada bem próxima da casa da colega. Mal deu dois ou três passos, percebeu um motoqueiro emparelhando. Ele pronunciou algo que o barulho do motor bem próximo não deixou Valquíria ouvir. De qualquer jeito, a voz que vinha da moto soava agradável, amistosa. Parou para escutar.

“Por favor, senhora, não se assuste, não faça nada. Só peço que me passe a bolsa ou o celular. Por favor, senhora, sem alarde. Vai ser melhor pra senhora”. Valquíria sentiu um pavor tamanho naquele instante que lhe deu no ato um acesso de tosse daqueles. Daqueles que lhe arrebentavam os pulmões no tempo em que trabalhava com giz na sala de aula. O medo a faz tossir com força e de olhos bem fechados, porque em segundos teve a certeza de que levaria um tiro.

“Quando tusso, faço mesmo barulho e ele bem poderia achar que eu estava fazendo por onde chamar atenção de outras pessoas”, explicou. Mas a reação do assaltante foi tão surpreendente quanto o curto e inesperado diálogo que se seguiu às tossidas. Vejam só

– Meu Deus, a senhora não é a Professora Valquíria?

– Sou, sou sim. Você me conhece?

– Fui seu aluno, Professora, lá naquela escola de Jaguaribe que o governo fechou…

– Desculpe, rapaz, mas com esse capacete não consigo reconhecer você.

– Desculpe a senhora, não ter lhe reconhecido logo. E me perdoe, viu, mas a senhora tá muito acabada. Só reconheci quando a senhora começou a tossir. Mas, olhe, vá embora, pelo amor de Deus. E num queira me reconhecer não, Professora. Vou morrer de vergonha.

– Mas, meu jovem, como é que você foi cair nessa vida? Fico muito triste saber que um ex-aluno meu

– Sabe como é, né, Professora O colégio fechou, o outro pra onde transferiram a gente ficava distante de casa, comecei a faltar muito, a ficar na rua. Aí

 

 

 

9 Comente O ladrão educado do Geisel

  1. Bruno Filho Disse:

    Espetacular. Como sempre consegui a transferência para o local do fato.

    • Aissi Monteiro Disse:

      É lamentável no dia do Professor, a ex-professora quase que seria assaltada pelo
      seu ex-aluno. Que futuro esse jovem terá no Brasil atual.

  2. antonio carlos ferreira de melo Disse:

    Nós professores somos historicamente assaltados pelos governos, que nos pagam uma ninharia, verdadeiros salarios de fome, inclusive nos surrupiando direitos expressos em lei aprovada pelo proprio governo, como o da Paraiba. Uma vergonha, mas, que não tira o orgulho de ser verdeiramente professor. Parabens a todos os colegas guerreiros.

  3. Maria Bernadete Oliveira Disse:

    Estou surpresa e chocada com essa matéria, onde mostra um diálogo entre ladrão e ex-professora, santo cristo, quando penso que já vi de tudo, aparece algo mais surpreendente ainda, onde vamos parar com bandido abordando as pessoas com a maior delicadeza e educação, “por favor senhora”, pode?

  4. alisson Disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    tô morrendo de ri, aqui sentado em minha cadeira no quanto de frente para meu computador, vendo que hoje os jornalistas da Paraíba não tem sequer nenhuma Materia que realmente chame atenção da população, tudo isso para dizer aos seus pequenos leitores que uma Escola da Rede de Ensino Estadual Fechou. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk muito engraçado esse ladrão Educado.

  5. DOMINGAS Dantas Disse:

    Fico indignada com tantas escolas que poderiam estar funcionando a todo vapor e estão fechadas so porque o governo do estado não tem mais responsabilidade com o ensino fundamental. Então abandonam os prédios. Jaguaribe esta cheio destes prédios em ruinas.

  6. Alfredo Disse:

    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Falta de matéria mesmo, só rindo!
    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  7. verônica guerra Disse:

    Meu Deus,como pode se fazer uma ligação tão perfeita? Fã.

  8. EDMILSON ABDIA DOMINIO Disse:

    MANDE ESSE “ASSALTANTE BONZINHO” AGIR COM ALGUÉM QUE POR “TAMBÉM SER BONZINHO”, MANDE-O PRO CÉU.

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