Crônicas

Pequena intenção de amar ou novas resoluções na folha branca de papel

Sim, você que me iludiu e humilhou, eu vou te esquecer.

Primeiro, você vai virar lágrima em meu peito, um rio caudaloso de fel e angústia. Depois, lixo, bagaço de fruta, os restos que não merecem ser separados em recipientes para reciclagem.

Sim, eu vou cantar modinhas, me transmutar em uma ciranda, levitar enquanto lavo as taças de vinho tinto da noite passada – o riso a me doer as costelas.

Sim, ainda haverá tempos de lembranças, mas se existem dias em que esqueço até a senha do banco – oh, céus! – claro que tirarei da mente todos os dígitos da nossa ex-história de amor.

Sim, porque eu tenho espelhos em casa e me observo todos os dias. Esmiúço a face e já não descubro restos enegrecidos do ontem ao redor dos olhos.

Em minha pele, agora há purpurina e ninfas. As noites de insônia viraram éter sob os lençóis – os fluidos da madrugada a temperar o corpo.

Sim, agora eu sussurro delícias. Pontuo as frases com pequenas ou grandes palavras indecentes.

Faço origami com meu corpo, invento novas posições de ioga e crio impublicáveis haikais: lua fértil/noite concreta/cu é lindo. Misturo Adélia Prado com vodka, Drummond com tequila e verto páginas e mais páginas de Leminski.

Sim, você me perdeu. Eu ganhei a vida!

Crônicas

A menina do dedo podre

Tudo o que Midas tocava virava ouro. Onde Tistu (personagem de Maurice Druon) colocava o dedo, nasciam plantas e flores. Ela, coitada, tem dedo podre. Desde criança, aprendeu que não se apontam estrelas no céu, para não ganhar verruga nos dedos. Tem as mãos lindas, pele macia a custo de hidratantes caros, mas sempre há algo estranho em sua vida amorosa.

Tudo dá dor de cabeça e lágrimas: os homens que parecem certos, sempre se mostram o bicho dentro da fruta. Como aprendeu com as estrelas – e para não ter novas verrugas na alma – não aponta ao escolher paquera, namorado, ficante. Tsc tsc: é um cuidado à toa! Logo, logo, o cheiro de coração estragado vai emergir de seus longos dedos; – unhas pintadas com o esmalte “Doce paixão”.

A quantidade de problemas amorosos que ela coleciona daria umas boas sessões de terapia – ou de muitas conversas com as amigas. Entra balada, vira balada, chega estação, sai estação, e ela sempre busca o mesmo perfil de homem: o cara errado!

É o sujeito comprometido; o infiel (safado), mulherengo; o rapaz que só quer transar sem compromisso nenhum; o folgado que vive se aproveitando do status e dinheiro da companheira (sempre esquece a carteira na hora de dividir a conta e ainda fica com o troco que não é dele); o moço que adora ser idolatrado, mas não percebe que tem uma mulher ao seu lado. É o desempregado; o imaturo; o eterno concurseiro; aquele que arruma um emprego meia boca, porque adora viver às custas do pai. É o homem com ciúmes ao extremo, possessivo, agressivo, dependente químico… A lista de “homens errados” é longa, mas quem tem dedo podre, sempre vai saber – ainda que inconscientemente – onde encontrá-los.

Na maioria das vezes, é preciso mesmo procurar a ajuda de um psicólogo, para tentar sair desse padrão de comportamento. Quem sabe não está lá na infância, na relação desastrada dos seus pais, a chave para tudo isso? Por que será que buscar esse tipo de companheiro se tornou um vício? Por que uma mulher bonita, resolvida e independente precisa de alguém errado para bagunçar a vida?

Mais: por que será que muitas mulheres não se percebem à altura de um relacionamento e de um companheiro digno? Por que tanta menina não consegue ficar sozinha – amando a si mesma – e tasca no coração, e carimba na alma, e coloca como prioridade na vida o primeiro homem-bomba que encontra pela frente?

Numa analogia meio capitalista, talvez seja o caso de procurar um companheiro como quem compra um carro seminovo. Procure saber a “quilometragem rodada”; veja se capricharam na “funilaria” para disfarçar marcas do passado; descubra se o dono do veículo enganou uma “antiga cliente”.

Enfim, pois mais que se tome cuidado, a aventura amorosa envolve riscos, mas cabe a você, menina do dedo podre, aprender a sair desse labirinto. O Minotauro pode até ser “gostoso”, mas não traz felicidade.