Da disputa entre ‘A Banda’ e ‘Disparada’ nasceu a MPB, diz pesquisador

Jair Rodrigues canta disparada no Festival (Foto: acerco.oglobo.globo.com)

Jair Rodrigues defendeu ‘Disparada’ no Festival de 66 (Foto: acerco.oglobo.globo.com)

Este 10 de outubro do ano da graça de 2016 marca os 50 anos da final do II Festival da Música Popular Brasileira com o memorável embate entre ‘A Banda’ de Chico Buarque e ‘Disparada’ de Geraldo Vandré e Téo Azevedo. Um momento que o pesquisador Gilvandro Rodrigues chama de divisor de águas, fundador da MPB. Chama em primoroso texto publicado em sua página do Facebook, compartilhado adiante pelo blog com permissão do autor.

Gilvandro Rodrigues é um dos pioneiros da informatização na administração pública na Paraíba, tanto estadual como federal. Atual gerente de Tecnologia da Informação da Unimed Norte/Nordeste, cargo semelhante exerceu na UFPB, onde foi superintendente do Núcleo de Tecnologia da Informação (NTI) entre os reitorados de Neroaldo Pontes e Jader Nunes (1993 a 2004). É também vice-presidente da Confederação Brasileira de Squash (CBS) e presidente da Federal Paraibana do mesmo esporte.

Há 50 anos…

Há exatos 10 anos, institui o “Dia Nacional da MPB” – 10 de outubro, e fiz uma festa vino-musical. Claro, ninguém deu bola, mas para mim continua valendo. Há exatos 50 anos, num dia memorável, histórico, divisor de águas na Música Popular Brasileira, nascia o que chamamos de MPB. 

(Foto: historiandonanet07)

(Foto: historiandonanet07)

10 de outubro de 1966, segunda-feira, uma ditadura militar instalada no país com a censura começando a mostrar a cara, eleições indiretas para presidente da República, um crescente temor no ar, protestos começando a dar sinais na música. No Teatro Record (SP) superlotado, noite de aplausos, xingamentos, vaias, gritos e torcidas inflamadas. Final do II Festival da Música Popular Brasileira. A Banda x Disparada.

De um lado, o vozeirão e carisma de Jair Rodrigues, defendendo com energia a Disparada de Geraldo Vandré. Do outro, a singeleza da musa Nara Leão defendendo A Banda de Chico Buarque. No Brasil todo, um país dividido ao meio, ou você era A Banda ou era Disparada, senão era alienígena, não tinha meio termo. Mais radical que o “Fla x Flu” dos bons tempos ou o “Coxinha x Mortadela” dos tempos modernos.

Brasil, São Paulo, SP. 10/10/1966. O cantor Jair Rodrigues canta a música "Disparada", de autoria de Geraldo Vandré e Theo de Barros, na finalíssima do Festival de Música Popular da Record, realizado no Teatro Record, na Rua da Consolação, região central da capital paulista. Pasta: 16832 - Crédito:ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Codigo imagem:55705

(Foto: Estadão/AE)

Nas escolas, bares, repartições, fila do ônibus, só se falava nisso – quem vai ganhar? Torcidas organizadas, defesas ferrenhas, amizades ameaçadas. Disparada era vigorosa, já com o selo insipiente de “música de protesto” (… mas com gente é diferente …), e conquistava os mais contestadores; A Banda era “bobinha” e contemplativa, cantando coisas de amor, e conquistava quem só queria paz e ficar à toa na vida.

As outras músicas do festival ninguém queria nem saber, foram devidamente eclipsadas. A Banda tinha mais adeptos e o disco sumiu das lojas em poucas horas do dia seguinte (sim, não tinha internet, mp3, ipod nem spotify; música se ouvia com disco de vinil, ou no rádio AM, ou na TV de tubo em preto e branco com chuviscos).

Eu era do time Disparada, sabia decorado prá frente e prá trás, e brigava com quem não fosse. Quem tem menos de 60 anos não faz ideia do que foi aquilo. O júri era um time de alto nível, com gente do naipe de Júlio Medaglia, Mario Lago, Paulo Vanzolini e César Camargo Mariano.

Depois das apresentações, uma sinuca de bico – que fazer? A direção da Record, alarmada com a possibilidade do teatro ser destruído pela turba enfurecida da música perdedora, optou por uma decisão salomônica e inédita: EMPATE. Com isso se evitava também o vexame de Chico recusar o troféu Viola de Ouro se ganhasse sozinho (ele reconhecia o valor de Disparada e já tinha confidenciado o propósito nos bastidores).

Na realidade, qual foi a decisão original do júri? Há controvérsias. A maioria dos relatos dá conta de que A Banda ganhou por um voto, mas também já vi supostas testemunhas dizerem que foi o contrário, a música de Geraldo Vandré e Théo de Barros foi quem ganhou. Vale o oficial, fiquemos com o empate, são duas músicas extraordinárias e icônicas, embora completamente diferentes. E Jair recebeu ainda o prêmio de melhor intérprete, esse uma unanimidade. Nascia assim a MPB, saindo da complexidade da bossa-nova e do baixo astral das músicas de roedeira dos sambas-canção. 

Vandré, Roberto e Chico (Arquivo Manchete)

Vandré, Roberto e Chico (Arquivo Manchete)

Acalmados os ânimos daquele 10 de outubro, a MPB convergiu (eu mesmo aderi a Chico rapidamente) e a bronca passou a ser “MPB x Jovem Guarda”, “violão x guitarra”. MPB falava de amor, mas era principalmente engajada e com letras criativas para passar mensagens de protesto num ambiente de censura e repressão política.

Em 1967 o III Festival da Record foi menos polêmico e quatro músicas excepcionais ficaram à frente – Ponteio (Edu), Domingo no Parque (Gil), Roda-Viva (Chico) e Alegria, Alegria (Caetano). O grande choque foi a entrada gloriosa da guitarra na MPB naquela audaciosa abertura de Alegria, Alegria. Também chamou a atenção a participação de Roberto Carlos (os festivais eram tão importantes que até o rei da Jovem Guarda apareceu e beliscou o quinto lugar). E o lance bizarro foi quando Sérgio Ricardo, irritado com as vaias do público, quebrou seu violão no chão e jogou os cacos para a plateia.

  • (Gilvandro Rodrigues Filho)

3 Comente Da disputa entre ‘A Banda’ e ‘Disparada’ nasceu a MPB, diz pesquisador

  1. jose cabral Disse:

    Excelente texto. Bom no conteúdo, forma, estilo, registro histórico, resumido e claro. Lembro bem de você Gilvandro. Não era de sua turma. Parabéns.

  2. Eduardo D'Amorim Disse:

    Caro Gilvandro.
    Parabéns. Eu neste ano estava na Europa, justamente por causa da bendita.
    Sai em 64, em novembro. Um tempo em Dakar e depois Europa.
    Mas na Europa eram muitos os brasileiros saídos, como eu. E estudávamos em Louvain, Bélgica. Creio que eram uns 200 estudantes, no mar dos 30.000 de 80 nacionalidades. Mas, esta disputa foi vivida por nós. Havia duas correntes. Creio que as duas são músicas de protesto. E muito boas e belas. Vejo na música de Chico uma crítica fina, quase subliminar, inteligente. Na de Vandré, uma crítica aberta, uma espada ferindo de peito aberto os milicos, como nós chamávamos os usurpadores do poder.
    Chamamos, logo depois, Vandré para nos fazer uma palestra em Louvain. Ele veio. E nós, sem muito respeito pelos símbolos do Brasil, assumidos agora pelos militares, colocamos na mesa como toalha uma bandeira do Brasil, única que encontramos. Vandré entrou e, vendo a Bandeira, tomou-a nos braços e começou a chorar. Muitos minutos que nos pareceu uma eternidade. Compreendemos o gesto e aplaudimos. E a palestra se resumiu a este gesto.
    Gosto de lembrar do Vandré daquele tempo, e não o de hoje.
    As duas músicas continuam emblemáticas. Creio que as gerações de hoje gostam mais da de Chico, por ignorar o que a juventude daquele tempo passou.
    Eu fico com as duas, dependendo da ocasião e do espírito.
    Eduardo D’Amorim.

  3. EUGÊNIO FELIPE Disse:

    Um abração com a banda em disparada para Gilvandro que me dá a possibilidade de, com sua crônica maravilhosa, viver um pouco dessa belle époque em que eu tinha pouco mais de um ano de vida…

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