O 31 de agosto de 2016 entra para história política do país

O dia 31 de agosto de 2016 será uma nova data histórica para o país. Dia em que se fechou um ciclo político-administrativo e um embate jurídico com polêmicas, controvérsias e dúvidas. Por isso, não teremos uma única versão forte do que nos marcou. No mínimo, duas. Não há motivos para comemorar, sendo a favor ou contra ao que está posto.

Estamos tratando da retirada de uma presidente – mas poderia ser um presidente – eleita pelo voto popular. Retirada por um parlamento de “moral”  questionável, “ficha corrida” cheia de problemas, mas que tem a legitimidade do voto popular. As versões estão postas.

 

a favor de dilma

O golpe parlamentar

Para algumas gerações, será a confirmação de uma injustiça, por meio de um processo legal, maculado, viciado. Dilma Rousseff foi arrancada da presidência sem cometer crime de responsabilidade. Apenas irregularidades de gestão, como outros presidente fizeram, sem potencial para degola.

Nesse grupo, há os que entendem que a gestão da petista foi ruim, que gerou uma grande crise econômica, mas que havia solução, se os deputados e senadores tivessem interesse de ajudar.

Mas esse, definitivamente, não foi o interesse quando aprovaram pautas-bomba, quando rejeitaram projetos com medidas econômicas essenciais para manter viva a confiança dos investidores. Entre eles, há também, os que atribuem problemas econômicos  ao agravamento da crise internacional.

Nesse versão, não há dúvidas de que o impeachment nasceu depois da chantagem de um ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB), envolvido, claramente, em esquemas de pagamento de propina e desvio de dinheiro. Após a traição de um vice-presidente que percebeu uma oportunidade de atalhar.

Para quem está nesse grupo, “a grande mídia”, a elite e o mercado financeiro tiveram papel fundamental na criação do clima de desastre administrativo; influenciaram corações e mentes dos brasileiros e fizeram a cabeça de empresários (grandes e pequenos) que, temendo a piora da situação, demitiram, cortaram custos, acelerando declínio de nossas contas.

A Justiça, parcial, seletiva, segundo integrantes desses grupo, também contribuiu para a criação de uma cenário de podridão dentro de um único partido e corrupção no governo, que potencializaram a insatisfação popular.

Para finalizar (e não me alongar), nesse grupo estão os que entendem que o PSDB, partido derrotado quatro vezes nas urnas, e o PMDB, partido que nunca ganhou nada, mas sempre foi necessário à governabilidade, encontraram terreno fértil para o golpe de Estado: presidente sem popularidade, economia fragilizada, mídia parcial.

Foi a oportunidade que encontraram para derrubar o Partido dos Trabalhadores, no poder havia 13 anos, legenda que mudou a face do país, dando oportunidade aos mais pobres e diminuindo as desigualdades, colocando o país numa fase de crescimento, diminuindo a miséria, aumentando a inclusão social, o acesso à educação. Uma fase de desemprego baixo, taxa de juros em queda.

Para a maior parte dos que tem esse pensamento 31.08.2016 foi o dia da efetivação de um golpe parlamentar. Um dia nebuloso. Um ataque à democracia brasileira já frágil e jovem.

 

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A decisão justa

Do outro lado, há quem não tenha dúvida de que a decisão é justa. Dilma  teria cometido o crime de responsabilidade com a emissão de decretos suplementares, sem autorização do Congresso, e feito uma contabilidade criativa por meio dos empréstimos com os bancos públicos. Seu dolo, nesse caso, estaria presente.

Os crimes cometidos em 2015, segundo esse grupo, foram os mesmos de anos anteriores (2013,2014), maquiados principalmente antes da eleição. O “rombo econômico” foi escondido para estourar após a vitória nas urnas. Nas palavras do senador paraibano Cássio Cunha Lima (PSDB): um estelionato eleitoral.

Quem compartilha desse olhar, vai dizer aos seus filhos que a presidente sofreu impeachment porque enganou os brasileiros e logo após a eleição não soube conter a crise econômica gerada pelas próprias medidas atabalhoadas, populistas, irresponsáveis.

O país teria entrado na maior crise da sua história, com desemprego em alta, inflação crescendo, fábricas fechando, comércio demitindo, as pessoas ficando mais pobres.

Vai se firmar o discurso de que além de todos erros na macroeconomia, Dilma era de um partido envolvido em vários esquemas de corrupção. Um deles quase que destruiu a maior empresa pública do país: a Petrobrás.

Para eles, parte dos esquemas de corrupção foi descoberta por um juiz chamado Sérgio Moro, que teve coragem de peitar os maiores empresários do país, além de políticos. Muitos foram presos delatando integrantes do governo, que recebiam propina de contratos sujos, de licitações fraudulentas.

Nessa versão, será esquecido que muitos parlamentares que votaram para derrubar a presidente fizeram parte do governo que derrubaram. Não irão lembrar que muitos deles são investigados por crimes graves.

Nessa ala, a ideia que perdurará é a de que o impeachment nasceu das ruas, de um povo insatisfeito, que perdeu o poder de compra, indignado com a corrupção que se instalou no governo durante os 13 anos. Para esse grupo, no dia 31.08.2016 foi feito Justiça ao povo brasileiro e a democracia que, mesmo ferida, foi respeitada. Afinal, mostrou-se com o processo considerado legítimo que ninguém está acima da lei: nem um presidente de República.

 

Fotos da Internet

Dilma fala em consulta popular para novas eleições e dispara contra “mesquinharia e atraso”

Logo depois da audiência pública nesta quarta-feira (15), na Praça do Povo do Espaço Cultural, em JP, a presidente afastada Dilma Rousseff  concedeu entrevista à imprensa. Quatro perguntas. Apenas quatro questões feitas por jornalistas sorteados, entre dezenas deles que ocuparam o Teatro Paulo Pontes. Era quatro ou nada, disse um assessor.  Dilma não sentou no sofá colocado no meio do palco. Em pé, rodeada pelos profissionais, respondeu as perguntas. A fisionomia variava entre o abatimento e a força – as palavras e os seus alvos determinavam o perfil.

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A presidente afastada começou falando da possibilidade de um plebiscito, no qual a população poderia escolher se queria ou não novas eleições. Dilma afirmou que não cabe a ela fazer a convocação de um referendo, mas do Legislativo – Senadores e Deputados. Não negou, nem afirmou querer a consulta popular. Mas afirmou que prefere consulta à tomada do poder pela “usurpação”. Segundo ela, as instituições brasileiras foram atacadas por processos parasitários.

Conspiração de Temer e Cunha

Respondendo a segunda pergunta, afirmou que está ficando cada vez mais clara a relação entre o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), e o presidente interino, Michel Temer (PMDB).  Ela insinuou que a ligação dos políticos foi construída com dois objetivos: implantar uma “solução Temer” e barrar a Lava Jato.

Acho que esse toma lá da cá já deu o que tinha que dá”

A presidente afirma que o presidencialismo de coalizão fracassou. E usou como exemplo ministros que foram de seu governo e que pularam de barco e hoje fazem parte da gestão Temer. Segundo ela, se voltar ao Palácio do Planalto, terá de fazer um ministério diferente, com outro padrão. “Acho que esse toma lá da cá já deu o que tinha que dá”, afirmou.

Dilma criticou “confisco” de recurso do Viaduto do Geisel

Para Dilmdilma 05 compactadoa, parasitas contaminaram a árvore democrática e eles precisam ser “mortos ou extintos”. Fazia referência aos políticos que, segundo ela, conspiraram contra a democracia e o voto popular. Rousseff mostrou descontentamento com as medidas do governo consideradas mesquinhas, como evitar que ela use o avião da Fab.

Também considerou grave o bloqueio que o Ministério das Cidades fez nos recursos (R$ 17,5 milhões) para conclusão do Viaduto do Geisel, em JP. O dinheiro foi liberado por ela antes de sair.

Uma coisa grave aconteceu aqui na Paraíba (…) é uma volta ao passado. O Lula mudou e eu mudei. Nós mudamos as relações com os governadores”

No caso da parcela do governo federal para o Viaduto do Geisel, Dilma só não lembrou que nada disso teria acontecido se ela, nesse um ano e meio de segundo mandato, tivesse atendido aos apelos do governo para liberação do dinheiro. Sentou em cima.